O Legista e o Imortal

P.S:

Esse é um spin-off baseado no meu primeiro livro, A Jornada do Legista. Ele foi criado para treinar minha escrita de cenas de ação/luta e para compartilhar com amigos. Caso queira ler a história original, acesse o link:


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Baile da Aurora

Tonitro nunca tinha visto fadas tão belas antes: suas asas brilhavam em arco íris em meio às ruas e prédios prateados de Avalon, seus olhos eram semelhantes às mais belas pedras preciosas, e o sorriso de cada uma era tão resplandecente quanto as estrelas do céu.

Era uma procissão da rainha das fadas, Aurora, a fada que sucedeu Titania. Todas elas estavam passeando pelas ruas em carruagens flutuantes com diversas criaturas aladas que as acompanhavam. Elas estavam ali com apenas um motivo: divulgar para o reino das fadas o Baile da Aurora, um evento onde as mais belas fadas iriam dançar junto com a rainha.

Era o símbolo maior do glamour das fadas: as cores, as vestimentas… tudo gritava a magia. E foi por isso que novamente o coração de Tonitro se encheu de inveja.

Porque essas fadas viviam na esbórnia e na luxúria quando ele próprio era fruto da iniquidade e da malícia? Da miséria e da fome? Tonitro era uma fada como Aurora, mas ele nunca conhecera fartura, e os dias que teve as melhores refeições da vida foram os dias após a morte de sua irmã, Seidh, que morreu de desnutrição. Com menos uma boca para alimentar, ele conseguiu quase um banquete constituído por duas fatias de pão faerico.

Era comum que outros seres, inclusive humanos, achassem que fadas não se alimentavam, e que eram todos iguais. Mas não era verdade, nem todas as fadas podiam viver de mana pura, como as Tuatha de Danann, a maioria retirava a energia primordial de alimentos.

E quanto à igualdade… digamos que todas as fadas eram iguais, mas algumas fadas eram mais fadas que as outras.

Pixies, brownies, leprechauns, gnomos… todos eles eram considerados fadas de nível médio. Os elfos e as dríades de grau alto, mas Tonitro era um boggart, e boggarts não eram fadas de verdade, ao menos não segundo os demais… boggarts eram feios, e na sociedade das fadas, beleza é poder.

Diziam várias coisas de sua raça: que eram agressivos, que traziam azar, que eram teimosos e desobedientes, mas como mais poderia ser a reação de um oprimido contra um opressor? Depois de tantos anos sendo escravos de seus supostos semelhantes, como não serem agressivos? E por que sua presença causava azar? Por culpa reprimida daqueles que os maltratavam?

Talvez seja, mas foi por isso que Tonitro decidiu estragar de vez o baile da Aurora. Iria mostrar a todos sua hipocrisia e sujar os belos salões de Avalon com seu ódio. 

Ele esperou as semanas passarem para que o dia do baile chegasse. E foi assim que seu ódio se acumulou em seu coração sombrio. 

Nesse ínterim, fez uma fantasia espetacular com suas mãos habilidosas: com glitter artificial e papel feito de trigo feérico, fez um par de asas enormes que poderiam ser colocados em suas costas, que não só refletiam a luz do sol, mas criava a própria luz, com baterias feitas de mana pura. Também fez uma máscara de corvo com onix puro, e maravilhosamente lapidada, que havia roubado das minas em que trabalhava. Ele estava planejando aquilo há anos, e todo dia pegava um pouco das pedras e levava para sua casa. 

Também confeccionou sua roupa de gala utilizando pêlo de unicórnio banhado em sangue de uma ninfa, fazendo uma magia tão poderosa de charme, que qualquer um que olhasse para ele se apaixonaria. E é claro, escondeu o que restou dos corpos do unicórnio e da ninfa bem longe de sua casa.

Vestindo sua fantasia e máscara, rumou para o castelo de Avalon, que era nomeado com o nome do reino.

Olhando a fila de fadas belíssimas e encantadoras na porta, admirou mais uma vez e invejou novamente o privilégio das demais. Sua raiva podia ser mesquinha, egoísta, mas era justificada: no reino das fadas, seu nascimento era tudo, ele nunca teria o status de uma fada superior, não importa quanto tentasse ou merecesse.

Ainda na fila da festa, ouviu o discurso de Aurora, a máscara de corvo disfarçando sua repulsa pelas palavras fúteis da rainha das fadas:

— Que o glorioso dia seja inesquecível, minhas belas fadas – Aurora começou com uma saudação típica – que seja lembrado a todos que aqui, em meu castelo, a elite das fadas está reunida, os seres mais belos de todos os planos estão neste mesmo salão para que seja enfim definido quem será escolhido como meu noivo e próximo rei das fadas. 

Um barulho de aplausos cortou o discurso da rainha.

“Espero que aproveitem: bebam de minha bebida e comam da minha comida. Sejam felizes em meus aposentos e dancem à vontade,  logo mais irei dizer os critérios de julgamento para o concurso. Que os olhos de Dunedin estejam sobre todos vocês!”.

Quando finalmente se pôs às vistas de todos, entrando no salão de danças com confiança, sentiu até a música parar um pouco para que todos o admirassem. Um terno de gala branco e dourado com detalhes em vermelho-sangue, asas que não só refletiam as luzes, mas produziam uma luz púrpura própria, que alternava para cores mais quentes dependendo do ângulo, um corpo esbelto e aparentemente musculoso por detrás das roupas, e uma máscara escura cintilante que parecia ser feita da própria noite. Todos estavam olhando para ele, e todos estavam apaixonados.

Quando a multidão se dispersou, os outros entraram no salão de danças. Era implícito que dançar bem era um requisito para ser o rei das fadas, fadas amavam festas e dançar. E os outros competidores, que estavam intimidados por sua presença, sabiam que a melhor coisa que podiam fazer era serem os melhores dançarinos. E torcer para que ele dançasse mal.

Enquanto as fadas de companhia chegavam para serem os pares de cada competidor, reparou que a maioria formava fila para dançar com ele. Se deleitou de prazer ao imaginar o rosto que fariam quando descobrissem quem ele é por trás da máscara. 

Impecavelmente, dançou com todas as fadas que dispunham a dançar com ele, sejam machos ou fêmeas. Seus pés suaves deslizaram pelo salão sem fazer barulho, e sua cintura parecia ter vida própria. Até as fadas que não sabiam dançar dançavam maravilhosamente bem com ele. Era o poder de suas sapatilhas feitas de fibra de vidro de igreja e do chifre e do couro do unicórnio: ela fazia com que os movimentos de seu corpo pudessem ser controlados com mais facilidade, quase que um estímulo às suas sinapses.

E foi assim que novamente chamou a atenção de todas as fadas.

Continuou na festa, dançou, comeu, mas não bebeu. O álcool iria enebriar seus pensamentos e atrapalhar seus planos.

Quando chegou a hora da competição de canto, também surpreendeu a todos com sua bela voz e timbre afinado. Mais uma vez um truque: havia gravado o canto de um pássaro Rocca com um dispositivo, e ativado ele em seu terno, fazendo apenas a atuação de como estivesse cantando por conta própria.

E foi assim que passou a noite, até que chegou à hora da decisão: três da madrugada.

Os pretendentes se alinharam em forma de “U” na frente de Aurora, que detinha um sorriso satisfeito.

— Muito bom, minhas fadas, vocês foram excelentes. A beleza de seus talentos ficará para sempre incrustada na memória de todos que estão aqui. Mas agora só um de vocês será escolhido por mim como digno de ser meu marido.

Havia tensão no ar… todos, exceto Tonitro, estavam apreensivos com o resultado. E então Aurora continuou:

— E então anuncio a vocês meu escolhido: aquele que se destacou em todas competições, chegue mais perto, fada da máscara negra, e conte-nos seu nome.

Tonitro se empertigou, já esperava por isso. Pomposamente, desfilou em meio aos aplausos e burburinhos de inveja que ecoavam no salão.

Agradecendo os aplausos, fez uma reverência à multidão, e se ajoelhou perante a rainha, beijando-lhe uma das mãos levemente.

Ouviu algumas fadas suspirarem perante ao seu gesto, e sorriu.

— Minha digníssima e bela Aurora, minha rainha e pretendente, tenho o prazer de me apresentar oficialmente: meu nome é tonitro.

— Tonitro? Um nome incomum para uma fada, de onde é, Tonitro? – a rainha ergueu uma das sobrancelhas, em surpresa.

— Antes que diga, poderia dizer algumas palavras?

— À vontade, dê seu discurso.

— Antes de mais nada – disse, voltando-se para a multidão – gostaria de relembrar o quanto a sociedade das fadas é uma sociedade que valoriza a beleza e o status, e deixar minha solidariedade à quem nasceu feio.

Todos riram.

— Mas não posso fazer nada, alguns nasceram para a grandeza, outros não. Certo?

Murmúrios de aprovação em todos os cantos.

— Dito isso, acredito ser mais bonito que todos aqui.

Dessa vez teve um silêncio constrangedor, todos olharam nervosamente para a rainha, que estava impassível.

— Não pela aparência, talvez, mas me julgo muito mais belo internamente que vocês, suas criaturas podres e mesquinhas! – as últimas palavras foram ditas em alto tom, vociferando. O que assustou os mais próximos.

Estava todo mundo em silêncio, tenso com o que estava acontecendo.

— Me escolheram como o mais digno. É bem curioso isso, afinal, nunca olharam para mim antes… mas agora vão gravar minha imagem em suas mentes podres! – retirou a máscara e a arremessou ao chão, que espatifou em pedaços. As suas asas também se descolaram de suas vestes.

Olhou para o rosto surpreso de todos presentes, que processavam o acontecido. Orgulhosamente se deleitou de sua surpresa, até que um barulho inesperado o tirou de seu torpor megalomaníaco:

Era o barulho de risadas.

O primeiro a rir foi um nobre fada que estava servindo as bebidas. As outras se contagiaram e começaram a rir também, apontando para a rainha e para Tonitro e caindo na gargalhada.

— A rainha vai casar com a aberração!  – diziam, rindo e segurando o abdômen.

A rainha, em choque, olhava ao redor desesperada.

— Parem, parem.

Eles se aproximavam e riam, para o horror de Tonitro, não era a reação que esperava.

— Olha lá o monstro, vai fazer filhinhos monstros com a Aurora – riam e apontavam o dedo – vamos vê-los procriar.

Uma fada mais ousada chegou perto da rainha e rasgou-lhe parte do vestido, outra jogou um pedaço de fruta mordida em tonitro. Elas foram se aproximando cada vez mais.

— Parem! Socorro! – Aurora gritava – eu sou sua rainha! Guardas! 

Os guardas não socorreram, estavam ocupados rindo.

Um Elfo chegou perto de Tonitro e deu-lhe um empurrão, fazendo-o cair no chão, atônito.

Uma ninfa fez o mesmo com a rainha, e o resto circundava ambos rindo e lançando comidas.

Sentiu dor quando uma fruta acertou seu cocuruto, mas sentiu ainda mais dor quando uma fada lançou fezes em seu rosto.

Eles estavam descontrolados em sua euforia. A rainha ainda gritava:

— Parem, não sou feia, ele que é! A culpa é dele!

Eles não se importavam, continuavam a despi-la e agredi-la com socos e pontapés. Uma fada próxima arrancou uma parte de seu couro cabeludo com as próprias mãos e saiu rindo.

Tonitro estava no chão, encolhido, enquanto elfos chutavam seu corpo inerte.

“É isso que mereço? Eu só queria… só queria ser admirado” ergueu os olhos sangrentos para a multidão e sentiu muito medo, tanto medo quanto sentiu em toda sua vida pregressa. “É verdade… como poderia imaginar uma reação diferente? Durante toda a minha vida, nunca fui da mesma espécie que eles.”

Mais tarde, nos arredores do castelo, os corpos desmembrados de duas fadas estavam sendo carcomidos por ratos. Ambas extremamente iguais em sua grotesca imagem, e nenhuma exalava qualquer sinal de beleza e encanto.

Ao fundo, seres muito belos se divertiam em volta de uma fogueira, dançando e prendendo em estacas duas cabeças: uma feia e uma bela.

Golpe na Estrada

Fannách voava acima da floresta de Lornwood, embora ele não saiba que floresta era essa. Como tinha recém saído do Mundo das Fadas, não sabia nada da geografia ou cartografia do Mundo Terreno, e na sua bolsa de couro de Üllok das Estepes, trazia suprimentos e alguns artefatos mágicos, mas nenhum mapa.O lar dos Homens não era de todo estranho para ele, afinal, ele nascera alí. 

Decidiu parar um pouco para descansar, suas asas estavam doloridas e sua barriga roncava, era hora de, no mínimo, fazer um lanche.

Sentou-se em uma clareira pequena na floresta e com um encantamento rápido, botou fogo em uma pilha de galhos secos, a única fonte de luz que iluminava o denso ambiente florestal, cuja copa das árvores praticamente impedia a penetração da luz da lua e das estrelas.

Suspirou, estava feliz, sentia o cheiro da natureza, o fluxo de mana estava agradável aquela noite, como se fosse a visão de um mar sem ondas: límpido e translúcido. 

Ouvia o farfalhar das plantas, a respiração dos animais noturnos, e, acima de tudo, sentia-os como parte de si.

A habilidade de ver e redirecionar fluxos de mana era incomum até mesmo para as fadas, mas para um humano? Mais ainda, não existem registros que sustentem que uma pessoa dessas realmente existiu no passado.

Mas Fannách é um humano, ou ao menos era… Para resumir, ele era uma criança verde: fora raptado ainda recém nascido por fadas e foi criado lá, em Avalon.

Ele realmente não ligava para isso, não é como se estivesse destinado a uma vida incrível, as fadas lhe fizeram um favor de deixá-lo determinar seu próprio destino: ele agora decidia o rumo de sua vida. 

Enquanto comia um pãozinho feito de fibra de salgueiro, trigo e mel (chamado Gëllen), ele sentiu um arrepio correr pela sua espinha.

A mana do local, antes sublime e pacífica, agora estava agitada, como se uma tempestade estivesse vindo

Ele olhou para o “mar” translúcido de mana e viu algo borbulhando nele, bolhas da mais profunda escuridão empesteavam o ambiente, e a temperatura do local parecia ter caído o bastante para causar choque térmico em alguns animais.

Ele sabia o que era isso: a Procissão do Rei Esquecido, um lendário grupo de guerreiros liderados por um Rei de um passado distante, cujo nome a história já se perdeu.

Se tornaram folclore no mundo das Fadas, o Rei e sua comitiva eram temidos até pelos lendários heróis e pelos guerreiros mais valentes.

É dito que quando eles aparecem, nada pode impedí-los de conquistar seu objetivo, nem mesmo um deus.

Mas Fannách não era um dos caras mais sensatos no mundo das fadas, assim que se recuperou do susto, mostrou um enorme sorriso.

— Vou aloprar eles – uma risadinha passou pelos seus lábios.

Engoliu o resto de seu lanche e levantou voo, procurando a tão famosa comitiva.

Não precisou se esforçar, só seguiu o fluxo de mana corrompido, e lá estava: 12 espectros translúcidos em seus cavalos negros, mais um espectro que cavalgava à frente, com uma coroa de cobre repleta de joias em sua cabeça. 

“Aposto que nem me perceberam”  pensou Fannách com um tom sarcástico “são tão confiantes e cheios de si que não acham que terão conflitos em sua jornada” voou um pouco mais longe, ao céu “sorte que o bom companheiro Fannách está aqui para ajudá-los”.

Fez um pequeno encantamento ilusório, imperceptível a eles, que nem se preocupariam em tentar perceber algo além, e então pousou na frente da comitiva com graça de um nobre estendendo a mão para os transeuntes espectrais:

— Alto lá!!! – fez a cara mais séria que pôde e firmou os pés, bloqueando passagem.

O Rei Esquecido levantou a mão para seus oficiais pararem, ele parecia mais intrigado que intimidado. “Mordeu a isca” pensou Fannách. 

— Quem sóis vós? – a voz do espectro, fria e arrastada ecoou em sua mente.

— Sou o guardião desta floresta – disse, batendo uma continência exagerada – Você tem as credenciais?

Os cavaleiros entreolharam-se por alguns instantes e caíram na gargalhada, mas o Rei continuou com um olhar sério.

— Afaste-se garoto, não ouse interromper meu caminho.

— Sem problemas, só peço que me entregue as credenciais – disse com uma voz mais firme.

O espectro na frente decidiu que não estava mais afim de perder o tempo, e seguiu com seu cavalo na direção de Fannách. 

Mas o cavalo, curiosamente, relincha e se recusa a passar.

— Mas que? – ele olha para o cavalo forjado nas chamas do inferno e percebe que ele está com medo.

Olha novamente para Fannách ( que sorria internamente ao realizar que enfeitiçar os cavalos com uma magia de grau menor havia dado certo).

O antigo rei não sabia, mas na visão de seu cavalo, eles estavam à beira de um precipício.

— Você… como fez isso? – olhou enfurecidamente curioso para Fannách.

— Apenas peço suas credenciais. 

O Rei Esquecido suspira e decide jogar o jogo de Fannách:

— Que seria isso?

— A prova que você existe, tem que ter um documento provando que você existe.

— Ousa dizer que não existo? – o Rei sibila. 

— Sem documento, não tenho como saber.

O rei pensou em simplesmente matar Fannách e continuar caminho, mas algo em suas palavras o fizeram pensar: “preciso provar que existo”.

— Por acaso – disse, contendo sua fúria – como posso achar esse documento.

Fannách quase ri alto quando o Rei disse isso.

— Posso fazer um para você – ele pisca – só preciso de seu nome e uma declaração de alguém que te conheça e testemunhe por você.

Enquanto dizia essas palavras, fez mais um encantamento bem sutil no ar, um de confusão espacial.

O Rei Esquecido ficou em silêncio por alguns instantes enquanto Fannách puxava um papel em branco e entregava a ele.

O espectro olhou por um tempo para o papel, sem saber exatamente o que fazer.

— Pode escrever seu nome – Fannách disse, gentilmente – assine aqui – apontou para um risco no papel – aqui e aqui também.

— Eu… – a voz do espectro ressoou nos seus ouvidos.

— Que foi? Precisa de uma pena para escrever?

— Não lembro meu nome.

Silêncio sepulcral tomou conta da floresta, os próprios cavaleiros espectrais ficaram tensos.

— Então você não existe – suspirou Fannách – tudo que existe tem um nome.

Os cavaleiros se mexeram desconfortáveis, enquanto o Rei se mantinha calado.

— Mas não se preocupe, tenho uma solução para você: precisa achar 50 pessoas que te testemunharam e viram você fazer qualquer coisa, e reunir a assinatura delas.

— Ou eu posso simplesmente matá-lo e fingir que nada aconteceu – Disse o espectro, fazendo os cavaleiros atrás concordarem.

— Claro que pode, mas não vai provar que você existe – disse sem pestanejar – mas tenho uma solução para você, se quiser recorrer, só ir no nosso setor de reclamações à 500 metros a leste – puxou mais um objeto da mochila enquanto fazia um encantamento rápido – só usar essa identificação.

— Se eu fizer isso, você me deixa em paz?

— Obviamente 

O rei olha para o “identificador”: era um simples chapéu com uma marcação escrita.

Ele lentamente retira a coroa e entrega para um de seus cavaleiros, vestindo o chapéu. Vira seu cavalo para leste e segue sem dizer nada.

Ao ver todos eles afastando, rapidamente faz um feitiço para disfarçar sua aparência e levanta voo, parando exatamente no lugar onde disse que o setor estaria.

Antes que chegassem, criou um pequeno balcão feito de vinhas e uma cadeira no meio da floresta, se sentando e colocando um cachimbo na boca.

Alguns minutos depois, a comitiva chega ao local, o Rei com o estúpido chapéu escrito “otário” em linguagem faérica e seus 12 seguidores igualmente idiotas.

— Não precissar dizer nada dotô, meu irmãzinho já me passou o bilete – não sabia por que forçou um sotaque, mas isso não tornava a história menos engraçada.

Deu um trago no cachimbo e pediu para o Rei se aproximar, usando mais um encantamento de confusão, fez o cavaleiro que estava com a coroa entregá-la para seu suserano.

Já estava exausto, usou muitos encantamentos no dia, mas valeria a pena, falta só mais um e ele conseguiria derrotar a Procissão do Rei.

— Toma aqui seu permissón e pode me entregar esta chapé para eu aqui. 

O rei assim o fez, pegou o documento e retirou o que estava na sua cabeça para entregar à Fannách. 

Prontinha, agorra está provado que o dotô existe. Pode passar.

Sem dizer nada, o rei coloca na cabeça a coroa e segue caminho.

Fannách ri sozinho por um tempo e observa o que roubara do rei. Mas era hora de escapar, uma hora ele vai perceber a troca, e vai vir atrás dele.

Mais a frente, na estrada, muitas testemunhas viram o Rei Esquecido passar com um chapéu escrito em feérico: “otário”.

E mil anos depois, sua coroa de bronze foi encontrada em um barranco, enterrada com uma nota: “favor entregar ao dotô”.

Quarto 1609

O barulho das rodas do carro estava ressoando nos seus ouvidos como uma sinfonia pouco convidativa, não gostava do asfalto. O conceito em si de algo que se liquefazia e solidificava em meio-ar para que pudéssemos pisar e locomover em cima lhe era estranho. Como se o líquido formado anteriormente por seres vivos únicos e majestosos hoje apenas servisse como uma base para que pudéssemos explorar e desprezar, sem que nunca se pudesse lhe dar o verdadeiro valor.

De todo modo, duvidava que seu sentimento fosse compartilhado com o taxista que o levava ao hotel que abriu na região. Tinha um nome deveras espalhafatoso: Hotel Fantástico, e parecia ser um local aconchegante, mas o que lhe interessava lá não era o aconchego e luxo, e sim a localização. 

Estava lendo um livro digital qualquer que comprou na promoção. Era de um autor italiano do século XIX, havia esquecido seu nome, mas uma frase parecia ressoar em sua cabeça como as próprias vibrações da estrada: “O amor, para ser perfeito, devia ser como o rotífero: morrer num raio de sol, renascer numa gota de orvalho”.

Era isso que ele buscava naquele quarto de hotel, renascimento. E finalmente havia descoberto como fazer isso…

— Sir Crowley? Parece que a avenida está bloqueada pela PRF, vou pegar um desvio lateral, está tudo bem? Você disse que estava com pressa para um compromisso, não é?

Crowley… o nome de um ocultista famoso, era o nome que dera ao taxista para evitar usar seu nome de nascença. Mal sabia o pobre trabalhador que a polícia rodoviária estava fechando a avenida para pegá-lo.

Quanto ao compromisso, disse-lhe que era um contador. De certa forma era verdade, trabalhava com números também, mas não da forma que imaginava o funcionário público.

— Pode fazer como quiser, Mathias, o importante é chegar no hotel – respondeu com um sorriso despreocupado, afinal, após aquela noite, tudo estaria resolvido.

Não demoraram muito para chegar ao referido hotel. A estrutura era legal, tinha umas decorações festivas, com dragões, elfos, goblins e seja lá o que mais forem essas coisas de literatura fantástica que os comuns gostavam de cultuar.

Não prestou tanta atenção assim, mas tinha algo que o encucava: o número de seu quarto era auspicioso, 1609…

16 era o número da perfeição física, o quadrado do número 4, o auge da força material, e também significava a queda pela arrogância. Lembrava a ele da história da torre de Babel.

0 era o vazio, aquilo que existia antes da criação, antes da gênese, e antes do próprio universo, a ausência do essencial.

Mas o 9… o nove era um número que voltava sempre a ele, era o número da ressurreição, um número que demonstrava que podíamos voltar para tentarmos sempre, e isso o deixava esperançoso. Como se o próprio número de seu quarto contasse sua história: ele atingiu o auge de poder no passado, devido à sua arrogância ele caíra, passou tanto tempo no limbo, perdido. E agora… ele iria renascer, mas não só ele.

Agradeceu ao taxista e pegou sua mochila preta que estava no porta malas do carro. A viagem já havia sido paga previamente, então ele já se dirigiu ao saguão. 

Novamente, deu o nome falso assim como os documentos falsos para a recepcionista de olhar perdido e distante que acabou de tirar os olhos de suas redes sociais para atendê-lo:

— William Crowley? Quarto 1609, certo? Está aqui sua chave, tenha uma ótima noite senhor, espero que aproveite nosso hotel – ela repetiu monotonamente o discurso programado em sua mente e voltou a olhar para seu smartphone. 

“William” pegou sua chave e sua mala e se dirigiu ao elevador, dividindo-o com um senhor pálido de trajes escuros e com óculos de sol.

Sem trocarem uma única palavra, se separaram no primeiro andar, o andar de “William”, e o rapaz encontrou seu quarto ao final do corredor, à esquerda.

Foi então que William deixou de ser William e voltou a ser Fernando Baptista Júnior, o homem mais procurado do Brasil. Era naquele dia que teria sua namorada de volta, mesmo com todo mundo dizendo que ele a havia matado.

Trancou o quarto e começou a se preparar: faltavam mais de 2 horas para as 22:00, então havia tempo para que o ritual de evocação começasse.

Pegou a bolsa preta que trazia consigo e retirou de lá seus 5 catalisadores: um ovo de ferro banhado em cobre e prata; uma adaga enferrujada com inscrições em azul; um conjunto de dados de 100 lados cobertos de sangue seco; uma aliança de ouro partida ao meio e o crânio limpo e empalhado de um corvo.

Usando uma bússola, mediu o norte, e usando-o como ponto de referência, colocou o primeiro catalisador na ponta boreal, e os outros quatro de modo que se formassem 5 pontos equidistantes entre si. Com um giz, desenhou entre eles as linhas de um pentagrama.

Após isso, com uma faca cerimonial, foi repetindo as palavras que aprendera naquele dia.

Isso durou até às 22:00 em ponto, quando finalmente abriu os olhos e viu a criatura enevoada à sua frente.

Antes que qualquer coisa acontecesse, ele bradou:

— Guardião das correntes, prostre-se

E foi assim que grilhões da mais profunda escuridão prenderam e moldaram a forma da criatura, que aparecia claramente em sua frente sob a forma de uma criança de cabelos loiros bagunçados, cachecol, olhar maroto e roupas claras. Conhecia aquela forma, era o pequeno príncipe de Saint-Exupéry.

A criatura tomava várias formas, de acordo com o que o contratante imaginava ver. Era um mistério ainda qual o padrão de formas tomadas por “Aquele que Regride”, mas em toda a literatura, poucos bruxos haviam conseguido domá-lo sem sequelas.

— Está pronto para o procedimento, meu amo? – a voz da criança saiu distorcida em lábios fantasmagóricos, mas ainda era doce.

— Estou – respondeu simples, sem firulas.

— Não temos muito tempo, então começaremos com o primeiro trauma: o nascimento.

O ovo de ferro se levanta em meio-ar e se aproxima de Fernando. 

Esse trauma ele já esperava superar. De fato, era correto dizer que já havia superado o fato de ter sido trazido ao mundo contra sua própria vontade, de ser forçado a tomar suas escolhas, a sofrer por elas e morrer por elas. Então o ovo nem mesmo chegou a se iluminar quando o brilho já havia se apagado, não há como lamentar o nascimento de um homem que já morreu há muito tempo.

Então o primeiro desafio foi cumprido.

— Muito bem, iremos para o próximo… – “Aquele que regride” passou para o próximo item: A adaga quebrada.

A paisagem do então hotel luxuoso e repleto de desenhos fantásticos se altera e Fernando se vê na rua de sua infância, com seu amigo Felipe.

Eles não sabiam naquela época, mas era a última vez em que se veriam.

Os pais de Felipe iam se mudar para a fronteira, sua mãe era oficial do exército, e Fernando nunca lhe disse adeus, para o seu primeiro amigo, o primeiro que lhe acolheu em toda sua vida.

Foi uma surpresa, havia reprimido aquela memória… mas ainda sim teve forças para continuar.

Abraçou as lembranças do amigo com força e as deixou ir dessa vez, se despedindo e não mais as guardando no fundo de sua alma.

O brilho da adaga se apaga, era o brilho da “falha”, da virilidade perdida por meio do problema em se comunicar. E também cai ao chão.

Em seguida, os dados com sangue seco se aproximam.

“O acidente”

Aquilo que muitos temem, mas poucos sabem como evitar. E menos ainda sabem que não se há como evitar: o medo da aleatoriedade do sofrimento, de que tudo pode dar errado a qualquer momento e nem sempre a culpa é sua. 

Foi aquela vez que bateu o carro após o descuido de um motorista bêbado, havia quebrado algumas costelas e ficou manco, os dados que carregava em seu bolso para uma partida de RPG ficaram cobertos pelo seu próprio sangue.

Mas nada disso importava hoje, não tinha mais medo do acaso, ele era poderoso o suficiente para controlá-lo. Então o brilho dos dados se apagaram. Olhou para a criatura: não era mais o pequeno príncipe, era uma fera que babava e consumia seu desespero, um ser peludo e monstruoso, a cada vez que ele ganhava, a criatura também ganhava, mas no final, ele iria prevalecer.

A aliança partida começa a brilhar desta vez: Vitória, sua ex-mulher, havia o traído. A única pessoa que confiava naquela vida estava traindo-o com o seu próprio pai que abusou dele.

Aquilo foi o suficiente para fazê-lo cair em uma espiral de loucura e autossabotagem, quase se matou naquele ano. Mas ainda sim… tinha luz no fim do túnel, essa luz…

A lembrança dessa luz, a possibilidade de vê-la novamente o fez enfrentar esse trauma mais uma vez. A fera parecia decepcionada, mas sabia que o próximo trauma iria fazê-lo fraquejar.

A caveira de um corvo… “A Morte”.

Gabriela, sua namorada, a luz no fim do túnel. Aquela que a salvou de seu passado, e morreu devido ao seu erro. Ele havia tentado esse ritual uma vez antes, iria transformá-los em imortais para se amarem para sempre, mas… Lágrimas saíram de seus olhos. “A arrogância traz a queda” ele estava preparado?

A fera avança, as cortinas se fecham.

Epílogo:

Lis é o nome dessa ave, é o que sobrou naquele quarto de hotel.

“Aquele que Regride” estava morto, era seu ódio acumulado, tudo que sofrera.

Aquilo era a ressurreição que queria? Ele queria ressuscitar ela… queria a Gabriela.

Mas agora ele era Lis.

Voou pela janela.

E observando todos caminhando calmamente nas ruas, vários metros abaixo dele, Lis se irrompeu em chamas azuis, e, assim como todo seu rancor, se foi para sempre. Foi morar puro no alto, talvez, só talvez, ao lado dela.

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Culpa Galopante

Acordei com os olhos remelados e o nariz bem seco: o clima de Porteirinha–MG era definitivamente ruim para minha rinite, e o hotel empoeirado e mal cuidado estava detonando minhas mucosas. Ao meu lado na cama, Lúcia roncava levemente, grunhindo coisas ininteligíveis em seu sono.

Dei dois tapinhas nas costas dela, fazendo com que ela se voltasse para mim ainda em meio-despertar. Suas costas nuas dando lugar à visão de seus seios redondos, bem torneados e com mamilos duros, que mal apareciam por debaixo de seus cabelos lisos, sedosos e negros. Sua pele branca parecia brilhar quando era tocada pela fresta de luz solar que escapulia pelas janelas fechadas. Ela era muito linda e sedutora… quase me distraí em seus lábios vermelhos antes que pudesse dizer:

— Já são nove horas, temos que levantar para não perder o café da manhã do hotel.

— Bom dia, Rafael… — Ela não sorriu, nunca sorria. Mas se espreguiçou e abriu a boca levemente, deixando sair um leve bafo.

Suspirei, até o bafo dela me atraia perdidamente. Levantei-me com um pulo e comecei a me vestir, enquanto ela ainda enrolava preguiçosamente na cama.

Quando terminei de me vestir e aprontar, cutuquei-a novamente para despertar de seu sono:

— Vamos, Lúcia, acorda… o café deixa de ser servido às nove e meia.

Ela resmungou e levantou ainda de maneira desajeitada, indo diretamente para o banheiro. Enquanto andava de costas, parei para admirar sua bunda grande e geometricamente impecável… queria que tivéssemos mais tempo antes do café, queria possuí-la novamente quanto antes fosse possível, mas além do café, havia trabalho a ser feito.

Depois do café que não merece mais que uma nota de rodapé (pão duro, café ralo, e um ovo mexido com gosto de margarina velha), seguimos para a praça principal de Porteirinha, onde a rotina da cidade já fervilhava. Vendedores ambulantes gritavam suas ofertas, velhos observavam da sombra dos bancos e as crianças chutavam uma bola murcha que parecia ter sobrevivido à ditadura.

Lúcia ajeitava a câmera com um profissionalismo frio. Já eu, com meu sorriso cuidadosamente treinado e falsamente carismático de youtuber, abri a gravação:

— E aí, pessoal! Bem-vindos a mais um vídeo do canal Visagens do Brasil! Hoje estamos em Porteirinha, interior de Minas Gerais, uma cidade cheia de histórias macabras. Dizem que, nas madrugadas, quem anda sozinho por essas ruas ouve o som de cascos… e perde a razão! A famosa Mula Sem Cabeça!

Apontei a câmera para Lúcia. Ela, bela como sempre, olhou com uma expressão quase neutra. Contudo, essa neutralidade tinha algo de magnético, de sensual. O público, nos comentários, sempre dizia que ela era “fria”, “distante”… mas ao vivo, essa frieza era pura tentação.

Ela começou:

— Nós vamos conversar com os moradores para entender como essa lenda ainda vive hoje. E quem sabe, à noite, a gente não sai em busca dessa aparição?

Um grupo de senhoras nos observava de longe, cochichando. Uma delas, de vestido florido e terço na mão, aceitou falar. Gravamos sua fala:

— Essa mula aparece é por castigo, uai. Mulher que mexe com padre, que não respeita homem casado, vira monstro. Não tem corpo, não tem cabeça, só fogo e pecado correndo solto pela noite.

As palavras atravessaram Lúcia como se fossem lâminas invisíveis. Sua mão trêmula ajustava a lente da câmera, mas o olhar estava perdido, quase vacilante. Eu percebi, mas, sinceramente, parte de mim adorava. Porque era ali, naquela tensão entre o sagrado e o profano, que ela ficava ainda mais irresistível.

Seguimos gravando outros relatos: um comerciante que jurava ter visto uma sombra flamejante na estrada de terra; um velho bêbado que dizia ter perdido a sanidade após ouvir os cascos por três noites seguidas. A cada testemunho, Lúcia parecia se encolher mais, como se fosse ela mesma o alvo das acusações veladas que ecoavam na boca de cada morador.

E eu, no fundo, sabia por quê. Não era só medo. Era culpa. O pecado dela tinha nome e cheiro. Tinha corpo quente e lençóis suados. E não foi comigo que começara essa história. Mas, embora eu a tenha perdoado, parte de mim gostava de remoer essa história, sabendo que agora ela pertencia a mim.

Lúcia filmava, séria, mas eu podia sentir aquela chama incômoda nela: um fogo que nem sempre era paixão, às vezes era condenação. Naquela noite, quando revi as filmagens, percebi o olhar dela nos enquadramentos. Em cada cena, Lúcia parecia estar se vendo através daquelas histórias, como se a lenda falasse dela.

E eu… eu não sabia se sentia pena ou atração por aquilo. Talvez ambos… O que me deixava um pouco mal por desejar que essa culpa nunca passasse.

— Você podia ter enquadrado melhor a senhora do terço. Parecia amadora. — Disse, de repente, ao ver algumas falhas na filmagem.

Lúcia baixou os olhos.

— Desculpa…

— Sempre desculpa. — Suspirei, puxando-a pela cintura. — Sorte que você compensa de outros jeitos, né?

Ela sorriu, bem levemente, e me afastou. Não era hora, eu mesmo sabia, mas não poderia deixar de provocar…

A noite em Porteirinha parecia engolir o mundo. O ar parado, o silêncio das ruas e o breu que mal era quebrado pelos postes piscando davam à cidade um aspecto de coisa morta. O vento arranhava as janelas do hotel, como se tentasse chamar alguém lá dentro.

— Pronta? — perguntei, ajustando a câmera no tripé.

Lúcia assentiu, vestindo a jaqueta jeans surrada e prendendo o cabelo num coque rápido. Ela segurava o microfone com uma mão e a lanterna com a outra, e o feixe de luz tremia no chão. O brilho amarelado subia pelas paredes mofadas, revelando as rachaduras do corredor, como veias pulsando sob a pele da velha construção.

— Esse vídeo vai dar view, amor — murmurei, tentando animá-la. — “A Maldição da Mula de Porteirinha”. Só o título já chama atenção.

Ela não respondeu. Desde o fim da tarde, estava diferente. O olhar mais fixo, a respiração curta, os olhos semicerrados como se vissem algo que eu não via.

— Você ouviu? — perguntou de repente.

O som veio do lado de fora. Um trote seco, ritmado, metálico, ecoando pelas ruas vazias. Não parecia um cavalo. Era mais… pesado. E o som vinha acompanhado de algo mais: um sussurro abafado, como se alguém chorasse no meio da mata.

— É o trote da mula — disse, surpreso e animado. 

Seguimos o som. A câmera ligada, o microfone captando tudo. As luzes das casas foram sumindo até restar apenas a estrada de terra e as cigarras. À distância, uma silhueta escura: um celeiro antigo, de madeira apodrecida e teto caindo. O vento batia nas portas frouxas, fazendo-as gemer.

— Deve ser lá — falei.

Entramos. O cheiro era de mofo, ferrugem e merda de animal. Pedaços de couro pendiam do teto, como restos de algo que tinha sido arrancado à força. Lúcia apontou a lanterna para o chão e vimos marcas profundas, cascos queimados no barro, como se o solo tivesse derretido.

— Você está pálida, amor. Não vai me dizer que acredita nessas histórias de velha beata, né? — Eu sorri, sabendo exatamente o que aquelas palavras fariam com ela.

Ela não respondeu, apenas continuou iluminando o caminho e filmando. O som ia e vinha, como se algo estivesse rondando o local. Nunca esperei realmente encontrar algo, mas começava a ficar cada vez menos cético. Olhei para Lúcia, que estava com a câmera nas mãos, tremendo.

— Se você perder essa filmagem, Lúcia, juro que…

Ela me olhou assustada.

— Que o quê?

Sorri. 

— Nada. Você não vai perder. Você nunca me decepciona de verdade, não é?

Novamente, sem resposta, seguimos por muito tempo os sons, até que o silêncio voltasse a imperar pelo local. A criatura havia sumido, nos deixando sozinhos, apenas com a gravação para provar o que realmente havia acontecido.

Voltamos para o hotel exaustos, com a adrenalina ainda latejando nas veias. A câmera, suja de poeira e com a bateria quase no fim, descansava sobre a mesa. Lúcia a ligou, ansiosa. Eu me sentei ao lado dela, um sorriso satisfeito no rosto.

— Se a gente pegou o som dos cascos, acabou. Esse vídeo vai explodir. — Disse, já imaginando os comentários, os novos inscritos, o patrocínio que finalmente viria.

Ela assentiu, meio trêmula, e apertou o play.

O vídeo começou: a praça, as entrevistas, a estrada, o celeiro, a sombra. As imagens estavam perfeitas: tremidas o suficiente para parecerem reais, mas nítidas o bastante para convencer o público.

Mas havia algo errado.

Silêncio.

Eu franzi o cenho.

— Cadê o som?

Ela aumentou o volume. Nada. Nem o vento, nem os cascos, nem nossas vozes.

— Deve estar no fone… — murmurou, desconectando-o e tentando novamente.

Silêncio.

Meu estômago gelou.

— Lúcia… o microfone estava ligado, certo?

Ela parou. A mão ainda segurava o cabo. Os olhos, marejados, se fixaram em mim.

— Eu… acho que… esqueci de apertar o botão.

O mundo pareceu se contrair dentro do quarto.

— Você acha? — minha voz subiu, ríspida. — Você tinha UM trabalho, Lúcia! UM!

Ela tentou se justificar, mas as palavras vinham quebradas, abafadas.

— Eu estava nervosa, o som, o…

— Nervosa? — Ri, um riso seco e venenoso. — Nervosa é quando você derruba café na mesa. Isso aqui é INCOMPETÊNCIA. A gente veio até o inferno dessa cidade, correu risco, gravou tudo, e você ESQUECEU o microfone?!

Ela baixou o olhar.

— Eu posso tentar refazer a edição… colocar trilha…

— TRILHA?! — berrei, levantando da cadeira. — Vai pôr música de terror por cima do NADA? Quer enganar o público? Você é uma piada, Lúcia. Uma inútil completa.

Ela se encolheu, respirando fundo, mas as lágrimas já brilhavam sob a luz amarelada do quarto.

— Rafael… por favor, não fala assim…

— Não fala assim? — Repeti, aproximando-me, cuspindo as palavras. — Eu falo até paciente demais para uma puta que nem você!

Aquilo finalmente saiu, guardado por tempo demais para ser saudável, sentia finalmente o alívio de confrontá-la depois do que havia descoberto. Há dois anos, na hora que ela me contou… como ela estava chorando pela primeira vez em minha presença, só podia fazer meu papel de confortá-la, mas agora, eu poderia falar tudo que sempre quis.

Ela arregalou os olhos.

— Para, Rafael… — murmurou, a voz falhando.

Mas eu continuei.

— Todo mundo na cidade sabia. E agora você quer posar de jornalista, de cineasta, de “pesquisadora de lendas”? Você sempre foi boa só pra uma coisa, e nem isso faz direito. Você mal tinha 15 anos quando servia de marmita para o Roberto. Você nem mesmo pensou na esposa ou nas filhas dele, que tinham quase sua idade!

O som do ventilador foi o único que ousou preencher o silêncio que seguiu. Lúcia ficou imóvel, respirando devagar, os olhos presos no chão. A câmera ainda gravava, o LED vermelho piscando como um olho cúmplice.

Eu sentei na beira da cama, o peito arfando. Por um momento, me arrependi do que dissera. Mas apenas por um momento. Porque, olhando para ela, o rosto devastado, a boca trêmula… eu percebi o quanto ainda me excitava vê-la quebrada.

Lúcia levantou sem me encarar. Caminhou até a janela, abriu a cortina. Lá fora, a rua estava vazia, mas o som… ele voltou. Um trote metálico, abafado, incomodando nossos ouvidos.

Mas dessa vez, algo estava errado… 

O som estava vindo de dentro do nosso quarto. 

— Você está ouvindo isso? Liga o microfone agora! — Ordenei, mas ela não respondia, apenas chorava na janela.

Olhei para a câmera e me aproximei dela, pegando-a em minhas mãos e procurando o botão que ligava o microfone.

— Certo, sei que tenho que fazer tudo sozinho mesmo.

Ela continuou sem resposta, chorando copiosamente, mais alto.

— Certo, Lúcia, vamos gravar. A gente discute isso depois…

Ela se virou para mim, o rosto retorcido em tristeza e ódio. Mas continuava sem dizer nada. Lagrimas ainda escorrendo sem parar.

O som começou a ficar mais alto ali dentro.

— Olha… me desculpa. — Comecei. — Eu vacilei, não deveria ter falado isso, mas tipo…

Inquieto, virei a câmera para ela, com o microfone já ligado, e esperando que ela finalmente “despertasse” e passasse a me ajudar.

Olhando pela tela da câmera finalmente vi:

As lágrimas de Lúcia evaporavam antes de tocar o chão. Seus olhos já não eram humanos, eram brasas vivas, queimando toda aquela culpa que eu havia alimentado por tanto tempo. Senti o cheiro de fumaça, de enxofre. 

— Lúcia?

Ela não respondeu. Não com palavras. O som que saiu dela era um relincho gutural, um grito de parto às avessas: algo nascendo não da vida, mas da morte de quem ela foi.

Seu corpo começou a se contorcer de um jeito antinatural, como se os ossos se movessem sozinhos, buscando novas formas sob a pele. O som era horrendo: estalos secos, músculos rasgando, algo se quebrando e se refazendo ao mesmo tempo. A câmera tremia nas minhas mãos, mas eu não conseguia parar de filmar.

A pele do pescoço dela começou a se rachar, abrindo fendas vermelhas que brilhavam como ferro em brasa. A carne fervia, escorrendo vapor. O cheiro de sangue quente e enxofre tomou o quarto.

— Meu Deus… Lúcia, para com isso! — gritei, mas era inútil.

O cabelo negro dela se eriçava, flutuando como se estivesse submerso em água fervente. Suas mãos crispadas arranhavam o ar, tentando agarrar algo invisível, até que os dedos começaram a endurecer, a se fundir. As unhas se tornaram cascos.

Ela caiu de joelhos, arfando. O som que saiu de sua garganta era uma mistura grotesca de choro e relincho. A voz humana se perdeu em meio a um grito sufocado, enquanto o pescoço começava a se alongar, a carne sendo rasgada em fios incandescentes. O rosto desaparecia, a cabeça se deformando em pura luz, fogo líquido cuspindo pelas bordas da pele.

— Lúcia, eu sinto muito! Eu não quis dizer, eu te amo, por favor…

Mas minhas palavras se perderam no relincho que consumia o que restava da mulher que destruí. Assim, o corpo dela, nu e brilhante de suor e fuligem, arqueou-se, e do pescoço surgiu uma chama espessa, laranja e azulada, que dançava como um estandarte do inferno. O cheiro de cabelo queimado e carne derretida enchia o ar, me fazendo tossir.

Ela tentou se erguer, mas o corpo já não obedecia. O peito explodiu num clarão, e eu ouvi algo, uma voz, ou um eco, murmurando entre os relinchos:

“Meu pecado… nossos pecados… não se apagam”

O quarto se incendiava com o fogo que jorrava do corpo dela, mas não queimava as paredes, apenas a minha pele. Eu tentava apagar as chamas com as mãos, mas elas me atravessavam, quentes e frias ao mesmo tempo, deixando um rastro de dor que subia até os ossos.

Gritei, desesperado, sabendo de alguma maneira que, mesmo que o hotel tivesse outros hóspedes, ninguém nunca mais iria me escutar.

A Mula, a minha Lúcia, se erguia agora sobre quatro patas retorcidas, o corpo agora coberto de brasas vivas e rachaduras que deixavam o interior incandescente à mostra. Onde deveria estar o rosto, havia apenas fogo, pulsando como um coração exposto.

Ela relinchou novamente, e o som atravessou os confins de minha alma. E eu, ainda filmando, não conseguia desviar o olhar. O fogo tomou o tripé, a cama, o chão, mas o LED da câmera continuava piscando, registrando tudo, até o último instante. E então toda a dor lentamente sumiu, quando suas chamas consumiram por completo minha carne e meus ossos.

Quem viu a filmagem depois descreveu como a criatura que já fora Lúcia permaneceu imóvel sobre os restos fumegantes. Não havia culpa. Não havia pecado. Havia apenas fogo, e liberdade, e o som de cascos se afastando pela cidade.

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PRESENTE E MEMÓRIAS

Alexandre sentia saudades da ceia que teve na infância, a ceia do Natal de 1997, para ser mais exato. Foi quando seu pai, cortador de cana no interior de Pernambuco, conseguiu um dinheiro extra no jogo do bicho. Talvez não fosse uma excelente ideia usar o dinheiro conseguido com a benção da Fortuna para proporcionar um momento breve de prazer para sua esposa e seus oito filhos. Talvez, se o seu velho tivesse investido de maneira consciente esse dinheiro, poderiam ter tido um futuro melhor pela frente, e não precisaria separar os filhos naquele fatídico verão de 2001.

Mas até quando as pessoas podem recusar felicidade imediata em prol de um conforto maior no futuro? Ainda mais as pessoas que foram lapidadas e instruídas a buscarem o consumo acima da estabilidade. Eles queriam uma ceia naquela época, e podiam tê-la, por que não?

Alexandre não se ressentia, era uma das melhores lembranças de sua infância: ele deveria ter seus doze anos naquela época, e foi a primeira vez que comera até se empanturrar. Leitão assado, tutu à mineira, farofa de bacon, arroz à grega, vinagrete e muito refrigerante (guaraná Jesus, para honrar suas origens Maranhenses).

Duvidava que seus irmãos haviam conseguido subir tanto na escada social quanto ele, embora não pudesse saber como. Nunca mais os vira desde que seu pai morreu, assassinado pelos cobradores de dívida. Sua mãe teve que decidir com quais filhos ficaria, e quais daria para os demais membros da família.

Era um pensamento mórbido para uma mãe… mas sabia que mães eram feitas de um material mais resistente que os demais, então ela conseguiu dar conta. Depois de tudo isso, ele havia conseguido se virar morando com um primo distante, o rapaz, de nome Cláudio, acabou por se casar com uma moça de posses que lhe custeou a educação, e Alexandre pôde ser algo que os irmãos nunca sonhariam em ser: um doutor. Não um doutor médico, mas um doutor da sapiência, um homem feito que possuía doutorado e PHD, após sair de um local onde os demais não tinham sequer completado o ensino fundamental. 

E pensando nisso que ele se dirigiu aquela loja em especial em Aspen, Colorado. Havia se casado nos Estados Unidos, possuía duas filhas, ambas tinham nomes latinos-brasileiros, pois ele tinha orgulho de sua cultura, e principalmente da cultura aguerrida e incansável do nativo nordestino. Elas eram Francisca e Maria Alice, de 10 e 7 anos, respectivamente. 

Ainda não havia decidido que compraria para elas, crianças hoje em dia não eram tão fáceis de agradar quanto as de antigamente, em que ele se contentaria com qualquer garrafa pet com rodas improvisadas e usaria a imaginação para terminar o carro de fórmula 1.

Com essa indecisão, estava na frente da vitrine da loja “Decore”, especializada em brinquedos e decorações natalinas. De relance, pode ver os funcionários lá dentro vestidos todos de duendes, correndo para um canto e outro e atendendo a multidão de pessoas.

Era raro visitar uma loja física, sempre comprava tudo online, após pesquisar intensamente sobre os preços dos produtos em todos os locais disponíveis. Mas a loja havia chamado sua atenção, qualquer coisa, iria ver algo legal nela e procurar pelo preço do mesmo produto online, mais barato.

Era curioso que havia tantas pessoas em uma loja tão pequena, mas a decoração era impressionante, tinha um clima natalino agradável e uma música jazz bem suave percorria os corredores, deixando seu coração quentinho.  Além do mais, o cheiro de cookies recém assados estavam abrindo seu apetite.

Olhou a vitrine com curiosidade: havia alguns brinquedos confeccionados à mão, não possuíam indicativos de marcas, nem nada do tipo, pareciam bem feitos e bem pintados, um pouco delicados, talvez, mas seriam itens de colecionador.

— Gostou dos nossos produtos, senhor? – Uma voz aguda perguntou próxima a si.

Olhou para seu interlocutor: era um dos funcionários da loja, vestidos de gnomo. Era mais baixo que parecia dentro da loja, deveria ter entre 1,55 a 1,60, no máximo. Isso configurava nanismo? Não sabia dizer.

— São muito bem feitos, vocês mesmo que confeccionam? – Alexandre perguntou, impressionado.

— Sim, nosso gerente, o Nicholas – apontou para o homem vestido de Papai Noel no centro da loja – monta todos projetos e constrói os protótipos. Nós pegamos os diagramas que ele faz e montamos as réplicas para vender. Falando nisso, meu nome é Chik.

Alexandre olhou para ele, claramente ainda estava interpretando um papel, não iria perguntar mais que isso. Quem diabos se chama Chik?

— Prazer, Alexandre, mas pode me chamar de Alexander, caso ache a pronúncia difícil.

— Não é daqui também, senhor Alexandre? – repetiu o nome Alexandre perfeitamente, sem nenhum sotaque.

— Não – riu Alexandre – bela pronúncia, por sinal. Sou do Brasil.

— Ahhh, Brasil, belo país… 

— Já foi lá?

— Algumas vezes, aqui e ali… deseja conhecer mais da loja?

— Claro – Alexandre já estava curioso o suficiente para saber qual era daquela loja.

— Vou te acompanhar enquanto Nicholas atente os outros clientes, depois disso, ele te atende, tudo bem?

— Ah, não será necessário, acho que ele já está ocupado demais, não seria trabalho demais para o gerente?

— Ahhh, mas vir na “Decore” e não ser atendido pelo Nicholas é como ir na Disney e não ver o Mickey, não teria graça nenhuma. Você vai entender depois – riu Chik – Enquanto esperamos, você aceita cookies?

— Claro, um dos motivos que entrei na loja foi o cheiro de cookies – brincou Alexander.

— Claro que foi, todo mundo gosta de cookies – Chik era um cara bem feliz, aparentemente.

Experimentou um cookie que o funcionário ofereceu, era bem gostoso, tomou também chocolate quente, que estava muito bom.

— Superou minhas expectativas – disse Alexandre, limpando a boca.

— Fico feliz com isso, se estivesse ruim, teríamos que despedir o cozinheiro, e ele é meu irmão – ele riu de sua própria piada.

— Por favor não faça isso, ele foi muito bem.

— Então, procura o que especificamente aqui na loja? Vamos facilitar o trabalho do Nicholas.

— Na verdade, não tenho muita ideia… não sei o que minhas filhas iriam gostar de receber de presente. Elas só ficam no celular, ou tablet. Pensei em comprar algo relacionado, mas não quero alimentar esse vício.

— Difícil… qual a idade delas?

— A mais nova tem 7, a mais velha 10.

— Dê uma olhada nas bonecas feitas à mão, vê se alguma lhe agrada – disse, apontando para uma prateleira próxima – por sinal, o Nicholas está vindo, olha ele ali!

De fato, o homem rechonchudo de bochechas rosadas e roupa de Papai Noel estava vindo com um sorriso no rosto.

— Boas Vindas, querido cliente, espero que esteja aproveitando nossa loja – disse o homem de vermelho – acredito que já tenham me apresentado para você, mas vou repetir! Meu nome é Nicholas, sou gerente da loja! Prazer em conhecê-lo.

— O prazer é todo meu, senhor Nicholas, me chamo Alexandre – estendeu a mão para cumprimentar o gerente.

O gerente retribuiu o gesto e acompanhou-o em direção à prateleira, mostrando algumas bonecas muito bem feitas de madeira e tecido. O correto era dizer que tinha bonecos e bonecas, eram feitas de porcelana e muito bonitas, mas não parecia ser algo que crianças gostassem.

— Bom, não sei se minhas filhas iriam gostar de bonecas tão frágeis – começou, com um tom apologético – sabe como são crianças, né?

Nicholas sorriu, mas seu olhar ficou mais pensativo, como se estivesse ponderando a resposta cuidadosamente.

— Eu entendo perfeitamente, Alexandre. Hoje em dia, as crianças têm outro tipo de interesse, mais voltado para a tecnologia. Mas essas bonecas têm algo especial: elas são mais do que apenas brinquedos, são verdadeiras obras de arte. Cada uma delas tem sua história, seu propósito, e são feitas para durar gerações, como um legado. Talvez, se você achar que suas filhas têm uma conexão com a cultura e a tradição, elas possam se encantar. 

Alexandre olhou as bonecas com mais atenção. Algumas eram representações de personagens típicos do Natal, como o próprio Papai Noel, o duende, e até figuras mais folclóricas, como a Yule Goat, da tradição escandinava. Havia também versões de personagens mitológicos e animais, todos incrivelmente detalhados, com roupas feitas à mão, rostos pintados com uma delicadeza impressionante.

— São realmente lindas — disse Alexandre, com um sorriso desconcertado. — Mas, como você mesmo mencionou, minhas filhas são bem modernas, elas gostam de coisas mais… tecnológicas. 

— Bem, isso é um desafio, mas também uma oportunidade — disse Nicholas, enquanto o conduzia para outra prateleira, onde estavam expostos itens mais interativos. — Olha essas figuras, por exemplo. Elas são mais voltadas para a imaginação, mas têm um toque moderno. São brinquedos educativos, mas que se conectam com a tecnologia de uma maneira que você talvez aprove. Elas interagem com tablets, têm aplicativos e jogos que desenvolvem habilidades. Não estou dizendo que deve substituir o digital, mas talvez combinar os dois universos, o antigo e o novo.

Alexandre olhou com mais interesse. Havia figuras de animais de madeira, que, ao serem colocadas sobre uma superfície de madeira especial, interagiam com o aplicativo no celular, mostrando informações sobre os animais, sons e histórias interativas. Embora fosse um brinquedo que misturava o antigo e o novo, ele ainda se sentiu um pouco desconfortável com a ideia de incentivar ainda mais o uso de telas. Mas, por outro lado, as peças eram encantadoras.

— Isso me lembra de uma coisa — Alexandre disse, com uma leve nostalgia na voz. — Quando eu era criança, a diversão era simples. Eu não tinha um tablet, nem celular, e ficava feliz com qualquer coisa que minha mãe me desse. Eu lembro da ceia de 1997, e o quanto aquilo foi importante para mim, não pelo que comemos, mas pela sensação de união, de felicidade simples. E, agora, vejo minhas filhas imersas nesse mundo virtual e fico pensando se elas têm alguma ideia do que é uma felicidade mais genuína, mais simples.

Nicholas, que até aquele momento se manteve quieto, como se estivesse apenas mostrando os produtos, olhou para Alexandre com um olhar compreensivo.

— Eu sei exatamente o que você quer dizer, Alexandre. É uma luta constante, a de equilibrar o antigo e o moderno. A vida moderna tem suas vantagens, claro, mas a sensação de conexão verdadeira, de momentos simples e genuínos, muitas vezes se perde. Eu, por exemplo, fui criado em uma pequena vila onde as coisas eram mais lentas, mais calorosas. O Natal para mim era uma festa de comunidade, onde todos se ajudavam e compartilhavam. Mas, com o tempo, eu também fui absorvendo essa cultura do consumo, da pressa, da aparência… e o que me restou foi uma sensação de vazio, uma falta de algo mais profundo. 

Alexandre olhou para o homem, surpreso com a sinceridade na resposta, e uma conexão não planejada pareceu surgir entre os dois.

— Eu entendo… — disse ele, mais suave. — Mas, ao mesmo tempo, a vida não para. Minhas filhas nasceram nesse mundo digital, e não posso apenas desligá-las dele. O que posso fazer é tentar balancear, trazer um pouco do que vivi na minha infância para elas, de alguma forma.

Nicholas sorriu, talvez entendendo mais do que Alexandre queria dizer.

— Às vezes, não são os brinquedos ou os objetos que realmente importam. São as experiências que criamos com nossos filhos, as histórias que contamos, as memórias que compartilhamos. A loja “Decore” é só um reflexo disso: procuramos oferecer algo mais do que apenas um presente material. Oferecemos a chance de criar momentos, de relembrar tradições, de passar adiante uma parte do que somos. Então, talvez o que você esteja buscando, Alexandre, não seja um brinquedo, mas uma maneira de compartilhar esse espírito natalino com suas filhas.

Alexandre se sentiu tocado pelas palavras de Nicholas. Por um momento, foi como se ele tivesse encontrado alguém que entendia suas angústias e, ao mesmo tempo, lhe oferecesse uma solução simples, mas profunda.

— Você tem razão — disse, com um suspiro profundo. — Talvez não precise me preocupar tanto com o que elas vão ganhar, mas com o que elas vão viver durante esse Natal. Eu acho que vou levar algo daqui, mas o principal será o tempo que passarei com elas, criando as memórias que um dia elas lembrarão com saudade.

Nicholas sorriu, satisfeito com a conclusão.

— Fico feliz por ouvir isso, Alexandre. Às vezes, as respostas estão dentro de nós, esperando para serem encontradas.

Alexandre pegou uma das figuras interativas de madeira, pensando no que poderia ser o presente certo, mas mais importante ainda, nas memórias que ele construiria naquele Natal. Ele finalmente sorriu, de um jeito que há muito não fazia, como se o espírito de Natal, aquele mesmo que ele sentira quando criança, tivesse voltado para ele, um pouco mais maduro, mas igualmente real. 

— Acho que vou levar essa. E, quem sabe, vou também fazer algo para elas, algo simples. Como uma boa ceia de Natal.

Se despediu de Nicholas e dos gnomos (ou duendes?) e partiu para casa, com a certeza de que havia feito a escolha certa, de que o amor que sentia por suas filhas fosse guiá-lo por essa data especial, e, mais do que presentes, faria daquelas vidas uma memória, em que perduraria para sempre o verdadeiro significado do Natal.

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O Mago do Deserto

O MAGO DO DESERTO

A areia incomodava seus olhos, arranhava sua íris azulada e grudava em sua pele suada. O poço de água estava a apenas cinco quilômetros do monastério, mas sair em meio ao deserto era cansativo para a criança. Mas seu mestre estava com sede, não havia muito o que fazer se não ir buscar a água ele mesmo.

Voltou para os limites do monastério cansado, mas com um balde de água fresca em mãos. Quando adentrou as paredes de mármore branco sagradas, percebeu que Holt estava esperando por ele, abanando o rabo e com a língua para fora. Não era fácil domesticar um chacal, eram animais astutos, mas tímidos e retraídos, não confiavam em humanos, mas Perl tinha certeza que Holt havia se aproximado deles por causa da aura que exalava de seu mestre: era uma aura gentil e acolhedora, comum a poucos magos, visto que em sua maioria eram pessoas despreziveis.

Acariciou as orelhas de Holt, que retribuiu com um latido, e voltou a caminhar por dentre os corredores de mármore do monastério, até que chegou no escritório de seu mestre, o Grande Mago Ja’fal. Ele era um homem alto, com a cabeça completamente lisa, evidenciando a sua falta de cabelo, sua pele cor de oliva já estava desgastada pelo sol e velhice, e ele exibia em sua fronte um cavanhaque branco de respeito, além de um sorriso fácil no olhar.

— Pegou minha água, jovem Perl? – perguntou, já sabendo a resposta.

— Peguei sim – com um arfar de esforço, colocou o balde em cima de uma mesinha lateral, e passou à outra mesa para pegar um copo e servir seu mestre.

Assim que o velho sorveu as últimas gotas de seu copo, ele se levantou em um ímpeto jovial, pouco característico de sua idade. 

— Estava ansioso para mostrar algo para você – disse o velho mago, se apressando pelo corredor – venha! Não fique parado aí!

Após hesitar, surpreso, por alguns segundos, Perl seguiu o mago pelos corredores, imaginando o que havia acontecido com seu mentor para ele agir assim. Holt os seguia abanando o rabo, sem ter a mínima ideia do que estava acontecendo.

Pararam em frente à biblioteca do monastério, a porta dupla de madeira de mogno era pesada, mas mecanismos internos faziam-na abrir quando alguem se aproximava, e isso que ela fez: quando a dupla (e o animal) surgiram na frente dela, ela se abriu mostrando a infinidade de livros que havia lá dentro. Eram várias torres de madeira circulares, com livros das mais diversas áreas, acompanhadas de estantes e mais estantes, um golem de mais de dois metros de altura era o bibliotecário, foi feito por Ja’fal há anos atrás para servir como guardião e facilitador de seu trabalho na biblioteca.

O golem estava arrumando livros na estante quando o mago passou por ele quase correndo.

— Venha Perl, estamos chegando!

Confusa, a criança acompanhou o mago, fazendo um breve aceno para o golem, que estava sem se incomodar com a situação.

O mago parou em frente à uma das torres de livros, e deslizou o dedo pela madeira da estrutura por um breve momento, achou o que estava procurando quando um barulho de clique pôde ser ouvido e mecanismos começaram a serem ouvidos. Enquanto o barulho de engrenagens e polias ressoava em seus ouvidos, uma parede se abria no fundo da biblioteca, revelando uma escadaria que descia em um corredor pouco iluminado por lamparinas azuis.

— Há quanto tempo isso existe? – perguntou Perl, impressionado.

— Desde antes de você aparecer aqui no monastério – ele fez uma pausa enquanto descia a escadaria – eu estou trabalhando nessa magia há um tempão, mas só ontem consegui realizá-la.

— Que magia?

O mago olhou para trás e sorriu.

— Você vai ver…

Enquanto desciam pela grande escadaria que Perl nem sequer imaginava que existia, o velho mago lhe perguntou:

— Você leu o livro que eu lhe dei? “A Breve História da Magia”?

Perl hesitou.

— Li o começo…

— Então não deve ter chegado na parte importante… – resmungou – depois abra no capítulo 17, “O Paradoxo da Mana” e terá mais conhecimento sobre o assunto.

— Do que está falando?

— Estou falando que a Mana neste mundo pode vir a acabar um dia – esperou as palavras pesarem no ombro do rapaz – magia, Perl, é realizada com a energia que conhecemos como Mana, quando utilizamos magia, um pouco da Mana se acaba, pois quando construímos algo com magia, parte da mana fica cristalizada no constructo mágico.

Perl quase sentiu a cabeça girar com tanta informação.

— Em resumo, significa que a magia um dia deixará de existir.

— Mas isso seria um desastre! – retrucou Perl.

O velho mago sorriu.

— E é por isso… – fez uma pausa dramática e abriu os braços, ao mesmo tempo que chegavam ao final da escadaria – que eu vou revolucionar esse mundo!

Assim como uma criança com um brinquedo novo, talvez até ainda mais animado que isso, ele saltitou no chão firme e um pouco úmido do subterrâneo e passou a ativar umas alavancas que se destacavam no escuro. Quando ele as ativou, o teto abobadado do subterrâneo pareceu se iluminar em uma explosão de cores, e diversos pontos luminosos foram surgindo no firmamento como se fossem…

— São estrelas – Perl murmurou – que lindo!

O velho mago assentiu, satisfeito, e passou a girar um mecanismo parecido com uma manivela que estava em uma das paredes. Quando ele fez isso, as estrelas começaram a girar também e se organizaram em forma de espiral, com seus brilhos inconstantes fazendo um show de luzes na sala subterrânea.

— É com esse equipamento que irei revolucionar o mundo da magia – disse o velho mago – Usei de várias áreas da magia para fazer isso: Abjuração, conjuração, astrologia e até necromancia. 

— Como funciona? E o que faz?

—  Quando eu era bem mais jovem, eu descobri que representações de algo podem conter parte da mana da coisa original. Como exemplo, um quadro de um mago poderoso pode conter parte da mana do mago – continuou tagarelando – mas isso me levou à uma dúvida: se alguém me pintar várias vezes, vou perder parte da minha mana?

— Acho que não, não faz sentido.

— Exato, foi ai que descobri que a arte cria mana, é como se quando algo fosse criado, a mana fosse criada junta! Mas nunca era o suficiente. A mana criada com uma peça de arte era ínfima se comparada à mana do objeto original. E então a solução que arrumei para isso foi retratar em arte uma coisa que possuísse muita mana: um sistema solar inteiro!

— E foi assim que conseguiu mais mana?

— Não… – sorriu.

— Não deu certo?

— O quadro de um sistema solar não foi o suficiente nem para angariar mana o suficiente para fazer uma magia de primeiro círculo! – resmungou – nesse momento eu quase desisti, mas aí vieram meus conhecimentos de necromancia.

Aproximou-se do jovem.

— Necromancia consiste em conectar sua mana com a mana do mundo dos mortos, porque eu não faria isso com o cosmos? Eu só precisaria conectar minha mana com algo no espaço. Mas a pergunta se mantém… como eu faria isso?

Antes que Perl pudesse responder, ele continuou:

— Magia de conjuração, eu poderia conjurar um aspecto das estrelas aqui no meu escritório, só precisaria estar em contato visual com elas. Daí veio minha ideia de conectar tudo com arte, fiz esse observatório de estrelas, memorizei a posição de cada uma e repliquei aqui no interior do monastério. Depois, conjurei a essência do cosmos usando minha própria mana e cortei o acesso à mana exterior com uma magia de Abjuração, para testar o resultado.

— E qual foi o resultado?

— A mana produzida é o suficiente para sustentar a academia aérea de magia no ar por um ano, e consegui isso em um dia – seus olhos brilhavam – é um torrencial de mana!

Perl estava impressionado, não tanto quanto o seu mestre esperava, mas estava bem impressionado. Mas ainda restava uma dúvida:

— E o que vamos fazer com toda essa mana?

— Distribuir pelo mundo, mas não sei como ainda. Se deixarmos o curso natural tomar conta, a mana acaba se espalhando pelo mundo em algumas centenas de anos, mas não temos todo esse tempo para colher os louros de nosso processo.

— Entendo, e isso fica ativado para sempre? Não vai ter um problema de excesso de mana?

— Ainda não está ativado, a alta densidade da mana no ambiente faria a gente sufocar, ou pior: nos transformaria em quimeras.

— Então quando vamos ligar?

— Vou ligar agora somente para demonstrar o efeito para você, mas temo que vai ficar desligado por um bom tempo, até eu descobrir uma maneira de dissipar toda essa mana.

Ja’fal deu um sorriso enigmático enquanto olhava para Perl, que estava agora mais envolvido pela ideia do que uma torrente de mana poderia representar. O velho mago, com sua energia jovem e olhar cintilante, se preparava para o momento que ele julgava ser o auge de sua longa jornada de experimentos e descobertas.

Com um gesto teatral, ele puxou uma alavanca no painel à sua frente. Instantaneamente, a sala subterrânea foi preenchida com uma luz intensa. As estrelas no céu artificial começaram a brilhar com mais força, formando uma espiral complexa que parecia girar sobre eles como um redemoinho cósmico. Perl ficou momentaneamente cego pela intensidade, mas logo seus olhos se ajustaram e ele pôde ver, surpreso, como as estrelas começaram a dançar, cada uma emitindo raios cintilantes que pareciam tocar a própria essência do universo.

A mana no ambiente crescia, e Perl podia sentir uma leve pressão no ar, como se a própria atmosfera estivesse carregada com algo poderoso, algo que ele ainda não conseguia compreender completamente.

— Eu sei que parece maravilhoso, mas observe com cautela — disse Ja’fal, observando a reação do jovem. — Esta não é a mana de qualquer pessoa. Eu extraí a energia diretamente do tecido cósmico. Aqui não há apenas magia… há um pedaço do próprio universo. Se essa energia não for controlada, pode transformar tudo ao seu redor.

Perl, maravilhado e um pouco temeroso, olhou para as estrelas flutuantes, que agora pareciam estar se aproximando perigosamente. Ele sabia que estava diante de algo imenso, algo que poderia mudar o destino do mundo, mas sentia também que o velho mago estava caminhando em uma linha tênue entre a genialidade e o risco absoluto.

— Mas como você vai controlar algo tão grande, mestre?

Ja’fal sorriu, um sorriso cheio de segredos e promessas.

— Eu não posso controlar o cosmos, Perl, mas posso conectá-lo ao meu próprio corpo. Com isso, a mana passará a fluir através de mim de uma maneira que nunca se dispersará. Vou me tornar uma espécie de ânfora mágica, um recipiente para o poder. Essa energia será contida até eu encontrar a maneira de usá-la em sua totalidade.

De repente, o som de uma estranha vibração cortou o ambiente, e Perl sentiu um arrepio na espinha. As estrelas começaram a brilhar mais intensamente, como se quisessem se libertar da sala subterrânea e invadir o mundo exterior. O ar ficou mais denso, e Perl podia sentir a presença da magia ameaçando sair do controle.

Ja’fal franziu a testa e correu para o painel, tentando puxar de volta a energia. Mas as engrenagens pareciam ter se desgarrado, como se a própria força da mana estivesse fora do alcance do mago.

— Está fugindo do controle… — murmurou Ja’fal.

Perl olhou ao redor, tentando entender o que estava acontecendo. Holt estava inquieto, rosnando e pulando em círculos, aparentemente sentindo a intensidade da mana no ar. A criança sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo, e uma vontade de fugir tomou conta dele.

Ja’fal olhou para Perl com uma intensidade quase mística, como se tivesse alcançado um nível de compreensão que o jovem não podia ainda captar.

— Estamos fazendo história, Perl. Estamos desafiando os limites da magia e da própria existência. O que acontece daqui pra frente pode mudar tudo.

Neste momento, algo estranho aconteceu. As estrelas começaram a desmoronar, não como uma queda, mas como se estivessem se distorcendo, retorcendo o espaço ao seu redor. O céu artificial começou a rachar, e com isso, uma onda de mana pura começou a se derramar pela sala, iluminando cada canto com uma luz cegante.

— Mestre! — Perl gritou, olhando para Ja’fal, que ainda estava em transe, totalmente imerso na experiência de controlar o caos mágico.

De repente, uma voz tenebrosa surgiu de onde menos esperava: 

— Canalize a magia, garoto – era uma voz desconhecida, mas estava saindo da boca canina de Holt.

— Holt?

— Me apossei do corpo mais próximo que pude encontrar, meu verdadeiro nome é – seguiu a dizer vários fonemas incompreensíveis – mas preciso que me escute: se não canalizar a magia agora, um desastre sem precedentes vai acontecer.

Perl entrou em pânico, canalizar a magia? Como? Ainda não era um mago experiente, podia fazer pouca coisa. Sem saber para onde ir e o que fazer, tentou concentrar seu “olho interior” para observar a mana, assim como seu mestre havia lhe ensinado. 

Viu uma torrente tão grande quanto o próprio deserto, uma energia intensa que quase lhe cegava o olhar, sentiu as ondas de mana tocarem sua pele e algo dentro dele mudar, mas não o suficiente para se desesperar. Concentrou seus órgãos mágicos para se tornar, assim como seu mestre, uma ânfora da magia, e começou a absorver a quantidade enorme de mana que descia das estrelas.

Não demorou muito para que percebesse que foi uma tentativa fútil, seu corpo estava repleto de mana até o limite, e nem um pouco do torrencial havia sido diminuido. Mas a voz que saia de Holt lhe encorajou:

— Isso garoto, agora solte a seguinte magia – instruiu o garoto para repetir as palavras que dizia.

Ao fim do encantamento, o ar parecia ter mudado, e o torrencial de mana parecia estar diminuindo. Em poucos minutos, a mana parecia estar se dissipando e penetrando as areias do deserto.

Perl se inquietou, tudo parecia ter dado muito certo, mas no pânico, havia soltado uma magia cujo efeito ele desconhecia.

— O que foi que eu fiz? – perguntou para Holt, que fitava-o com um olhar vazio.

Seja quem for a criatura cósmica que havia se apossado de Holt, já tinha ido embora. Preocupado, olhou para o seu mestre, e ficou desconcertado quando não o viu lá, somente suas roupas estavam largadas no chão, como se ele tivesse evaporado.

Com um calafrio na espinha, percebeu que estava sozinho de novo, e a imensidão do cosmos o fitava, como se esperasse por algo dele. Olhou para cima, as estrelas ainda estavam lá, e finalmente percebeu, com seus sentidos mágicos, o que havia acontecido: seu mestre havia se fundido com o deserto, e a mana havia se espalhado em toda sua extensão, diminuindo a pressão mágica da atmosfera.

Saindo para o lado de fora do monastério, viu que o ar estava mais pesado, e a areia estava brilhando em um tom róseo, e as estrelas… elas formavam um rosto demoníaco.

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A Piada dessa vez não foi o Peido

Já seguraram peido na frente de uma gostosa? Pois é, eu já. Irei explicar: era um dia comum em uma semana qualquer no trabalho. Aqueles dias em que parece que toca aquela musiquinha de filler de Naruto em que você sabe que nada de relevante irá acontecer, mas, ao mesmo tempo, tem a esperança de que será entretido. Até porque, bem, é Naruto, e Naruto é legal. Mas eu não sou o Naruto.

Veja bem, eu sou gerente de projetos de uma empresa que vende produtos enlatados para exercício militar de grandes potências.

O que isso tem a ver com a história? Na real, possivelmente nada. Contudo, pode ser que seja um inoportuno Karma que me forçou nessa situação constrangedora, visto que o destino não deve gostar de quem lucra com guerras.

É injusto, eu sei. Queria apenas olhar na cara do destino e dizer para ele: “Moço, eu só trabalho aqui.” Mas não é assim que a banda toca, a sinfonia dessa música do acaso remete a uma flatulência de um homem assalariado de classe média e acima do peso (vulgo eu).

Pois bem, lá estava eu no elevador principal do prédio chique de nossa corporação. O meu escritório fica no 13º andar, entro pelo térreo, como todo dia. Mas essa lata infernal faz uma parada no 5º: neste andar, entra a mulher mais bonita que já vi em toda a minha vida.

Eu poderia descrevê-la até. Mas não tenho o vocabulário. Por acaso solicitarias aos profetas Moisés, Isaías, Ezequiel ou João para descreverem a ti a face de Deus? Embora eles tenham-na descrito — de maneira alegórica — nos textos sagrados, eles apenas limitaram o infinito divino a uma maneira de que vossas mentes mortais pudessem compreendê-la. Dessa mesma maneira, não conseguiria explicar a um peixe, que vive num aquário sujo em um restaurante de beira de estrada próximo ao posto Ipiranga, o que seria o Grande Oceano. Assim eu me sentia ao ver essa mulher: poderia apreciá-la, mas nunca compartilhar ou compreender a sua beleza.

Ela entra no elevador e sorri para mim e para o estagiário que me acompanhava, sorrio de volta, um sorriso amarelo. Havia um motivo para eu temê-la: ainda sou virgem e nunca conversei por muito tempo com uma mulher, não sobre assuntos que não sejam trabalho ou coisas do tipo. A última vez que falei com uma mulher bonita foi quando comprei Cheetos de requeijão, monster branco e aquelas balas fini de bananinha na padaria, e a atendente sorriu para mim. Sabe o que isso quer dizer, né? O perfume dessa deusa me provocava não só desejo, mas também gases.

Tentei manter um rosto neutro enquanto meu esfíncter urrava por atenção. Utilizando todos os meus pontos de chakra espalhados pelo corpo, eu liberto o instinto superior e seguro o peido galopante que se aproximava de meu ânus.

“Acalme-se, são só alguns andares, você vai aguentar”, repito para mim mesmo enquanto a moça pressiona o botão 9 no elevador. Por sorte, não demoraria. Ao menos era o que eu acreditava enquanto observava o visor do elevador mostrar-me os números dos andares. 

6º andar: começo a recitar a seleção que ganhou o ouro olímpico em 2016. Neymar, Gabriel Jesus, Douglas Santos…

7º andar: o elevador dá um tremelique e eu consigo liberar um pouco de gás no barulho, esperando para que o cheiro não se espalhe antes da porta abrir.

8º andar: um pouco mais calmo, começo a sorrir para o espelho enquanto grito internamente “hail cu, hail cu”.

9º andar: a gente não chegou nele…

Em um golpe sanguinário do destino, a energia do prédio foi embora, assim como as forças do meu cu. Libero um peido estrondoso o suficiente para fazer a moça ter um leve sobressalto na minha frente.

Para evitar mais constrangimentos, digo:

— Parece que emperrou alguma coisa, que barulhão.

— Pois é… deve ser a correia, ou algo assim

Aparentemente, ela havia acreditado, ou pelo menos, queria que eu achasse que ela havia acreditado. Mas em poucos segundos, eu o senti: um cheiro forte e amedrontador, como o bafo de um dragão, a minha flatulência estava demonstrando que a razão de sua existência era simples, porém cruel: era feder pra caralho.

— Acho que o elevador bateu em um bicho morto aqui do poço — disse, olhando para baixo.

— Sim, sim… deve ser isso — ela desviou o olhar e passou a encarar fixamente a porta.

Eu tinha que fazer algo: puxar um assunto talvez, quem sabe distrair ela do assunto em questão, que era o que acabara de expelir pelo meu sistema gastrointestinal. Mas como puxar assunto com uma mulher? 

— O que você acha da Guerra do Irã?

— Perdão? — Deu certo, ela estava entretida.

— Guerra do Irã, ué. Oriente Médio… petróleo… essas coisas.

— Ah… entendo… — ela parecia cautelosa, meu plano era muito arriscado.

— Bom… acredito que os EUA não deveriam ter bombardeado, né? E Israel, também… não sei se gosto de sionistas…

— Olha… parece que a energia está voltando… — ela disse, meio esperançosa, mas ela de fato estava.

— Sim, em breve o elevador volta a andar.

— Que ótimo! — Ela deu uma risadinha nervosa.

Mais alguns segundos de silêncio constrangedor, e eu sabia que precisava falar mais algo, qualquer coisa que tirasse o foco daquele gás primordial que havia saído do meu cu.

— Enfim, não acredito que meu primo se engasgou com uma carambola.

— Com o que?

— Carambola, aquela fruta do cerrado, parece uma estrela.

— Ah, sim…

Finalmente, o elevador voltou a subir, e poucos instantes depois, ela estava no andar dela.

Saiu, dando um “tchau” baixinho e sem graça, e passou a caminhar no corredor. Humberto, o estagiário que estava conosco no elevador, suava frio. Olhei para ele, por algum motivo havia me esquecido de que ele estava ali.

— Senhor, aquela é a filha do seu Osmar, o dono deste prédio — ele disse, arregalando os olhos.

— Que bom! — Fiz uma pausa — espero que ela não tenha percebido que peidei.

Humberto abriu a boca, fechou, e abriu de novo.

— Senhor… ela também peidou. No 7º andar. Quando o elevador tremeu.

Fiz as contas.

Nós dois havíamos usado o mesmo estratagema. Nós dois havíamos culpado o elevador. Nós dois éramos, no fundo, a mesma pessoa, como almas gêmeas.

Humberto mal terminou de falar quando o celular do narrador vibrou. Uma mensagem de número desconhecido, com a foto de perfil dela:

“Haha, eu sei que foi você que peidou primeiro. Meu pai tá procurando um gerente de projetos novo pro escritório de Dubai. Me chama, rs.”

Abaixo, um emoji de estrela — uma carambola.

Ela me desejava. Eu sabia disso agora. Mas nunca respondi. Me demiti no dia seguinte. Mas por que? Você pergunta…

Porque, a rigor, nada disso importa. A empresa vende comida para soldados que vão morrer. O prédio vai ser demolido em 2029 para virar um estacionamento. Eu vou me aposentar sem ter aprendido a falar com mulheres. E o peido, assim como a esperança de um futuro, já se dissipou no ar.

Sim, a piada não foi o peido, foi o absurdismo do destino, como sempre tentei avisar. É desesperançoso.

Ashes to ashes. Gas to gas. We all are going to die.

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Débito Cármico nas Alturas

Meu pai costumava dizer que “se filho da puta voasse, tu não ia ver nem o céu”. Hoje é um dia em que, ao menos, um filho da puta voaria. Este era eu.

“Mas Camilo, você é realmente um filho da puta?”

Aposto que é isso que você, intrépido e voluptuoso leitor, está se perguntando enquanto lê esse texto. Quem sabe com um sorriso de canto de boca, uma bochecha torcida em julgamento e olhos apertados para ler as palavras em sua tela. Lutando contra a respiração automática desligada.

Bom, eu devolvo a pergunta com um questionamento próprio: “um filho da puta sabe que é filho da puta?”

Provavelmente não. Mas aqui me permito ser um pouco sofista e subverter o conceito de filho da puta. Não, minha mãe não era do job, tampouco eu sou alguém (acredito) execrável ou babaca. Sou filho da puta por um motivo diferente, que irei lhe revelar:

“Eu havia comprado uma passagem de avião para o Piauí sem avisar minha esposa, e isso quase matou uma galera”.

Veja bem, eu tive bons motivos. Mas eu não poderia avisá-la para onde eu realmente estava indo. A Brenda é uma mulher maravilhosa — o amor da minha vida — e, possivelmente, a mulher mais linda que já conheci. Contudo, também é insegura, com baixa autoestima e um ciúme elevado.

Como sou jornalista esportivo, havia dito-lhe que estaria viajando com a empresa para cobrir a final da Champions na Europa, com alguns colegas de trabalho. Como ela não assistia futebol, acreditou. Mas na real, fui visitar minha ex no Piauí.

Antes que me julguem, devo afirmar que isso não é por motivos de traição. A verdade é que não estava indo encontrar a Valéria por motivos sexuais ou emocionais, era algo muito maior.

Cheguei à Teresina às 14h17 de uma quinta-feira (ontem) em que o sol parecia refletir o karma negativo do sofrimento humano.
Valéria morava num bairro chamado Uruguai. O motivo do nome deve significar simplesmente que alguém — em algum momento — havia achado graça em ter um bairro chamado Uruguai no Piauí, e ninguém havia questionado.

Peguei um Uber dirigido por um homem chamado Erivaldo que passou os vinte minutos do trajeto me contando sobre o divórcio dele com uma riqueza de detalhes que eu não havia pedido e não conseguia interromper. Desci do carro sabendo o nome da sogra, o valor da pensão devido e a marca do ventilador que ela havia levado na separação: “Um Arno. Branco. Com três velocidades.” Erivaldo havia dado quatro estrelas para o ventilador. Eu dei 5 para ele, principalmente pela história emocionante.

Valéria abriu a porta. Ficamos nos olhando por, talvez, quatro segundos antes que ela dissesse:

— Você realmente veio pelo maldito pente.

— Vim pelo pente — confirmei.

Ela foi buscar. Não me convidou para entrar. Fiquei na porta inquieto.

O pente voltou nas mãos dela dentro de uma caixinha de madeira que ela havia providenciado. Isso me comoveu um pouco, mas me perturbou muito. Isso significava que ela sabia exatamente onde estava o tempo todo e havia guardado com cuidado. Isso levantava questões sobre a natureza dela que eu não estava preparado para responder.

— Você poderia ter pedido para eu enviar pelos Correios — disse.

— Eu pedi. Três vezes.

— Não salientou a importância.

Ela ter usado a palavra “salientou” provava que ela era realmente professora de português.

— Precisava?

Ela fechou a porta. Não respondeu.

Mas veja bem, caro leitor, verdadeiramente preciso que você entenda o que é esse pente. Não no sentido físico, embora ele seja uma obra prima: quinze dentes perfeitamente espaçados em sândalo vermelho do Tibete, com cerca de dezoito centímetros de comprimento, pesando algo em torno de noventa gramas.

O pente foi feito numa vila chamada Tingri, nos arredores do platô tibetano, por uma família que havia produzido artefatos de madeira ritual por gerações. Teve a superfície polida à mão por um monge chamado Vritra Simardhra que, segundo o homem que me vendeu, havia feito voto de silêncio por onze anos e quebrado-o especificamente apenas para dizer que este objeto estava pronto.

O sândalo vermelho daquele pente específico tem propriedades que a ciência não confirma e que eu não me importo que a ciência não confirme: ele aquece levemente ao contato com o couro cabeludo humano. Não de forma alarmante, não como um objeto com defeito elétrico, mas de maneira reconfortante, como o abraço de uma mãe narcisista e obsessiva.

Eu descobri isso na primeira vez que o usei, num banheiro de hotel em São Paulo, e fiquei parado por quarenta segundos processando se havia enlouquecido ou se havia finalmente, aos trinta e quatro anos, comprado um produto que funcionava.
O vendedor — um mineiro com sotaque forte de Belo Horizontino — havia me dito:

— Uai sô, esse pente aqui não é só um item de higiene não, Zé. O monge fez ele para ser um trem que funciona como “organizador de estados” da roda do Samsara. Tipo assim, é um trem que funciona como um equilibrador cármico que reduz suas dívidas com o universo. É bão demais, sô!

A ideia é que os cabelos humanos funcionam como antenas — receptores e emissores de estado emocional, de intenção, de energia acumulada ao longo do dia. Pentear, nessa tradição, não é só estética, mas também possui valor editorial. Você passa o pente e decide, fio por fio, o que fica e o que vai embora.

Eu havia comprado isso por R$180 porque estava atrasado, com fome, e o vendedor havia dito tudo aquilo com uma convicção que eu não encontrava nem no Edir Macedo, nem no Abel Ferreira. E porque meu couro cabeludo estava num estado que classificaria como avatar do Kali Yuga — que é o ciclo de caos e destruição hindu. Comprei. Usei. Funcionou — no sentido de que meu cabelo ficou melhor, meu humor ficou levemente menos terrível, e eu comecei a acordar cinco minutos mais cedo só para usar o pente antes de qualquer outra coisa, o que é, clinicamente falando, o comportamento de alguém que desenvolveu um vício.

Sem o pente, nesses anos que eu o havia esquecido na casa da minha ex, tentei substitutos: houve um pente de plástico vermelho da farmácia que quebrou na terceira semana e cuja morte foi mais intensa que a do meu primeiro cachorro; um pente de metal que conduzia frio e me lembrava de instrumentos odontológicos; por último, um pincel de cabelo que a Brenda havia deixado no banheiro e que eu havia usado uma vez com compulsão quase maligna e uma culpa desproporcional de usar um objeto alheio. Nada funcionava. Meu couro cabeludo havia voltado ao seu estado natural de discípulo de Kali.

Enfim, o Uber de volta foi com uma motorista chamada Rosângela que não disse uma palavra sequer durante todo o trajeto. Provavelmente foi o ato de misericórdia mais significativo que alguém me ofereceu no ano inteiro. Também dei cinco estrelas.
Uma semana depois, no avião de volta, sentei no 14B, coloquei o pente no bolso da camisa, sobre o peito. Assim, pela primeira vez em meses, senti que as coisas estavam em seus devidos lugares. Ou pelo menos nos lugares que me acostumei. Foi nesse momento que o homem do 14A se virou para mim.
Ele tinha, aproximadamente, sessenta anos, barba branca aparada, óculos de aros dourados, e uma expressão curiosa, de alguém que parecia saber demais e julgar que todos sabiam de menos. Vestia também uma camisa de linho bege com manchas secas de café.

Ele olhou para o meu bolso. Depois olhou para mim. Depois voltou para o bolso novamente.

— Com licença — disse, o português dele parecia ter o sotaque de um brasileiro que mora no exterior. — Isso no seu bolso. Posso perguntar de onde veio?

Tirei a caixinha e abri. O pente estava lá, da mesma maneira de sempre, alheio ao fato de que havia mais de um homem interessado nele (assim como eu em meus tempos de choppada na faculdade).

O homem ficou absolutamente quieto por um intervalo que eu classificaria, tecnicamente, como longo demais para ser confortável.

— Meu nome é Heitor Drummond — disse, finalmente. — Sou professor titular de estudos védicos e hinduísmo comparado na USP. Publiquei quatorze livros sobre reciprocidade cármica. Passei três anos em Varanasi. — Pausa. — Esse pente foi feito em Tingri.

Não era uma pergunta.

— Foi — confirmei.

— Por um monge da família Simardhra.

— O senhor conhece?

— Conheço o trabalho. — Ele fechou os olhos brevemente. — Os Simardhra produzem artefatos de sândalo há sete gerações. A tradição deles é baseada num princípio que, traduzido de forma funcional para o português, seria algo como absorção ativa de karma. O objeto não só organiza, mas coleta. Cada impureza que o pente retira do portador fica retida na madeira. A madeira de sândalo vermelho é particularmente poroso para essa função. É, essencialmente, um repositório.

— Um repositório — repeti.

— De karma negativo acumulado. De tudo que você limpou de si mesmo nos anos em que o usou. E de todo ódio direcionado à você. — Ele olhou para o pente com a expressão de alguém que olha para uma arma carregada numa mesa de jantar de uma reunião de família. — Quanto tempo você tem esse objeto?

— Uns oito anos, acho.

O professor fechou os olhos de novo. Desta vez por mais tempo. Quando abriu, havia algo na expressão dele que eu descreveria, sem exagero, como aceitação profissional.

— Oito anos de karma coletado em sândalo virgem de Tingri. Num couro cabeludo de um… sem ofensa, jornalista esportivo.

— Por que importa a profissão?

— Porque é uma profissão de alta entropia emocional. Raiva, frustração, cinismo esportivo. O pente deve estar… — ele escolheu a palavra com cuidado — saturado de ódio de palmeirenses, flamenguistas e coisas piores.

— Saturado — repeti porque era a única coisa que eu conseguia fazer no momento.

— A tradição Simardhra tem um protocolo para isso. De seis em seis anos, o artefato deve ser purificado num ritual específico conduzido por um sacerdote de Shiva em Varanasi. Caso contrário, o karma acumulado começa a se expressar externamente com alguma intensidade.

Olhei para o pente. O pente ficou quieto, que é o que pentes fazem normalmente.

— Que tipo de intensidade? — perguntei.

O professor Drummond abriu a boca para responder.

Foi quando o avião parou de descer.

Não houve barulho, não houve turbulência, não houve nenhuma das sinalizações que os filmes ensinaram que precedem catástrofe aérea. O avião simplesmente parou de descer. Eram uns dois mil metros de altitude à aproximadamente vinte minutos do aeroporto de Congonhas.

O piloto comunicou pelo interfone com aquela voz específica de piloto que estavam aguardando autorização para a aproximação. Que isso era protocolo padrão e que não havia motivo para preocupação.

Passageiros que viajam com frequência sabem que a frase "não há motivo para preocupação" é, ela própria, um motivo para preocupação.

Vinte minutos depois, o piloto voltou. Ainda com a voz. Pequeno imprevisto operacional no aeroporto. Aguardando instrução do controle de tráfego aéreo. Sem previsão definida.
Quarenta minutos depois, ainda estávamos em órbita sobre São Paulo. Não metaforicamente. Literalmente descrevendo círculos sobre a cidade. E o pior de tudo, era que era São Paulo: não havia qualquer agrado ou senso estético que pudesse nos distrair dessa situação perturbadora.

O professor Drummond havia ficado em silêncio durante todo esse período, com os dedos entrelaçados sobre o colo e a expressão de quem não queria morrer na pior cidade do mundo.

— Professor — disse eu.

— Diga.

— Isso tem alguma relação com o que o senhor estava dizendo?

Ele respirou fundo.

— Não posso afirmar.

— E supor?

Ele olhou pela janela. Lá embaixo, São Paulo girava devagar como um prato que alguém havia esquecido no microondas.

— O karma acumulado em objetos saturados tende a se manifestar primeiro como impedimento. Bloqueio de movimento.

Impossibilidade de chegada. É como se o próprio destino construísse uma parede onde deveria haver um caminho.

— Uma parede — repeti.

— Ou, no caso específico da aviação — ele fez um gesto vago para a janela — um círculo.

A passageira do 17C estava filmando. Eu não a culpo. Às vezes — como bem pude perceber em minha vida pública — a única coisa que você pode fazer quando sabe que pode morrer, é abrir uma live no Instagram.

Ela havia começado filmando a janela: a cidade lá embaixo, o loop melancólico e preciso… Assim, capturou sem querer, a conversa entre mim e o professor Drummond. Não ela toda, mas o suficiente para viralizar.

Alguns minutos depois, a Choquei postou no twitter o vídeo com a legenda: "Professor da USP diz que passageiro com pente amaldiçoado está impedindo avião de pousar — voo preso há 1h sobre SP."

Em vinte minutos tinha trezentos mil visualizações. Mais vinte minutos e a CNN Brasil havia colocado o voo numa janelinha no canto da tela ao vivo.

Por sorte, o avião ainda tinha bastante combustível, poderia rodar por mais algumas horas antes de cair, mas alguns passageiros começaram a ficar agitados:

— É ele. É o cara do pente — disse alguém duas fileiras atrás.
O que é curioso sobre grupos humanos em situações de crise é a velocidade com que elegem um bode expiatório. Às vezes é um estrangeiro ou outra minoria. Às vezes é um político. Às vezes é um jornalista esportivo com um objeto de madeira no bolso.

— Que pente? — perguntou uma senhora com tom sádico no corredor.

— O pente do vídeo! — respondeu o homem. — O professor falou!
O professor Drummond suspirou do meu lado. Parecia que ele já havia passado por isso antes.

— Sugiro que você esconda o objeto — disse ele, em voz baixa.

— Esconder onde? — respondi, igualmente baixo. — Ele já está no bolso.

— Não sei, mas ele vai continuar influenciando seu destino se continuar aqui.

Antes que eu pudesse responder, a mulher do corredor apareceu ao lado do nosso assento. Ela tinha energia de “Karen”, aquelas mulheres brancas e sádicas estadunidenses.

— É você? — perguntou, apontando diretamente para mim.

— Depende…

— O do pente.

— Eu possuo um pente, sim.

— Joga fora.

Direto ao ponto. Admirável.

— Senhora, com todo respeito, não é assim que—

— Joga. Fora. — ela repetiu, agora com uma cadência mais marcada, como se estivesse treinando para um protesto.
Outras vozes começaram a se somar, como um coral improvisado de indignação mal direcionada:

“Se tá causando isso, joga!”; “A gente quer pousar!”; “Pelo amor de Deus, moço!”; “Você vai matar todo mundo por causa de um pente?!”

Essa última frase, em particular, tem um peso que você não espera ouvir na vida adulta.

Olhei para o professor Drummond, numa tentativa silenciosa de obter suporte acadêmico.

— Não há evidência empírica direta de que descartar o objeto resolveria — disse ele, com uma calma que beirava o irresponsável.

— Mas também não há evidência de que não resolveria! — rebateu alguém, o que, filosoficamente, é um argumento bom.

A tensão começou a escalar. Não em nível de violência física ainda, mas de ameaças verbais. Foi nesse momento que meu celular vibrou. Uma mensagem de Brenda.

Abri.

Brenda 💗:
“Camilo.”

Nada de bom começa com o seu nome seco num chat.

Brenda 💗:
“Você quer me explicar por que você está NA CNN?”
Respirei fundo.

Eu:
“Amor, eu posso explicar”

Isso raramente vinha antes de uma explicação satisfatória. Três pontinhos apareceram. Sumiram. Voltaram.

Brenda 💗:
“Você falou que estava na EUROPA.”
“EU-RO-PA, Camilo.”
“Com colegas de trabalho.”

Olhei ao redor. Um senhor me encarava com hostilidade moderada. A mulher do corredor ainda estava ali, como se estivesse querendo que eu abrisse a janela do avião e arremessasse o pente para fora.

Eu:
“Houve uma mudança de última hora”
Mentira fraca. Eu sabia. Ela sabia. O pente sabia.

Brenda 💗:
“Mudança de última hora pra TERESINA?”
“Você acha que eu sou idiota?”
Não respondi. Qualquer resposta possível pioraria a situação.

Brenda 💗:
“Eu vi o vídeo.”
“Eu sei que você foi buscar o maldito pente na casa da sua EX.”

Do meu lado, o professor Drummond cochichou:
— Situação conjugal agravante. Karma relacional costuma potencializar manifestações materiais.
— Talvez morrer apenas uma vez não apague meu Karma, professor — respondi.
O celular vibrou de novo.

Brenda 💗:
“Eu espero que esse avião caia.”

Parei e li de novo.

— Ela não pode estar falando sério.

— Emoções intensas direcionadas ao portador aumentam a carga — disse o professor casualmente enquanto reclinava a poltrona.

— Professor, minha esposa acabou de desejar a minha morte.

— Tecnicamente, ela desejou a queda do avião.

— Comigo dentro.

— Tem como sobreviver — deu de ombros.

Levantei os olhos: os passageiros continuavam me encarando; o avião e a roda do Samsara continuavam girando.

O pente continuava no meu bolso, silencioso, denso, satisfeito com o caos predestinado da situação.

— Professor — disse, com a voz mais baixa que consegui.

— Sim?

— Existe uma maneira de anular karma negativo?

Ele pensou por um segundo.

— Existe.

— E qual é?

Ele olhou para mim com uma sinceridade quase comovente.

— Com um sacrifício.

Do outro lado do corredor, alguém gritou:

— OU VOCÊ JOGA ESSE NEGÓCIO OU EU JOGO VOCÊ!

Era a aeromoça. Soube o que tinha que fazer.

Abri a janela de emergência. Não a porta — a janelinha oval de acrílico que existe, segundo o manual, exclusivamente para que você veja o quanto está alto antes de morrer. Não sei como abri. O manual diz que não abre. Abriu. O vento entrou com a força de uma péssima ideia. E eu pulei um salto de fé— com o pente no bolso do peito, a caixinha de madeira na mão, e a esperança de que algum deus (talvez inexistente) me perdoasse e me salvasse.

Caí mais de dois mil metros sobre São Paulo num estado que o professor Drummond descreveria, mais tarde em entrevista ao Roda Viva, como um meteoro de negatividade. Pousei no asfalto da Marginal Tietê sem um arranhão. Mas não foi nenhum Deus que me salvou, foi simplesmente São Paulo, onde o asfalto já está tão destruído que amortece qualquer impacto. O avião pousou trinta segundos depois.

Meu pai estava certo: filho da puta voa. Só não havia considerado que filho da puta também pousa.



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