Já seguraram peido na frente de uma gostosa? Pois é, eu já. Irei explicar: era um dia comum em uma semana qualquer no trabalho. Aqueles dias em que parece que toca aquela musiquinha de filler de Naruto em que você sabe que nada de relevante irá acontecer, mas, ao mesmo tempo, tem a esperança de que será entretido. Até porque, bem, é Naruto, e Naruto é legal. Mas eu não sou o Naruto.
Veja bem, eu sou gerente de projetos de uma empresa que vende produtos enlatados para exercício militar de grandes potências.
O que isso tem a ver com a história? Na real, possivelmente nada. Contudo, pode ser que seja um inoportuno Karma que me forçou nessa situação constrangedora, visto que o destino não deve gostar de quem lucra com guerras.
É injusto, eu sei. Queria apenas olhar na cara do destino e dizer para ele: “Moço, eu só trabalho aqui.” Mas não é assim que a banda toca, a sinfonia dessa música do acaso remete a uma flatulência de um homem assalariado de classe média e acima do peso (vulgo eu).
Pois bem, lá estava eu no elevador principal do prédio chique de nossa corporação. O meu escritório fica no 13º andar, entro pelo térreo, como todo dia. Mas essa lata infernal faz uma parada no 5º: neste andar, entra a mulher mais bonita que já vi em toda a minha vida.
Eu poderia descrevê-la até. Mas não tenho o vocabulário. Por acaso solicitarias aos profetas Moisés, Isaías, Ezequiel ou João para descreverem a ti a face de Deus? Embora eles tenham-na descrito — de maneira alegórica — nos textos sagrados, eles apenas limitaram o infinito divino a uma maneira de que vossas mentes mortais pudessem compreendê-la. Dessa mesma maneira, não conseguiria explicar a um peixe, que vive num aquário sujo em um restaurante de beira de estrada próximo ao posto Ipiranga, o que seria o Grande Oceano. Assim eu me sentia ao ver essa mulher: poderia apreciá-la, mas nunca compartilhar ou compreender a sua beleza.
Ela entra no elevador e sorri para mim e para o estagiário que me acompanhava, sorrio de volta, um sorriso amarelo. Havia um motivo para eu temê-la: ainda sou virgem e nunca conversei por muito tempo com uma mulher, não sobre assuntos que não sejam trabalho ou coisas do tipo. A última vez que falei com uma mulher bonita foi quando comprei Cheetos de requeijão, monster branco e aquelas balas fini de bananinha na padaria, e a atendente sorriu para mim. Sabe o que isso quer dizer, né? O perfume dessa deusa me provocava não só desejo, mas também gases.
Tentei manter um rosto neutro enquanto meu esfíncter urrava por atenção. Utilizando todos os meus pontos de chakra espalhados pelo corpo, eu liberto o instinto superior e seguro o peido galopante que se aproximava de meu ânus.
“Acalme-se, são só alguns andares, você vai aguentar”, repito para mim mesmo enquanto a moça pressiona o botão 9 no elevador. Por sorte, não demoraria. Ao menos era o que eu acreditava enquanto observava o visor do elevador mostrar-me os números dos andares.
6º andar: começo a recitar a seleção que ganhou o ouro olímpico em 2016. Neymar, Gabriel Jesus, Douglas Santos…
7º andar: o elevador dá um tremelique e eu consigo liberar um pouco de gás no barulho, esperando para que o cheiro não se espalhe antes da porta abrir.
8º andar: um pouco mais calmo, começo a sorrir para o espelho enquanto grito internamente “hail cu, hail cu”.
9º andar: a gente não chegou nele…
Em um golpe sanguinário do destino, a energia do prédio foi embora, assim como as forças do meu cu. Libero um peido estrondoso o suficiente para fazer a moça ter um leve sobressalto na minha frente.
Para evitar mais constrangimentos, digo:
— Parece que emperrou alguma coisa, que barulhão.
— Pois é… deve ser a correia, ou algo assim
Aparentemente, ela havia acreditado, ou pelo menos, queria que eu achasse que ela havia acreditado. Mas em poucos segundos, eu o senti: um cheiro forte e amedrontador, como o bafo de um dragão, a minha flatulência estava demonstrando que a razão de sua existência era simples, porém cruel: era feder pra caralho.
— Acho que o elevador bateu em um bicho morto aqui do poço — disse, olhando para baixo.
— Sim, sim… deve ser isso — ela desviou o olhar e passou a encarar fixamente a porta.
Eu tinha que fazer algo: puxar um assunto talvez, quem sabe distrair ela do assunto em questão, que era o que acabara de expelir pelo meu sistema gastrointestinal. Mas como puxar assunto com uma mulher?
— O que você acha da Guerra do Irã?
— Perdão? — Deu certo, ela estava entretida.
— Guerra do Irã, ué. Oriente Médio… petróleo… essas coisas.
— Ah… entendo… — ela parecia cautelosa, meu plano era muito arriscado.
— Bom… acredito que os EUA não deveriam ter bombardeado, né? E Israel, também… não sei se gosto de sionistas…
— Olha… parece que a energia está voltando… — ela disse, meio esperançosa, mas ela de fato estava.
— Sim, em breve o elevador volta a andar.
— Que ótimo! — Ela deu uma risadinha nervosa.
Mais alguns segundos de silêncio constrangedor, e eu sabia que precisava falar mais algo, qualquer coisa que tirasse o foco daquele gás primordial que havia saído do meu cu.
— Enfim, não acredito que meu primo se engasgou com uma carambola.
— Com o que?
— Carambola, aquela fruta do cerrado, parece uma estrela.
— Ah, sim…
Finalmente, o elevador voltou a subir, e poucos instantes depois, ela estava no andar dela.
Saiu, dando um “tchau” baixinho e sem graça, e passou a caminhar no corredor. Humberto, o estagiário que estava conosco no elevador, suava frio. Olhei para ele, por algum motivo havia me esquecido de que ele estava ali.
— Senhor, aquela é a filha do seu Osmar, o dono deste prédio — ele disse, arregalando os olhos.
— Que bom! — Fiz uma pausa — espero que ela não tenha percebido que peidei.
Humberto abriu a boca, fechou, e abriu de novo.
— Senhor… ela também peidou. No 7º andar. Quando o elevador tremeu.
Fiz as contas.
Nós dois havíamos usado o mesmo estratagema. Nós dois havíamos culpado o elevador. Nós dois éramos, no fundo, a mesma pessoa, como almas gêmeas.
Humberto mal terminou de falar quando o celular do narrador vibrou. Uma mensagem de número desconhecido, com a foto de perfil dela:
“Haha, eu sei que foi você que peidou primeiro. Meu pai tá procurando um gerente de projetos novo pro escritório de Dubai. Me chama, rs.”
Abaixo, um emoji de estrela — uma carambola.
Ela me desejava. Eu sabia disso agora. Mas nunca respondi. Me demiti no dia seguinte. Mas por que? Você pergunta…
Porque, a rigor, nada disso importa. A empresa vende comida para soldados que vão morrer. O prédio vai ser demolido em 2029 para virar um estacionamento. Eu vou me aposentar sem ter aprendido a falar com mulheres. E o peido, assim como a esperança de um futuro, já se dissipou no ar.
Sim, a piada não foi o peido, foi o absurdismo do destino, como sempre tentei avisar. É desesperançoso.
Ashes to ashes. Gas to gas. We all are going to die.
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