O Legista e o Imortal

P.S:

Esse é um spin-off baseado no meu primeiro livro, A Jornada do Legista. Ele foi criado para treinar minha escrita de cenas de ação/luta e para compartilhar com amigos. Caso queira ler a história original, acesse o link:


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Baile da Aurora

Tonitro nunca tinha visto fadas tão belas antes: suas asas brilhavam em arco íris em meio às ruas e prédios prateados de Avalon, seus olhos eram semelhantes às mais belas pedras preciosas, e o sorriso de cada uma era tão resplandecente quanto as estrelas do céu.

Era uma procissão da rainha das fadas, Aurora, a fada que sucedeu Titania. Todas elas estavam passeando pelas ruas em carruagens flutuantes com diversas criaturas aladas que as acompanhavam. Elas estavam ali com apenas um motivo: divulgar para o reino das fadas o Baile da Aurora, um evento onde as mais belas fadas iriam dançar junto com a rainha.

Era o símbolo maior do glamour das fadas: as cores, as vestimentas… tudo gritava a magia. E foi por isso que novamente o coração de Tonitro se encheu de inveja.

Porque essas fadas viviam na esbórnia e na luxúria quando ele próprio era fruto da iniquidade e da malícia? Da miséria e da fome? Tonitro era uma fada como Aurora, mas ele nunca conhecera fartura, e os dias que teve as melhores refeições da vida foram os dias após a morte de sua irmã, Seidh, que morreu de desnutrição. Com menos uma boca para alimentar, ele conseguiu quase um banquete constituído por duas fatias de pão faerico.

Era comum que outros seres, inclusive humanos, achassem que fadas não se alimentavam, e que eram todos iguais. Mas não era verdade, nem todas as fadas podiam viver de mana pura, como as Tuatha de Danann, a maioria retirava a energia primordial de alimentos.

E quanto à igualdade… digamos que todas as fadas eram iguais, mas algumas fadas eram mais fadas que as outras.

Pixies, brownies, leprechauns, gnomos… todos eles eram considerados fadas de nível médio. Os elfos e as dríades de grau alto, mas Tonitro era um boggart, e boggarts não eram fadas de verdade, ao menos não segundo os demais… boggarts eram feios, e na sociedade das fadas, beleza é poder.

Diziam várias coisas de sua raça: que eram agressivos, que traziam azar, que eram teimosos e desobedientes, mas como mais poderia ser a reação de um oprimido contra um opressor? Depois de tantos anos sendo escravos de seus supostos semelhantes, como não serem agressivos? E por que sua presença causava azar? Por culpa reprimida daqueles que os maltratavam?

Talvez seja, mas foi por isso que Tonitro decidiu estragar de vez o baile da Aurora. Iria mostrar a todos sua hipocrisia e sujar os belos salões de Avalon com seu ódio. 

Ele esperou as semanas passarem para que o dia do baile chegasse. E foi assim que seu ódio se acumulou em seu coração sombrio. 

Nesse ínterim, fez uma fantasia espetacular com suas mãos habilidosas: com glitter artificial e papel feito de trigo feérico, fez um par de asas enormes que poderiam ser colocados em suas costas, que não só refletiam a luz do sol, mas criava a própria luz, com baterias feitas de mana pura. Também fez uma máscara de corvo com onix puro, e maravilhosamente lapidada, que havia roubado das minas em que trabalhava. Ele estava planejando aquilo há anos, e todo dia pegava um pouco das pedras e levava para sua casa. 

Também confeccionou sua roupa de gala utilizando pêlo de unicórnio banhado em sangue de uma ninfa, fazendo uma magia tão poderosa de charme, que qualquer um que olhasse para ele se apaixonaria. E é claro, escondeu o que restou dos corpos do unicórnio e da ninfa bem longe de sua casa.

Vestindo sua fantasia e máscara, rumou para o castelo de Avalon, que era nomeado com o nome do reino.

Olhando a fila de fadas belíssimas e encantadoras na porta, admirou mais uma vez e invejou novamente o privilégio das demais. Sua raiva podia ser mesquinha, egoísta, mas era justificada: no reino das fadas, seu nascimento era tudo, ele nunca teria o status de uma fada superior, não importa quanto tentasse ou merecesse.

Ainda na fila da festa, ouviu o discurso de Aurora, a máscara de corvo disfarçando sua repulsa pelas palavras fúteis da rainha das fadas:

— Que o glorioso dia seja inesquecível, minhas belas fadas – Aurora começou com uma saudação típica – que seja lembrado a todos que aqui, em meu castelo, a elite das fadas está reunida, os seres mais belos de todos os planos estão neste mesmo salão para que seja enfim definido quem será escolhido como meu noivo e próximo rei das fadas. 

Um barulho de aplausos cortou o discurso da rainha.

“Espero que aproveitem: bebam de minha bebida e comam da minha comida. Sejam felizes em meus aposentos e dancem à vontade,  logo mais irei dizer os critérios de julgamento para o concurso. Que os olhos de Dunedin estejam sobre todos vocês!”.

Quando finalmente se pôs às vistas de todos, entrando no salão de danças com confiança, sentiu até a música parar um pouco para que todos o admirassem. Um terno de gala branco e dourado com detalhes em vermelho-sangue, asas que não só refletiam as luzes, mas produziam uma luz púrpura própria, que alternava para cores mais quentes dependendo do ângulo, um corpo esbelto e aparentemente musculoso por detrás das roupas, e uma máscara escura cintilante que parecia ser feita da própria noite. Todos estavam olhando para ele, e todos estavam apaixonados.

Quando a multidão se dispersou, os outros entraram no salão de danças. Era implícito que dançar bem era um requisito para ser o rei das fadas, fadas amavam festas e dançar. E os outros competidores, que estavam intimidados por sua presença, sabiam que a melhor coisa que podiam fazer era serem os melhores dançarinos. E torcer para que ele dançasse mal.

Enquanto as fadas de companhia chegavam para serem os pares de cada competidor, reparou que a maioria formava fila para dançar com ele. Se deleitou de prazer ao imaginar o rosto que fariam quando descobrissem quem ele é por trás da máscara. 

Impecavelmente, dançou com todas as fadas que dispunham a dançar com ele, sejam machos ou fêmeas. Seus pés suaves deslizaram pelo salão sem fazer barulho, e sua cintura parecia ter vida própria. Até as fadas que não sabiam dançar dançavam maravilhosamente bem com ele. Era o poder de suas sapatilhas feitas de fibra de vidro de igreja e do chifre e do couro do unicórnio: ela fazia com que os movimentos de seu corpo pudessem ser controlados com mais facilidade, quase que um estímulo às suas sinapses.

E foi assim que novamente chamou a atenção de todas as fadas.

Continuou na festa, dançou, comeu, mas não bebeu. O álcool iria enebriar seus pensamentos e atrapalhar seus planos.

Quando chegou a hora da competição de canto, também surpreendeu a todos com sua bela voz e timbre afinado. Mais uma vez um truque: havia gravado o canto de um pássaro Rocca com um dispositivo, e ativado ele em seu terno, fazendo apenas a atuação de como estivesse cantando por conta própria.

E foi assim que passou a noite, até que chegou à hora da decisão: três da madrugada.

Os pretendentes se alinharam em forma de “U” na frente de Aurora, que detinha um sorriso satisfeito.

— Muito bom, minhas fadas, vocês foram excelentes. A beleza de seus talentos ficará para sempre incrustada na memória de todos que estão aqui. Mas agora só um de vocês será escolhido por mim como digno de ser meu marido.

Havia tensão no ar… todos, exceto Tonitro, estavam apreensivos com o resultado. E então Aurora continuou:

— E então anuncio a vocês meu escolhido: aquele que se destacou em todas competições, chegue mais perto, fada da máscara negra, e conte-nos seu nome.

Tonitro se empertigou, já esperava por isso. Pomposamente, desfilou em meio aos aplausos e burburinhos de inveja que ecoavam no salão.

Agradecendo os aplausos, fez uma reverência à multidão, e se ajoelhou perante a rainha, beijando-lhe uma das mãos levemente.

Ouviu algumas fadas suspirarem perante ao seu gesto, e sorriu.

— Minha digníssima e bela Aurora, minha rainha e pretendente, tenho o prazer de me apresentar oficialmente: meu nome é tonitro.

— Tonitro? Um nome incomum para uma fada, de onde é, Tonitro? – a rainha ergueu uma das sobrancelhas, em surpresa.

— Antes que diga, poderia dizer algumas palavras?

— À vontade, dê seu discurso.

— Antes de mais nada – disse, voltando-se para a multidão – gostaria de relembrar o quanto a sociedade das fadas é uma sociedade que valoriza a beleza e o status, e deixar minha solidariedade à quem nasceu feio.

Todos riram.

— Mas não posso fazer nada, alguns nasceram para a grandeza, outros não. Certo?

Murmúrios de aprovação em todos os cantos.

— Dito isso, acredito ser mais bonito que todos aqui.

Dessa vez teve um silêncio constrangedor, todos olharam nervosamente para a rainha, que estava impassível.

— Não pela aparência, talvez, mas me julgo muito mais belo internamente que vocês, suas criaturas podres e mesquinhas! – as últimas palavras foram ditas em alto tom, vociferando. O que assustou os mais próximos.

Estava todo mundo em silêncio, tenso com o que estava acontecendo.

— Me escolheram como o mais digno. É bem curioso isso, afinal, nunca olharam para mim antes… mas agora vão gravar minha imagem em suas mentes podres! – retirou a máscara e a arremessou ao chão, que espatifou em pedaços. As suas asas também se descolaram de suas vestes.

Olhou para o rosto surpreso de todos presentes, que processavam o acontecido. Orgulhosamente se deleitou de sua surpresa, até que um barulho inesperado o tirou de seu torpor megalomaníaco:

Era o barulho de risadas.

O primeiro a rir foi um nobre fada que estava servindo as bebidas. As outras se contagiaram e começaram a rir também, apontando para a rainha e para Tonitro e caindo na gargalhada.

— A rainha vai casar com a aberração!  – diziam, rindo e segurando o abdômen.

A rainha, em choque, olhava ao redor desesperada.

— Parem, parem.

Eles se aproximavam e riam, para o horror de Tonitro, não era a reação que esperava.

— Olha lá o monstro, vai fazer filhinhos monstros com a Aurora – riam e apontavam o dedo – vamos vê-los procriar.

Uma fada mais ousada chegou perto da rainha e rasgou-lhe parte do vestido, outra jogou um pedaço de fruta mordida em tonitro. Elas foram se aproximando cada vez mais.

— Parem! Socorro! – Aurora gritava – eu sou sua rainha! Guardas! 

Os guardas não socorreram, estavam ocupados rindo.

Um Elfo chegou perto de Tonitro e deu-lhe um empurrão, fazendo-o cair no chão, atônito.

Uma ninfa fez o mesmo com a rainha, e o resto circundava ambos rindo e lançando comidas.

Sentiu dor quando uma fruta acertou seu cocuruto, mas sentiu ainda mais dor quando uma fada lançou fezes em seu rosto.

Eles estavam descontrolados em sua euforia. A rainha ainda gritava:

— Parem, não sou feia, ele que é! A culpa é dele!

Eles não se importavam, continuavam a despi-la e agredi-la com socos e pontapés. Uma fada próxima arrancou uma parte de seu couro cabeludo com as próprias mãos e saiu rindo.

Tonitro estava no chão, encolhido, enquanto elfos chutavam seu corpo inerte.

“É isso que mereço? Eu só queria… só queria ser admirado” ergueu os olhos sangrentos para a multidão e sentiu muito medo, tanto medo quanto sentiu em toda sua vida pregressa. “É verdade… como poderia imaginar uma reação diferente? Durante toda a minha vida, nunca fui da mesma espécie que eles.”

Mais tarde, nos arredores do castelo, os corpos desmembrados de duas fadas estavam sendo carcomidos por ratos. Ambas extremamente iguais em sua grotesca imagem, e nenhuma exalava qualquer sinal de beleza e encanto.

Ao fundo, seres muito belos se divertiam em volta de uma fogueira, dançando e prendendo em estacas duas cabeças: uma feia e uma bela.

Golpe na Estrada

Fannách voava acima da floresta de Lornwood, embora ele não saiba que floresta era essa. Como tinha recém saído do Mundo das Fadas, não sabia nada da geografia ou cartografia do Mundo Terreno, e na sua bolsa de couro de Üllok das Estepes, trazia suprimentos e alguns artefatos mágicos, mas nenhum mapa.O lar dos Homens não era de todo estranho para ele, afinal, ele nascera alí. 

Decidiu parar um pouco para descansar, suas asas estavam doloridas e sua barriga roncava, era hora de, no mínimo, fazer um lanche.

Sentou-se em uma clareira pequena na floresta e com um encantamento rápido, botou fogo em uma pilha de galhos secos, a única fonte de luz que iluminava o denso ambiente florestal, cuja copa das árvores praticamente impedia a penetração da luz da lua e das estrelas.

Suspirou, estava feliz, sentia o cheiro da natureza, o fluxo de mana estava agradável aquela noite, como se fosse a visão de um mar sem ondas: límpido e translúcido. 

Ouvia o farfalhar das plantas, a respiração dos animais noturnos, e, acima de tudo, sentia-os como parte de si.

A habilidade de ver e redirecionar fluxos de mana era incomum até mesmo para as fadas, mas para um humano? Mais ainda, não existem registros que sustentem que uma pessoa dessas realmente existiu no passado.

Mas Fannách é um humano, ou ao menos era… Para resumir, ele era uma criança verde: fora raptado ainda recém nascido por fadas e foi criado lá, em Avalon.

Ele realmente não ligava para isso, não é como se estivesse destinado a uma vida incrível, as fadas lhe fizeram um favor de deixá-lo determinar seu próprio destino: ele agora decidia o rumo de sua vida. 

Enquanto comia um pãozinho feito de fibra de salgueiro, trigo e mel (chamado Gëllen), ele sentiu um arrepio correr pela sua espinha.

A mana do local, antes sublime e pacífica, agora estava agitada, como se uma tempestade estivesse vindo

Ele olhou para o “mar” translúcido de mana e viu algo borbulhando nele, bolhas da mais profunda escuridão empesteavam o ambiente, e a temperatura do local parecia ter caído o bastante para causar choque térmico em alguns animais.

Ele sabia o que era isso: a Procissão do Rei Esquecido, um lendário grupo de guerreiros liderados por um Rei de um passado distante, cujo nome a história já se perdeu.

Se tornaram folclore no mundo das Fadas, o Rei e sua comitiva eram temidos até pelos lendários heróis e pelos guerreiros mais valentes.

É dito que quando eles aparecem, nada pode impedí-los de conquistar seu objetivo, nem mesmo um deus.

Mas Fannách não era um dos caras mais sensatos no mundo das fadas, assim que se recuperou do susto, mostrou um enorme sorriso.

— Vou aloprar eles – uma risadinha passou pelos seus lábios.

Engoliu o resto de seu lanche e levantou voo, procurando a tão famosa comitiva.

Não precisou se esforçar, só seguiu o fluxo de mana corrompido, e lá estava: 12 espectros translúcidos em seus cavalos negros, mais um espectro que cavalgava à frente, com uma coroa de cobre repleta de joias em sua cabeça. 

“Aposto que nem me perceberam”  pensou Fannách com um tom sarcástico “são tão confiantes e cheios de si que não acham que terão conflitos em sua jornada” voou um pouco mais longe, ao céu “sorte que o bom companheiro Fannách está aqui para ajudá-los”.

Fez um pequeno encantamento ilusório, imperceptível a eles, que nem se preocupariam em tentar perceber algo além, e então pousou na frente da comitiva com graça de um nobre estendendo a mão para os transeuntes espectrais:

— Alto lá!!! – fez a cara mais séria que pôde e firmou os pés, bloqueando passagem.

O Rei Esquecido levantou a mão para seus oficiais pararem, ele parecia mais intrigado que intimidado. “Mordeu a isca” pensou Fannách. 

— Quem sóis vós? – a voz do espectro, fria e arrastada ecoou em sua mente.

— Sou o guardião desta floresta – disse, batendo uma continência exagerada – Você tem as credenciais?

Os cavaleiros entreolharam-se por alguns instantes e caíram na gargalhada, mas o Rei continuou com um olhar sério.

— Afaste-se garoto, não ouse interromper meu caminho.

— Sem problemas, só peço que me entregue as credenciais – disse com uma voz mais firme.

O espectro na frente decidiu que não estava mais afim de perder o tempo, e seguiu com seu cavalo na direção de Fannách. 

Mas o cavalo, curiosamente, relincha e se recusa a passar.

— Mas que? – ele olha para o cavalo forjado nas chamas do inferno e percebe que ele está com medo.

Olha novamente para Fannách ( que sorria internamente ao realizar que enfeitiçar os cavalos com uma magia de grau menor havia dado certo).

O antigo rei não sabia, mas na visão de seu cavalo, eles estavam à beira de um precipício.

— Você… como fez isso? – olhou enfurecidamente curioso para Fannách.

— Apenas peço suas credenciais. 

O Rei Esquecido suspira e decide jogar o jogo de Fannách:

— Que seria isso?

— A prova que você existe, tem que ter um documento provando que você existe.

— Ousa dizer que não existo? – o Rei sibila. 

— Sem documento, não tenho como saber.

O rei pensou em simplesmente matar Fannách e continuar caminho, mas algo em suas palavras o fizeram pensar: “preciso provar que existo”.

— Por acaso – disse, contendo sua fúria – como posso achar esse documento.

Fannách quase ri alto quando o Rei disse isso.

— Posso fazer um para você – ele pisca – só preciso de seu nome e uma declaração de alguém que te conheça e testemunhe por você.

Enquanto dizia essas palavras, fez mais um encantamento bem sutil no ar, um de confusão espacial.

O Rei Esquecido ficou em silêncio por alguns instantes enquanto Fannách puxava um papel em branco e entregava a ele.

O espectro olhou por um tempo para o papel, sem saber exatamente o que fazer.

— Pode escrever seu nome – Fannách disse, gentilmente – assine aqui – apontou para um risco no papel – aqui e aqui também.

— Eu… – a voz do espectro ressoou nos seus ouvidos.

— Que foi? Precisa de uma pena para escrever?

— Não lembro meu nome.

Silêncio sepulcral tomou conta da floresta, os próprios cavaleiros espectrais ficaram tensos.

— Então você não existe – suspirou Fannách – tudo que existe tem um nome.

Os cavaleiros se mexeram desconfortáveis, enquanto o Rei se mantinha calado.

— Mas não se preocupe, tenho uma solução para você: precisa achar 50 pessoas que te testemunharam e viram você fazer qualquer coisa, e reunir a assinatura delas.

— Ou eu posso simplesmente matá-lo e fingir que nada aconteceu – Disse o espectro, fazendo os cavaleiros atrás concordarem.

— Claro que pode, mas não vai provar que você existe – disse sem pestanejar – mas tenho uma solução para você, se quiser recorrer, só ir no nosso setor de reclamações à 500 metros a leste – puxou mais um objeto da mochila enquanto fazia um encantamento rápido – só usar essa identificação.

— Se eu fizer isso, você me deixa em paz?

— Obviamente 

O rei olha para o “identificador”: era um simples chapéu com uma marcação escrita.

Ele lentamente retira a coroa e entrega para um de seus cavaleiros, vestindo o chapéu. Vira seu cavalo para leste e segue sem dizer nada.

Ao ver todos eles afastando, rapidamente faz um feitiço para disfarçar sua aparência e levanta voo, parando exatamente no lugar onde disse que o setor estaria.

Antes que chegassem, criou um pequeno balcão feito de vinhas e uma cadeira no meio da floresta, se sentando e colocando um cachimbo na boca.

Alguns minutos depois, a comitiva chega ao local, o Rei com o estúpido chapéu escrito “otário” em linguagem faérica e seus 12 seguidores igualmente idiotas.

— Não precissar dizer nada dotô, meu irmãzinho já me passou o bilete – não sabia por que forçou um sotaque, mas isso não tornava a história menos engraçada.

Deu um trago no cachimbo e pediu para o Rei se aproximar, usando mais um encantamento de confusão, fez o cavaleiro que estava com a coroa entregá-la para seu suserano.

Já estava exausto, usou muitos encantamentos no dia, mas valeria a pena, falta só mais um e ele conseguiria derrotar a Procissão do Rei.

— Toma aqui seu permissón e pode me entregar esta chapé para eu aqui. 

O rei assim o fez, pegou o documento e retirou o que estava na sua cabeça para entregar à Fannách. 

Prontinha, agorra está provado que o dotô existe. Pode passar.

Sem dizer nada, o rei coloca na cabeça a coroa e segue caminho.

Fannách ri sozinho por um tempo e observa o que roubara do rei. Mas era hora de escapar, uma hora ele vai perceber a troca, e vai vir atrás dele.

Mais a frente, na estrada, muitas testemunhas viram o Rei Esquecido passar com um chapéu escrito em feérico: “otário”.

E mil anos depois, sua coroa de bronze foi encontrada em um barranco, enterrada com uma nota: “favor entregar ao dotô”.

Quarto 1609

O barulho das rodas do carro estava ressoando nos seus ouvidos como uma sinfonia pouco convidativa, não gostava do asfalto. O conceito em si de algo que se liquefazia e solidificava em meio-ar para que pudéssemos pisar e locomover em cima lhe era estranho. Como se o líquido formado anteriormente por seres vivos únicos e majestosos hoje apenas servisse como uma base para que pudéssemos explorar e desprezar, sem que nunca se pudesse lhe dar o verdadeiro valor.

De todo modo, duvidava que seu sentimento fosse compartilhado com o taxista que o levava ao hotel que abriu na região. Tinha um nome deveras espalhafatoso: Hotel Fantástico, e parecia ser um local aconchegante, mas o que lhe interessava lá não era o aconchego e luxo, e sim a localização. 

Estava lendo um livro digital qualquer que comprou na promoção. Era de um autor italiano do século XIX, havia esquecido seu nome, mas uma frase parecia ressoar em sua cabeça como as próprias vibrações da estrada: “O amor, para ser perfeito, devia ser como o rotífero: morrer num raio de sol, renascer numa gota de orvalho”.

Era isso que ele buscava naquele quarto de hotel, renascimento. E finalmente havia descoberto como fazer isso…

— Sir Crowley? Parece que a avenida está bloqueada pela PRF, vou pegar um desvio lateral, está tudo bem? Você disse que estava com pressa para um compromisso, não é?

Crowley… o nome de um ocultista famoso, era o nome que dera ao taxista para evitar usar seu nome de nascença. Mal sabia o pobre trabalhador que a polícia rodoviária estava fechando a avenida para pegá-lo.

Quanto ao compromisso, disse-lhe que era um contador. De certa forma era verdade, trabalhava com números também, mas não da forma que imaginava o funcionário público.

— Pode fazer como quiser, Mathias, o importante é chegar no hotel – respondeu com um sorriso despreocupado, afinal, após aquela noite, tudo estaria resolvido.

Não demoraram muito para chegar ao referido hotel. A estrutura era legal, tinha umas decorações festivas, com dragões, elfos, goblins e seja lá o que mais forem essas coisas de literatura fantástica que os comuns gostavam de cultuar.

Não prestou tanta atenção assim, mas tinha algo que o encucava: o número de seu quarto era auspicioso, 1609…

16 era o número da perfeição física, o quadrado do número 4, o auge da força material, e também significava a queda pela arrogância. Lembrava a ele da história da torre de Babel.

0 era o vazio, aquilo que existia antes da criação, antes da gênese, e antes do próprio universo, a ausência do essencial.

Mas o 9… o nove era um número que voltava sempre a ele, era o número da ressurreição, um número que demonstrava que podíamos voltar para tentarmos sempre, e isso o deixava esperançoso. Como se o próprio número de seu quarto contasse sua história: ele atingiu o auge de poder no passado, devido à sua arrogância ele caíra, passou tanto tempo no limbo, perdido. E agora… ele iria renascer, mas não só ele.

Agradeceu ao taxista e pegou sua mochila preta que estava no porta malas do carro. A viagem já havia sido paga previamente, então ele já se dirigiu ao saguão. 

Novamente, deu o nome falso assim como os documentos falsos para a recepcionista de olhar perdido e distante que acabou de tirar os olhos de suas redes sociais para atendê-lo:

— William Crowley? Quarto 1609, certo? Está aqui sua chave, tenha uma ótima noite senhor, espero que aproveite nosso hotel – ela repetiu monotonamente o discurso programado em sua mente e voltou a olhar para seu smartphone. 

“William” pegou sua chave e sua mala e se dirigiu ao elevador, dividindo-o com um senhor pálido de trajes escuros e com óculos de sol.

Sem trocarem uma única palavra, se separaram no primeiro andar, o andar de “William”, e o rapaz encontrou seu quarto ao final do corredor, à esquerda.

Foi então que William deixou de ser William e voltou a ser Fernando Baptista Júnior, o homem mais procurado do Brasil. Era naquele dia que teria sua namorada de volta, mesmo com todo mundo dizendo que ele a havia matado.

Trancou o quarto e começou a se preparar: faltavam mais de 2 horas para as 22:00, então havia tempo para que o ritual de evocação começasse.

Pegou a bolsa preta que trazia consigo e retirou de lá seus 5 catalisadores: um ovo de ferro banhado em cobre e prata; uma adaga enferrujada com inscrições em azul; um conjunto de dados de 100 lados cobertos de sangue seco; uma aliança de ouro partida ao meio e o crânio limpo e empalhado de um corvo.

Usando uma bússola, mediu o norte, e usando-o como ponto de referência, colocou o primeiro catalisador na ponta boreal, e os outros quatro de modo que se formassem 5 pontos equidistantes entre si. Com um giz, desenhou entre eles as linhas de um pentagrama.

Após isso, com uma faca cerimonial, foi repetindo as palavras que aprendera naquele dia.

Isso durou até às 22:00 em ponto, quando finalmente abriu os olhos e viu a criatura enevoada à sua frente.

Antes que qualquer coisa acontecesse, ele bradou:

— Guardião das correntes, prostre-se

E foi assim que grilhões da mais profunda escuridão prenderam e moldaram a forma da criatura, que aparecia claramente em sua frente sob a forma de uma criança de cabelos loiros bagunçados, cachecol, olhar maroto e roupas claras. Conhecia aquela forma, era o pequeno príncipe de Saint-Exupéry.

A criatura tomava várias formas, de acordo com o que o contratante imaginava ver. Era um mistério ainda qual o padrão de formas tomadas por “Aquele que Regride”, mas em toda a literatura, poucos bruxos haviam conseguido domá-lo sem sequelas.

— Está pronto para o procedimento, meu amo? – a voz da criança saiu distorcida em lábios fantasmagóricos, mas ainda era doce.

— Estou – respondeu simples, sem firulas.

— Não temos muito tempo, então começaremos com o primeiro trauma: o nascimento.

O ovo de ferro se levanta em meio-ar e se aproxima de Fernando. 

Esse trauma ele já esperava superar. De fato, era correto dizer que já havia superado o fato de ter sido trazido ao mundo contra sua própria vontade, de ser forçado a tomar suas escolhas, a sofrer por elas e morrer por elas. Então o ovo nem mesmo chegou a se iluminar quando o brilho já havia se apagado, não há como lamentar o nascimento de um homem que já morreu há muito tempo.

Então o primeiro desafio foi cumprido.

— Muito bem, iremos para o próximo… – “Aquele que regride” passou para o próximo item: A adaga quebrada.

A paisagem do então hotel luxuoso e repleto de desenhos fantásticos se altera e Fernando se vê na rua de sua infância, com seu amigo Felipe.

Eles não sabiam naquela época, mas era a última vez em que se veriam.

Os pais de Felipe iam se mudar para a fronteira, sua mãe era oficial do exército, e Fernando nunca lhe disse adeus, para o seu primeiro amigo, o primeiro que lhe acolheu em toda sua vida.

Foi uma surpresa, havia reprimido aquela memória… mas ainda sim teve forças para continuar.

Abraçou as lembranças do amigo com força e as deixou ir dessa vez, se despedindo e não mais as guardando no fundo de sua alma.

O brilho da adaga se apaga, era o brilho da “falha”, da virilidade perdida por meio do problema em se comunicar. E também cai ao chão.

Em seguida, os dados com sangue seco se aproximam.

“O acidente”

Aquilo que muitos temem, mas poucos sabem como evitar. E menos ainda sabem que não se há como evitar: o medo da aleatoriedade do sofrimento, de que tudo pode dar errado a qualquer momento e nem sempre a culpa é sua. 

Foi aquela vez que bateu o carro após o descuido de um motorista bêbado, havia quebrado algumas costelas e ficou manco, os dados que carregava em seu bolso para uma partida de RPG ficaram cobertos pelo seu próprio sangue.

Mas nada disso importava hoje, não tinha mais medo do acaso, ele era poderoso o suficiente para controlá-lo. Então o brilho dos dados se apagaram. Olhou para a criatura: não era mais o pequeno príncipe, era uma fera que babava e consumia seu desespero, um ser peludo e monstruoso, a cada vez que ele ganhava, a criatura também ganhava, mas no final, ele iria prevalecer.

A aliança partida começa a brilhar desta vez: Vitória, sua ex-mulher, havia o traído. A única pessoa que confiava naquela vida estava traindo-o com o seu próprio pai que abusou dele.

Aquilo foi o suficiente para fazê-lo cair em uma espiral de loucura e autossabotagem, quase se matou naquele ano. Mas ainda sim… tinha luz no fim do túnel, essa luz…

A lembrança dessa luz, a possibilidade de vê-la novamente o fez enfrentar esse trauma mais uma vez. A fera parecia decepcionada, mas sabia que o próximo trauma iria fazê-lo fraquejar.

A caveira de um corvo… “A Morte”.

Gabriela, sua namorada, a luz no fim do túnel. Aquela que a salvou de seu passado, e morreu devido ao seu erro. Ele havia tentado esse ritual uma vez antes, iria transformá-los em imortais para se amarem para sempre, mas… Lágrimas saíram de seus olhos. “A arrogância traz a queda” ele estava preparado?

A fera avança, as cortinas se fecham.

Epílogo:

Lis é o nome dessa ave, é o que sobrou naquele quarto de hotel.

“Aquele que Regride” estava morto, era seu ódio acumulado, tudo que sofrera.

Aquilo era a ressurreição que queria? Ele queria ressuscitar ela… queria a Gabriela.

Mas agora ele era Lis.

Voou pela janela.

E observando todos caminhando calmamente nas ruas, vários metros abaixo dele, Lis se irrompeu em chamas azuis, e, assim como todo seu rancor, se foi para sempre. Foi morar puro no alto, talvez, só talvez, ao lado dela.

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O Mago do Deserto

O MAGO DO DESERTO

A areia incomodava seus olhos, arranhava sua íris azulada e grudava em sua pele suada. O poço de água estava a apenas cinco quilômetros do monastério, mas sair em meio ao deserto era cansativo para a criança. Mas seu mestre estava com sede, não havia muito o que fazer se não ir buscar a água ele mesmo.

Voltou para os limites do monastério cansado, mas com um balde de água fresca em mãos. Quando adentrou as paredes de mármore branco sagradas, percebeu que Holt estava esperando por ele, abanando o rabo e com a língua para fora. Não era fácil domesticar um chacal, eram animais astutos, mas tímidos e retraídos, não confiavam em humanos, mas Perl tinha certeza que Holt havia se aproximado deles por causa da aura que exalava de seu mestre: era uma aura gentil e acolhedora, comum a poucos magos, visto que em sua maioria eram pessoas despreziveis.

Acariciou as orelhas de Holt, que retribuiu com um latido, e voltou a caminhar por dentre os corredores de mármore do monastério, até que chegou no escritório de seu mestre, o Grande Mago Ja’fal. Ele era um homem alto, com a cabeça completamente lisa, evidenciando a sua falta de cabelo, sua pele cor de oliva já estava desgastada pelo sol e velhice, e ele exibia em sua fronte um cavanhaque branco de respeito, além de um sorriso fácil no olhar.

— Pegou minha água, jovem Perl? – perguntou, já sabendo a resposta.

— Peguei sim – com um arfar de esforço, colocou o balde em cima de uma mesinha lateral, e passou à outra mesa para pegar um copo e servir seu mestre.

Assim que o velho sorveu as últimas gotas de seu copo, ele se levantou em um ímpeto jovial, pouco característico de sua idade. 

— Estava ansioso para mostrar algo para você – disse o velho mago, se apressando pelo corredor – venha! Não fique parado aí!

Após hesitar, surpreso, por alguns segundos, Perl seguiu o mago pelos corredores, imaginando o que havia acontecido com seu mentor para ele agir assim. Holt os seguia abanando o rabo, sem ter a mínima ideia do que estava acontecendo.

Pararam em frente à biblioteca do monastério, a porta dupla de madeira de mogno era pesada, mas mecanismos internos faziam-na abrir quando alguem se aproximava, e isso que ela fez: quando a dupla (e o animal) surgiram na frente dela, ela se abriu mostrando a infinidade de livros que havia lá dentro. Eram várias torres de madeira circulares, com livros das mais diversas áreas, acompanhadas de estantes e mais estantes, um golem de mais de dois metros de altura era o bibliotecário, foi feito por Ja’fal há anos atrás para servir como guardião e facilitador de seu trabalho na biblioteca.

O golem estava arrumando livros na estante quando o mago passou por ele quase correndo.

— Venha Perl, estamos chegando!

Confusa, a criança acompanhou o mago, fazendo um breve aceno para o golem, que estava sem se incomodar com a situação.

O mago parou em frente à uma das torres de livros, e deslizou o dedo pela madeira da estrutura por um breve momento, achou o que estava procurando quando um barulho de clique pôde ser ouvido e mecanismos começaram a serem ouvidos. Enquanto o barulho de engrenagens e polias ressoava em seus ouvidos, uma parede se abria no fundo da biblioteca, revelando uma escadaria que descia em um corredor pouco iluminado por lamparinas azuis.

— Há quanto tempo isso existe? – perguntou Perl, impressionado.

— Desde antes de você aparecer aqui no monastério – ele fez uma pausa enquanto descia a escadaria – eu estou trabalhando nessa magia há um tempão, mas só ontem consegui realizá-la.

— Que magia?

O mago olhou para trás e sorriu.

— Você vai ver…

Enquanto desciam pela grande escadaria que Perl nem sequer imaginava que existia, o velho mago lhe perguntou:

— Você leu o livro que eu lhe dei? “A Breve História da Magia”?

Perl hesitou.

— Li o começo…

— Então não deve ter chegado na parte importante… – resmungou – depois abra no capítulo 17, “O Paradoxo da Mana” e terá mais conhecimento sobre o assunto.

— Do que está falando?

— Estou falando que a Mana neste mundo pode vir a acabar um dia – esperou as palavras pesarem no ombro do rapaz – magia, Perl, é realizada com a energia que conhecemos como Mana, quando utilizamos magia, um pouco da Mana se acaba, pois quando construímos algo com magia, parte da mana fica cristalizada no constructo mágico.

Perl quase sentiu a cabeça girar com tanta informação.

— Em resumo, significa que a magia um dia deixará de existir.

— Mas isso seria um desastre! – retrucou Perl.

O velho mago sorriu.

— E é por isso… – fez uma pausa dramática e abriu os braços, ao mesmo tempo que chegavam ao final da escadaria – que eu vou revolucionar esse mundo!

Assim como uma criança com um brinquedo novo, talvez até ainda mais animado que isso, ele saltitou no chão firme e um pouco úmido do subterrâneo e passou a ativar umas alavancas que se destacavam no escuro. Quando ele as ativou, o teto abobadado do subterrâneo pareceu se iluminar em uma explosão de cores, e diversos pontos luminosos foram surgindo no firmamento como se fossem…

— São estrelas – Perl murmurou – que lindo!

O velho mago assentiu, satisfeito, e passou a girar um mecanismo parecido com uma manivela que estava em uma das paredes. Quando ele fez isso, as estrelas começaram a girar também e se organizaram em forma de espiral, com seus brilhos inconstantes fazendo um show de luzes na sala subterrânea.

— É com esse equipamento que irei revolucionar o mundo da magia – disse o velho mago – Usei de várias áreas da magia para fazer isso: Abjuração, conjuração, astrologia e até necromancia. 

— Como funciona? E o que faz?

—  Quando eu era bem mais jovem, eu descobri que representações de algo podem conter parte da mana da coisa original. Como exemplo, um quadro de um mago poderoso pode conter parte da mana do mago – continuou tagarelando – mas isso me levou à uma dúvida: se alguém me pintar várias vezes, vou perder parte da minha mana?

— Acho que não, não faz sentido.

— Exato, foi ai que descobri que a arte cria mana, é como se quando algo fosse criado, a mana fosse criada junta! Mas nunca era o suficiente. A mana criada com uma peça de arte era ínfima se comparada à mana do objeto original. E então a solução que arrumei para isso foi retratar em arte uma coisa que possuísse muita mana: um sistema solar inteiro!

— E foi assim que conseguiu mais mana?

— Não… – sorriu.

— Não deu certo?

— O quadro de um sistema solar não foi o suficiente nem para angariar mana o suficiente para fazer uma magia de primeiro círculo! – resmungou – nesse momento eu quase desisti, mas aí vieram meus conhecimentos de necromancia.

Aproximou-se do jovem.

— Necromancia consiste em conectar sua mana com a mana do mundo dos mortos, porque eu não faria isso com o cosmos? Eu só precisaria conectar minha mana com algo no espaço. Mas a pergunta se mantém… como eu faria isso?

Antes que Perl pudesse responder, ele continuou:

— Magia de conjuração, eu poderia conjurar um aspecto das estrelas aqui no meu escritório, só precisaria estar em contato visual com elas. Daí veio minha ideia de conectar tudo com arte, fiz esse observatório de estrelas, memorizei a posição de cada uma e repliquei aqui no interior do monastério. Depois, conjurei a essência do cosmos usando minha própria mana e cortei o acesso à mana exterior com uma magia de Abjuração, para testar o resultado.

— E qual foi o resultado?

— A mana produzida é o suficiente para sustentar a academia aérea de magia no ar por um ano, e consegui isso em um dia – seus olhos brilhavam – é um torrencial de mana!

Perl estava impressionado, não tanto quanto o seu mestre esperava, mas estava bem impressionado. Mas ainda restava uma dúvida:

— E o que vamos fazer com toda essa mana?

— Distribuir pelo mundo, mas não sei como ainda. Se deixarmos o curso natural tomar conta, a mana acaba se espalhando pelo mundo em algumas centenas de anos, mas não temos todo esse tempo para colher os louros de nosso processo.

— Entendo, e isso fica ativado para sempre? Não vai ter um problema de excesso de mana?

— Ainda não está ativado, a alta densidade da mana no ambiente faria a gente sufocar, ou pior: nos transformaria em quimeras.

— Então quando vamos ligar?

— Vou ligar agora somente para demonstrar o efeito para você, mas temo que vai ficar desligado por um bom tempo, até eu descobrir uma maneira de dissipar toda essa mana.

Ja’fal deu um sorriso enigmático enquanto olhava para Perl, que estava agora mais envolvido pela ideia do que uma torrente de mana poderia representar. O velho mago, com sua energia jovem e olhar cintilante, se preparava para o momento que ele julgava ser o auge de sua longa jornada de experimentos e descobertas.

Com um gesto teatral, ele puxou uma alavanca no painel à sua frente. Instantaneamente, a sala subterrânea foi preenchida com uma luz intensa. As estrelas no céu artificial começaram a brilhar com mais força, formando uma espiral complexa que parecia girar sobre eles como um redemoinho cósmico. Perl ficou momentaneamente cego pela intensidade, mas logo seus olhos se ajustaram e ele pôde ver, surpreso, como as estrelas começaram a dançar, cada uma emitindo raios cintilantes que pareciam tocar a própria essência do universo.

A mana no ambiente crescia, e Perl podia sentir uma leve pressão no ar, como se a própria atmosfera estivesse carregada com algo poderoso, algo que ele ainda não conseguia compreender completamente.

— Eu sei que parece maravilhoso, mas observe com cautela — disse Ja’fal, observando a reação do jovem. — Esta não é a mana de qualquer pessoa. Eu extraí a energia diretamente do tecido cósmico. Aqui não há apenas magia… há um pedaço do próprio universo. Se essa energia não for controlada, pode transformar tudo ao seu redor.

Perl, maravilhado e um pouco temeroso, olhou para as estrelas flutuantes, que agora pareciam estar se aproximando perigosamente. Ele sabia que estava diante de algo imenso, algo que poderia mudar o destino do mundo, mas sentia também que o velho mago estava caminhando em uma linha tênue entre a genialidade e o risco absoluto.

— Mas como você vai controlar algo tão grande, mestre?

Ja’fal sorriu, um sorriso cheio de segredos e promessas.

— Eu não posso controlar o cosmos, Perl, mas posso conectá-lo ao meu próprio corpo. Com isso, a mana passará a fluir através de mim de uma maneira que nunca se dispersará. Vou me tornar uma espécie de ânfora mágica, um recipiente para o poder. Essa energia será contida até eu encontrar a maneira de usá-la em sua totalidade.

De repente, o som de uma estranha vibração cortou o ambiente, e Perl sentiu um arrepio na espinha. As estrelas começaram a brilhar mais intensamente, como se quisessem se libertar da sala subterrânea e invadir o mundo exterior. O ar ficou mais denso, e Perl podia sentir a presença da magia ameaçando sair do controle.

Ja’fal franziu a testa e correu para o painel, tentando puxar de volta a energia. Mas as engrenagens pareciam ter se desgarrado, como se a própria força da mana estivesse fora do alcance do mago.

— Está fugindo do controle… — murmurou Ja’fal.

Perl olhou ao redor, tentando entender o que estava acontecendo. Holt estava inquieto, rosnando e pulando em círculos, aparentemente sentindo a intensidade da mana no ar. A criança sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo, e uma vontade de fugir tomou conta dele.

Ja’fal olhou para Perl com uma intensidade quase mística, como se tivesse alcançado um nível de compreensão que o jovem não podia ainda captar.

— Estamos fazendo história, Perl. Estamos desafiando os limites da magia e da própria existência. O que acontece daqui pra frente pode mudar tudo.

Neste momento, algo estranho aconteceu. As estrelas começaram a desmoronar, não como uma queda, mas como se estivessem se distorcendo, retorcendo o espaço ao seu redor. O céu artificial começou a rachar, e com isso, uma onda de mana pura começou a se derramar pela sala, iluminando cada canto com uma luz cegante.

— Mestre! — Perl gritou, olhando para Ja’fal, que ainda estava em transe, totalmente imerso na experiência de controlar o caos mágico.

De repente, uma voz tenebrosa surgiu de onde menos esperava: 

— Canalize a magia, garoto – era uma voz desconhecida, mas estava saindo da boca canina de Holt.

— Holt?

— Me apossei do corpo mais próximo que pude encontrar, meu verdadeiro nome é – seguiu a dizer vários fonemas incompreensíveis – mas preciso que me escute: se não canalizar a magia agora, um desastre sem precedentes vai acontecer.

Perl entrou em pânico, canalizar a magia? Como? Ainda não era um mago experiente, podia fazer pouca coisa. Sem saber para onde ir e o que fazer, tentou concentrar seu “olho interior” para observar a mana, assim como seu mestre havia lhe ensinado. 

Viu uma torrente tão grande quanto o próprio deserto, uma energia intensa que quase lhe cegava o olhar, sentiu as ondas de mana tocarem sua pele e algo dentro dele mudar, mas não o suficiente para se desesperar. Concentrou seus órgãos mágicos para se tornar, assim como seu mestre, uma ânfora da magia, e começou a absorver a quantidade enorme de mana que descia das estrelas.

Não demorou muito para que percebesse que foi uma tentativa fútil, seu corpo estava repleto de mana até o limite, e nem um pouco do torrencial havia sido diminuido. Mas a voz que saia de Holt lhe encorajou:

— Isso garoto, agora solte a seguinte magia – instruiu o garoto para repetir as palavras que dizia.

Ao fim do encantamento, o ar parecia ter mudado, e o torrencial de mana parecia estar diminuindo. Em poucos minutos, a mana parecia estar se dissipando e penetrando as areias do deserto.

Perl se inquietou, tudo parecia ter dado muito certo, mas no pânico, havia soltado uma magia cujo efeito ele desconhecia.

— O que foi que eu fiz? – perguntou para Holt, que fitava-o com um olhar vazio.

Seja quem for a criatura cósmica que havia se apossado de Holt, já tinha ido embora. Preocupado, olhou para o seu mestre, e ficou desconcertado quando não o viu lá, somente suas roupas estavam largadas no chão, como se ele tivesse evaporado.

Com um calafrio na espinha, percebeu que estava sozinho de novo, e a imensidão do cosmos o fitava, como se esperasse por algo dele. Olhou para cima, as estrelas ainda estavam lá, e finalmente percebeu, com seus sentidos mágicos, o que havia acontecido: seu mestre havia se fundido com o deserto, e a mana havia se espalhado em toda sua extensão, diminuindo a pressão mágica da atmosfera.

Saindo para o lado de fora do monastério, viu que o ar estava mais pesado, e a areia estava brilhando em um tom róseo, e as estrelas… elas formavam um rosto demoníaco.

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