Quarto 1609

O barulho das rodas do carro estava ressoando nos seus ouvidos como uma sinfonia pouco convidativa, não gostava do asfalto. O conceito em si de algo que se liquefazia e solidificava em meio-ar para que pudéssemos pisar e locomover em cima lhe era estranho. Como se o líquido formado anteriormente por seres vivos únicos e majestosos hoje apenas servisse como uma base para que pudéssemos explorar e desprezar, sem que nunca se pudesse lhe dar o verdadeiro valor.

De todo modo, duvidava que seu sentimento fosse compartilhado com o taxista que o levava ao hotel que abriu na região. Tinha um nome deveras espalhafatoso: Hotel Fantástico, e parecia ser um local aconchegante, mas o que lhe interessava lá não era o aconchego e luxo, e sim a localização. 

Estava lendo um livro digital qualquer que comprou na promoção. Era de um autor italiano do século XIX, havia esquecido seu nome, mas uma frase parecia ressoar em sua cabeça como as próprias vibrações da estrada: “O amor, para ser perfeito, devia ser como o rotífero: morrer num raio de sol, renascer numa gota de orvalho”.

Era isso que ele buscava naquele quarto de hotel, renascimento. E finalmente havia descoberto como fazer isso…

— Sir Crowley? Parece que a avenida está bloqueada pela PRF, vou pegar um desvio lateral, está tudo bem? Você disse que estava com pressa para um compromisso, não é?

Crowley… o nome de um ocultista famoso, era o nome que dera ao taxista para evitar usar seu nome de nascença. Mal sabia o pobre trabalhador que a polícia rodoviária estava fechando a avenida para pegá-lo.

Quanto ao compromisso, disse-lhe que era um contador. De certa forma era verdade, trabalhava com números também, mas não da forma que imaginava o funcionário público.

— Pode fazer como quiser, Mathias, o importante é chegar no hotel – respondeu com um sorriso despreocupado, afinal, após aquela noite, tudo estaria resolvido.

Não demoraram muito para chegar ao referido hotel. A estrutura era legal, tinha umas decorações festivas, com dragões, elfos, goblins e seja lá o que mais forem essas coisas de literatura fantástica que os comuns gostavam de cultuar.

Não prestou tanta atenção assim, mas tinha algo que o encucava: o número de seu quarto era auspicioso, 1609…

16 era o número da perfeição física, o quadrado do número 4, o auge da força material, e também significava a queda pela arrogância. Lembrava a ele da história da torre de Babel.

0 era o vazio, aquilo que existia antes da criação, antes da gênese, e antes do próprio universo, a ausência do essencial.

Mas o 9… o nove era um número que voltava sempre a ele, era o número da ressurreição, um número que demonstrava que podíamos voltar para tentarmos sempre, e isso o deixava esperançoso. Como se o próprio número de seu quarto contasse sua história: ele atingiu o auge de poder no passado, devido à sua arrogância ele caíra, passou tanto tempo no limbo, perdido. E agora… ele iria renascer, mas não só ele.

Agradeceu ao taxista e pegou sua mochila preta que estava no porta malas do carro. A viagem já havia sido paga previamente, então ele já se dirigiu ao saguão. 

Novamente, deu o nome falso assim como os documentos falsos para a recepcionista de olhar perdido e distante que acabou de tirar os olhos de suas redes sociais para atendê-lo:

— William Crowley? Quarto 1609, certo? Está aqui sua chave, tenha uma ótima noite senhor, espero que aproveite nosso hotel – ela repetiu monotonamente o discurso programado em sua mente e voltou a olhar para seu smartphone. 

“William” pegou sua chave e sua mala e se dirigiu ao elevador, dividindo-o com um senhor pálido de trajes escuros e com óculos de sol.

Sem trocarem uma única palavra, se separaram no primeiro andar, o andar de “William”, e o rapaz encontrou seu quarto ao final do corredor, à esquerda.

Foi então que William deixou de ser William e voltou a ser Fernando Baptista Júnior, o homem mais procurado do Brasil. Era naquele dia que teria sua namorada de volta, mesmo com todo mundo dizendo que ele a havia matado.

Trancou o quarto e começou a se preparar: faltavam mais de 2 horas para as 22:00, então havia tempo para que o ritual de evocação começasse.

Pegou a bolsa preta que trazia consigo e retirou de lá seus 5 catalisadores: um ovo de ferro banhado em cobre e prata; uma adaga enferrujada com inscrições em azul; um conjunto de dados de 100 lados cobertos de sangue seco; uma aliança de ouro partida ao meio e o crânio limpo e empalhado de um corvo.

Usando uma bússola, mediu o norte, e usando-o como ponto de referência, colocou o primeiro catalisador na ponta boreal, e os outros quatro de modo que se formassem 5 pontos equidistantes entre si. Com um giz, desenhou entre eles as linhas de um pentagrama.

Após isso, com uma faca cerimonial, foi repetindo as palavras que aprendera naquele dia.

Isso durou até às 22:00 em ponto, quando finalmente abriu os olhos e viu a criatura enevoada à sua frente.

Antes que qualquer coisa acontecesse, ele bradou:

— Guardião das correntes, prostre-se

E foi assim que grilhões da mais profunda escuridão prenderam e moldaram a forma da criatura, que aparecia claramente em sua frente sob a forma de uma criança de cabelos loiros bagunçados, cachecol, olhar maroto e roupas claras. Conhecia aquela forma, era o pequeno príncipe de Saint-Exupéry.

A criatura tomava várias formas, de acordo com o que o contratante imaginava ver. Era um mistério ainda qual o padrão de formas tomadas por “Aquele que Regride”, mas em toda a literatura, poucos bruxos haviam conseguido domá-lo sem sequelas.

— Está pronto para o procedimento, meu amo? – a voz da criança saiu distorcida em lábios fantasmagóricos, mas ainda era doce.

— Estou – respondeu simples, sem firulas.

— Não temos muito tempo, então começaremos com o primeiro trauma: o nascimento.

O ovo de ferro se levanta em meio-ar e se aproxima de Fernando. 

Esse trauma ele já esperava superar. De fato, era correto dizer que já havia superado o fato de ter sido trazido ao mundo contra sua própria vontade, de ser forçado a tomar suas escolhas, a sofrer por elas e morrer por elas. Então o ovo nem mesmo chegou a se iluminar quando o brilho já havia se apagado, não há como lamentar o nascimento de um homem que já morreu há muito tempo.

Então o primeiro desafio foi cumprido.

— Muito bem, iremos para o próximo… – “Aquele que regride” passou para o próximo item: A adaga quebrada.

A paisagem do então hotel luxuoso e repleto de desenhos fantásticos se altera e Fernando se vê na rua de sua infância, com seu amigo Felipe.

Eles não sabiam naquela época, mas era a última vez em que se veriam.

Os pais de Felipe iam se mudar para a fronteira, sua mãe era oficial do exército, e Fernando nunca lhe disse adeus, para o seu primeiro amigo, o primeiro que lhe acolheu em toda sua vida.

Foi uma surpresa, havia reprimido aquela memória… mas ainda sim teve forças para continuar.

Abraçou as lembranças do amigo com força e as deixou ir dessa vez, se despedindo e não mais as guardando no fundo de sua alma.

O brilho da adaga se apaga, era o brilho da “falha”, da virilidade perdida por meio do problema em se comunicar. E também cai ao chão.

Em seguida, os dados com sangue seco se aproximam.

“O acidente”

Aquilo que muitos temem, mas poucos sabem como evitar. E menos ainda sabem que não se há como evitar: o medo da aleatoriedade do sofrimento, de que tudo pode dar errado a qualquer momento e nem sempre a culpa é sua. 

Foi aquela vez que bateu o carro após o descuido de um motorista bêbado, havia quebrado algumas costelas e ficou manco, os dados que carregava em seu bolso para uma partida de RPG ficaram cobertos pelo seu próprio sangue.

Mas nada disso importava hoje, não tinha mais medo do acaso, ele era poderoso o suficiente para controlá-lo. Então o brilho dos dados se apagaram. Olhou para a criatura: não era mais o pequeno príncipe, era uma fera que babava e consumia seu desespero, um ser peludo e monstruoso, a cada vez que ele ganhava, a criatura também ganhava, mas no final, ele iria prevalecer.

A aliança partida começa a brilhar desta vez: Vitória, sua ex-mulher, havia o traído. A única pessoa que confiava naquela vida estava traindo-o com o seu próprio pai que abusou dele.

Aquilo foi o suficiente para fazê-lo cair em uma espiral de loucura e autossabotagem, quase se matou naquele ano. Mas ainda sim… tinha luz no fim do túnel, essa luz…

A lembrança dessa luz, a possibilidade de vê-la novamente o fez enfrentar esse trauma mais uma vez. A fera parecia decepcionada, mas sabia que o próximo trauma iria fazê-lo fraquejar.

A caveira de um corvo… “A Morte”.

Gabriela, sua namorada, a luz no fim do túnel. Aquela que a salvou de seu passado, e morreu devido ao seu erro. Ele havia tentado esse ritual uma vez antes, iria transformá-los em imortais para se amarem para sempre, mas… Lágrimas saíram de seus olhos. “A arrogância traz a queda” ele estava preparado?

A fera avança, as cortinas se fecham.

Epílogo:

Lis é o nome dessa ave, é o que sobrou naquele quarto de hotel.

“Aquele que Regride” estava morto, era seu ódio acumulado, tudo que sofrera.

Aquilo era a ressurreição que queria? Ele queria ressuscitar ela… queria a Gabriela.

Mas agora ele era Lis.

Voou pela janela.

E observando todos caminhando calmamente nas ruas, vários metros abaixo dele, Lis se irrompeu em chamas azuis, e, assim como todo seu rancor, se foi para sempre. Foi morar puro no alto, talvez, só talvez, ao lado dela.

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PRESENTE E MEMÓRIAS

Alexandre sentia saudades da ceia que teve na infância, a ceia do Natal de 1997, para ser mais exato. Foi quando seu pai, cortador de cana no interior de Pernambuco, conseguiu um dinheiro extra no jogo do bicho. Talvez não fosse uma excelente ideia usar o dinheiro conseguido com a benção da Fortuna para proporcionar um momento breve de prazer para sua esposa e seus oito filhos. Talvez, se o seu velho tivesse investido de maneira consciente esse dinheiro, poderiam ter tido um futuro melhor pela frente, e não precisaria separar os filhos naquele fatídico verão de 2001.

Mas até quando as pessoas podem recusar felicidade imediata em prol de um conforto maior no futuro? Ainda mais as pessoas que foram lapidadas e instruídas a buscarem o consumo acima da estabilidade. Eles queriam uma ceia naquela época, e podiam tê-la, por que não?

Alexandre não se ressentia, era uma das melhores lembranças de sua infância: ele deveria ter seus doze anos naquela época, e foi a primeira vez que comera até se empanturrar. Leitão assado, tutu à mineira, farofa de bacon, arroz à grega, vinagrete e muito refrigerante (guaraná Jesus, para honrar suas origens Maranhenses).

Duvidava que seus irmãos haviam conseguido subir tanto na escada social quanto ele, embora não pudesse saber como. Nunca mais os vira desde que seu pai morreu, assassinado pelos cobradores de dívida. Sua mãe teve que decidir com quais filhos ficaria, e quais daria para os demais membros da família.

Era um pensamento mórbido para uma mãe… mas sabia que mães eram feitas de um material mais resistente que os demais, então ela conseguiu dar conta. Depois de tudo isso, ele havia conseguido se virar morando com um primo distante, o rapaz, de nome Cláudio, acabou por se casar com uma moça de posses que lhe custeou a educação, e Alexandre pôde ser algo que os irmãos nunca sonhariam em ser: um doutor. Não um doutor médico, mas um doutor da sapiência, um homem feito que possuía doutorado e PHD, após sair de um local onde os demais não tinham sequer completado o ensino fundamental. 

E pensando nisso que ele se dirigiu aquela loja em especial em Aspen, Colorado. Havia se casado nos Estados Unidos, possuía duas filhas, ambas tinham nomes latinos-brasileiros, pois ele tinha orgulho de sua cultura, e principalmente da cultura aguerrida e incansável do nativo nordestino. Elas eram Francisca e Maria Alice, de 10 e 7 anos, respectivamente. 

Ainda não havia decidido que compraria para elas, crianças hoje em dia não eram tão fáceis de agradar quanto as de antigamente, em que ele se contentaria com qualquer garrafa pet com rodas improvisadas e usaria a imaginação para terminar o carro de fórmula 1.

Com essa indecisão, estava na frente da vitrine da loja “Decore”, especializada em brinquedos e decorações natalinas. De relance, pode ver os funcionários lá dentro vestidos todos de duendes, correndo para um canto e outro e atendendo a multidão de pessoas.

Era raro visitar uma loja física, sempre comprava tudo online, após pesquisar intensamente sobre os preços dos produtos em todos os locais disponíveis. Mas a loja havia chamado sua atenção, qualquer coisa, iria ver algo legal nela e procurar pelo preço do mesmo produto online, mais barato.

Era curioso que havia tantas pessoas em uma loja tão pequena, mas a decoração era impressionante, tinha um clima natalino agradável e uma música jazz bem suave percorria os corredores, deixando seu coração quentinho.  Além do mais, o cheiro de cookies recém assados estavam abrindo seu apetite.

Olhou a vitrine com curiosidade: havia alguns brinquedos confeccionados à mão, não possuíam indicativos de marcas, nem nada do tipo, pareciam bem feitos e bem pintados, um pouco delicados, talvez, mas seriam itens de colecionador.

— Gostou dos nossos produtos, senhor? – Uma voz aguda perguntou próxima a si.

Olhou para seu interlocutor: era um dos funcionários da loja, vestidos de gnomo. Era mais baixo que parecia dentro da loja, deveria ter entre 1,55 a 1,60, no máximo. Isso configurava nanismo? Não sabia dizer.

— São muito bem feitos, vocês mesmo que confeccionam? – Alexandre perguntou, impressionado.

— Sim, nosso gerente, o Nicholas – apontou para o homem vestido de Papai Noel no centro da loja – monta todos projetos e constrói os protótipos. Nós pegamos os diagramas que ele faz e montamos as réplicas para vender. Falando nisso, meu nome é Chik.

Alexandre olhou para ele, claramente ainda estava interpretando um papel, não iria perguntar mais que isso. Quem diabos se chama Chik?

— Prazer, Alexandre, mas pode me chamar de Alexander, caso ache a pronúncia difícil.

— Não é daqui também, senhor Alexandre? – repetiu o nome Alexandre perfeitamente, sem nenhum sotaque.

— Não – riu Alexandre – bela pronúncia, por sinal. Sou do Brasil.

— Ahhh, Brasil, belo país… 

— Já foi lá?

— Algumas vezes, aqui e ali… deseja conhecer mais da loja?

— Claro – Alexandre já estava curioso o suficiente para saber qual era daquela loja.

— Vou te acompanhar enquanto Nicholas atente os outros clientes, depois disso, ele te atende, tudo bem?

— Ah, não será necessário, acho que ele já está ocupado demais, não seria trabalho demais para o gerente?

— Ahhh, mas vir na “Decore” e não ser atendido pelo Nicholas é como ir na Disney e não ver o Mickey, não teria graça nenhuma. Você vai entender depois – riu Chik – Enquanto esperamos, você aceita cookies?

— Claro, um dos motivos que entrei na loja foi o cheiro de cookies – brincou Alexander.

— Claro que foi, todo mundo gosta de cookies – Chik era um cara bem feliz, aparentemente.

Experimentou um cookie que o funcionário ofereceu, era bem gostoso, tomou também chocolate quente, que estava muito bom.

— Superou minhas expectativas – disse Alexandre, limpando a boca.

— Fico feliz com isso, se estivesse ruim, teríamos que despedir o cozinheiro, e ele é meu irmão – ele riu de sua própria piada.

— Por favor não faça isso, ele foi muito bem.

— Então, procura o que especificamente aqui na loja? Vamos facilitar o trabalho do Nicholas.

— Na verdade, não tenho muita ideia… não sei o que minhas filhas iriam gostar de receber de presente. Elas só ficam no celular, ou tablet. Pensei em comprar algo relacionado, mas não quero alimentar esse vício.

— Difícil… qual a idade delas?

— A mais nova tem 7, a mais velha 10.

— Dê uma olhada nas bonecas feitas à mão, vê se alguma lhe agrada – disse, apontando para uma prateleira próxima – por sinal, o Nicholas está vindo, olha ele ali!

De fato, o homem rechonchudo de bochechas rosadas e roupa de Papai Noel estava vindo com um sorriso no rosto.

— Boas Vindas, querido cliente, espero que esteja aproveitando nossa loja – disse o homem de vermelho – acredito que já tenham me apresentado para você, mas vou repetir! Meu nome é Nicholas, sou gerente da loja! Prazer em conhecê-lo.

— O prazer é todo meu, senhor Nicholas, me chamo Alexandre – estendeu a mão para cumprimentar o gerente.

O gerente retribuiu o gesto e acompanhou-o em direção à prateleira, mostrando algumas bonecas muito bem feitas de madeira e tecido. O correto era dizer que tinha bonecos e bonecas, eram feitas de porcelana e muito bonitas, mas não parecia ser algo que crianças gostassem.

— Bom, não sei se minhas filhas iriam gostar de bonecas tão frágeis – começou, com um tom apologético – sabe como são crianças, né?

Nicholas sorriu, mas seu olhar ficou mais pensativo, como se estivesse ponderando a resposta cuidadosamente.

— Eu entendo perfeitamente, Alexandre. Hoje em dia, as crianças têm outro tipo de interesse, mais voltado para a tecnologia. Mas essas bonecas têm algo especial: elas são mais do que apenas brinquedos, são verdadeiras obras de arte. Cada uma delas tem sua história, seu propósito, e são feitas para durar gerações, como um legado. Talvez, se você achar que suas filhas têm uma conexão com a cultura e a tradição, elas possam se encantar. 

Alexandre olhou as bonecas com mais atenção. Algumas eram representações de personagens típicos do Natal, como o próprio Papai Noel, o duende, e até figuras mais folclóricas, como a Yule Goat, da tradição escandinava. Havia também versões de personagens mitológicos e animais, todos incrivelmente detalhados, com roupas feitas à mão, rostos pintados com uma delicadeza impressionante.

— São realmente lindas — disse Alexandre, com um sorriso desconcertado. — Mas, como você mesmo mencionou, minhas filhas são bem modernas, elas gostam de coisas mais… tecnológicas. 

— Bem, isso é um desafio, mas também uma oportunidade — disse Nicholas, enquanto o conduzia para outra prateleira, onde estavam expostos itens mais interativos. — Olha essas figuras, por exemplo. Elas são mais voltadas para a imaginação, mas têm um toque moderno. São brinquedos educativos, mas que se conectam com a tecnologia de uma maneira que você talvez aprove. Elas interagem com tablets, têm aplicativos e jogos que desenvolvem habilidades. Não estou dizendo que deve substituir o digital, mas talvez combinar os dois universos, o antigo e o novo.

Alexandre olhou com mais interesse. Havia figuras de animais de madeira, que, ao serem colocadas sobre uma superfície de madeira especial, interagiam com o aplicativo no celular, mostrando informações sobre os animais, sons e histórias interativas. Embora fosse um brinquedo que misturava o antigo e o novo, ele ainda se sentiu um pouco desconfortável com a ideia de incentivar ainda mais o uso de telas. Mas, por outro lado, as peças eram encantadoras.

— Isso me lembra de uma coisa — Alexandre disse, com uma leve nostalgia na voz. — Quando eu era criança, a diversão era simples. Eu não tinha um tablet, nem celular, e ficava feliz com qualquer coisa que minha mãe me desse. Eu lembro da ceia de 1997, e o quanto aquilo foi importante para mim, não pelo que comemos, mas pela sensação de união, de felicidade simples. E, agora, vejo minhas filhas imersas nesse mundo virtual e fico pensando se elas têm alguma ideia do que é uma felicidade mais genuína, mais simples.

Nicholas, que até aquele momento se manteve quieto, como se estivesse apenas mostrando os produtos, olhou para Alexandre com um olhar compreensivo.

— Eu sei exatamente o que você quer dizer, Alexandre. É uma luta constante, a de equilibrar o antigo e o moderno. A vida moderna tem suas vantagens, claro, mas a sensação de conexão verdadeira, de momentos simples e genuínos, muitas vezes se perde. Eu, por exemplo, fui criado em uma pequena vila onde as coisas eram mais lentas, mais calorosas. O Natal para mim era uma festa de comunidade, onde todos se ajudavam e compartilhavam. Mas, com o tempo, eu também fui absorvendo essa cultura do consumo, da pressa, da aparência… e o que me restou foi uma sensação de vazio, uma falta de algo mais profundo. 

Alexandre olhou para o homem, surpreso com a sinceridade na resposta, e uma conexão não planejada pareceu surgir entre os dois.

— Eu entendo… — disse ele, mais suave. — Mas, ao mesmo tempo, a vida não para. Minhas filhas nasceram nesse mundo digital, e não posso apenas desligá-las dele. O que posso fazer é tentar balancear, trazer um pouco do que vivi na minha infância para elas, de alguma forma.

Nicholas sorriu, talvez entendendo mais do que Alexandre queria dizer.

— Às vezes, não são os brinquedos ou os objetos que realmente importam. São as experiências que criamos com nossos filhos, as histórias que contamos, as memórias que compartilhamos. A loja “Decore” é só um reflexo disso: procuramos oferecer algo mais do que apenas um presente material. Oferecemos a chance de criar momentos, de relembrar tradições, de passar adiante uma parte do que somos. Então, talvez o que você esteja buscando, Alexandre, não seja um brinquedo, mas uma maneira de compartilhar esse espírito natalino com suas filhas.

Alexandre se sentiu tocado pelas palavras de Nicholas. Por um momento, foi como se ele tivesse encontrado alguém que entendia suas angústias e, ao mesmo tempo, lhe oferecesse uma solução simples, mas profunda.

— Você tem razão — disse, com um suspiro profundo. — Talvez não precise me preocupar tanto com o que elas vão ganhar, mas com o que elas vão viver durante esse Natal. Eu acho que vou levar algo daqui, mas o principal será o tempo que passarei com elas, criando as memórias que um dia elas lembrarão com saudade.

Nicholas sorriu, satisfeito com a conclusão.

— Fico feliz por ouvir isso, Alexandre. Às vezes, as respostas estão dentro de nós, esperando para serem encontradas.

Alexandre pegou uma das figuras interativas de madeira, pensando no que poderia ser o presente certo, mas mais importante ainda, nas memórias que ele construiria naquele Natal. Ele finalmente sorriu, de um jeito que há muito não fazia, como se o espírito de Natal, aquele mesmo que ele sentira quando criança, tivesse voltado para ele, um pouco mais maduro, mas igualmente real. 

— Acho que vou levar essa. E, quem sabe, vou também fazer algo para elas, algo simples. Como uma boa ceia de Natal.

Se despediu de Nicholas e dos gnomos (ou duendes?) e partiu para casa, com a certeza de que havia feito a escolha certa, de que o amor que sentia por suas filhas fosse guiá-lo por essa data especial, e, mais do que presentes, faria daquelas vidas uma memória, em que perduraria para sempre o verdadeiro significado do Natal.

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