Baile da Aurora

Tonitro nunca tinha visto fadas tão belas antes: suas asas brilhavam em arco íris em meio às ruas e prédios prateados de Avalon, seus olhos eram semelhantes às mais belas pedras preciosas, e o sorriso de cada uma era tão resplandecente quanto as estrelas do céu.

Era uma procissão da rainha das fadas, Aurora, a fada que sucedeu Titania. Todas elas estavam passeando pelas ruas em carruagens flutuantes com diversas criaturas aladas que as acompanhavam. Elas estavam ali com apenas um motivo: divulgar para o reino das fadas o Baile da Aurora, um evento onde as mais belas fadas iriam dançar junto com a rainha.

Era o símbolo maior do glamour das fadas: as cores, as vestimentas… tudo gritava a magia. E foi por isso que novamente o coração de Tonitro se encheu de inveja.

Porque essas fadas viviam na esbórnia e na luxúria quando ele próprio era fruto da iniquidade e da malícia? Da miséria e da fome? Tonitro era uma fada como Aurora, mas ele nunca conhecera fartura, e os dias que teve as melhores refeições da vida foram os dias após a morte de sua irmã, Seidh, que morreu de desnutrição. Com menos uma boca para alimentar, ele conseguiu quase um banquete constituído por duas fatias de pão faerico.

Era comum que outros seres, inclusive humanos, achassem que fadas não se alimentavam, e que eram todos iguais. Mas não era verdade, nem todas as fadas podiam viver de mana pura, como as Tuatha de Danann, a maioria retirava a energia primordial de alimentos.

E quanto à igualdade… digamos que todas as fadas eram iguais, mas algumas fadas eram mais fadas que as outras.

Pixies, brownies, leprechauns, gnomos… todos eles eram considerados fadas de nível médio. Os elfos e as dríades de grau alto, mas Tonitro era um boggart, e boggarts não eram fadas de verdade, ao menos não segundo os demais… boggarts eram feios, e na sociedade das fadas, beleza é poder.

Diziam várias coisas de sua raça: que eram agressivos, que traziam azar, que eram teimosos e desobedientes, mas como mais poderia ser a reação de um oprimido contra um opressor? Depois de tantos anos sendo escravos de seus supostos semelhantes, como não serem agressivos? E por que sua presença causava azar? Por culpa reprimida daqueles que os maltratavam?

Talvez seja, mas foi por isso que Tonitro decidiu estragar de vez o baile da Aurora. Iria mostrar a todos sua hipocrisia e sujar os belos salões de Avalon com seu ódio. 

Ele esperou as semanas passarem para que o dia do baile chegasse. E foi assim que seu ódio se acumulou em seu coração sombrio. 

Nesse ínterim, fez uma fantasia espetacular com suas mãos habilidosas: com glitter artificial e papel feito de trigo feérico, fez um par de asas enormes que poderiam ser colocados em suas costas, que não só refletiam a luz do sol, mas criava a própria luz, com baterias feitas de mana pura. Também fez uma máscara de corvo com onix puro, e maravilhosamente lapidada, que havia roubado das minas em que trabalhava. Ele estava planejando aquilo há anos, e todo dia pegava um pouco das pedras e levava para sua casa. 

Também confeccionou sua roupa de gala utilizando pêlo de unicórnio banhado em sangue de uma ninfa, fazendo uma magia tão poderosa de charme, que qualquer um que olhasse para ele se apaixonaria. E é claro, escondeu o que restou dos corpos do unicórnio e da ninfa bem longe de sua casa.

Vestindo sua fantasia e máscara, rumou para o castelo de Avalon, que era nomeado com o nome do reino.

Olhando a fila de fadas belíssimas e encantadoras na porta, admirou mais uma vez e invejou novamente o privilégio das demais. Sua raiva podia ser mesquinha, egoísta, mas era justificada: no reino das fadas, seu nascimento era tudo, ele nunca teria o status de uma fada superior, não importa quanto tentasse ou merecesse.

Ainda na fila da festa, ouviu o discurso de Aurora, a máscara de corvo disfarçando sua repulsa pelas palavras fúteis da rainha das fadas:

— Que o glorioso dia seja inesquecível, minhas belas fadas – Aurora começou com uma saudação típica – que seja lembrado a todos que aqui, em meu castelo, a elite das fadas está reunida, os seres mais belos de todos os planos estão neste mesmo salão para que seja enfim definido quem será escolhido como meu noivo e próximo rei das fadas. 

Um barulho de aplausos cortou o discurso da rainha.

“Espero que aproveitem: bebam de minha bebida e comam da minha comida. Sejam felizes em meus aposentos e dancem à vontade,  logo mais irei dizer os critérios de julgamento para o concurso. Que os olhos de Dunedin estejam sobre todos vocês!”.

Quando finalmente se pôs às vistas de todos, entrando no salão de danças com confiança, sentiu até a música parar um pouco para que todos o admirassem. Um terno de gala branco e dourado com detalhes em vermelho-sangue, asas que não só refletiam as luzes, mas produziam uma luz púrpura própria, que alternava para cores mais quentes dependendo do ângulo, um corpo esbelto e aparentemente musculoso por detrás das roupas, e uma máscara escura cintilante que parecia ser feita da própria noite. Todos estavam olhando para ele, e todos estavam apaixonados.

Quando a multidão se dispersou, os outros entraram no salão de danças. Era implícito que dançar bem era um requisito para ser o rei das fadas, fadas amavam festas e dançar. E os outros competidores, que estavam intimidados por sua presença, sabiam que a melhor coisa que podiam fazer era serem os melhores dançarinos. E torcer para que ele dançasse mal.

Enquanto as fadas de companhia chegavam para serem os pares de cada competidor, reparou que a maioria formava fila para dançar com ele. Se deleitou de prazer ao imaginar o rosto que fariam quando descobrissem quem ele é por trás da máscara. 

Impecavelmente, dançou com todas as fadas que dispunham a dançar com ele, sejam machos ou fêmeas. Seus pés suaves deslizaram pelo salão sem fazer barulho, e sua cintura parecia ter vida própria. Até as fadas que não sabiam dançar dançavam maravilhosamente bem com ele. Era o poder de suas sapatilhas feitas de fibra de vidro de igreja e do chifre e do couro do unicórnio: ela fazia com que os movimentos de seu corpo pudessem ser controlados com mais facilidade, quase que um estímulo às suas sinapses.

E foi assim que novamente chamou a atenção de todas as fadas.

Continuou na festa, dançou, comeu, mas não bebeu. O álcool iria enebriar seus pensamentos e atrapalhar seus planos.

Quando chegou a hora da competição de canto, também surpreendeu a todos com sua bela voz e timbre afinado. Mais uma vez um truque: havia gravado o canto de um pássaro Rocca com um dispositivo, e ativado ele em seu terno, fazendo apenas a atuação de como estivesse cantando por conta própria.

E foi assim que passou a noite, até que chegou à hora da decisão: três da madrugada.

Os pretendentes se alinharam em forma de “U” na frente de Aurora, que detinha um sorriso satisfeito.

— Muito bom, minhas fadas, vocês foram excelentes. A beleza de seus talentos ficará para sempre incrustada na memória de todos que estão aqui. Mas agora só um de vocês será escolhido por mim como digno de ser meu marido.

Havia tensão no ar… todos, exceto Tonitro, estavam apreensivos com o resultado. E então Aurora continuou:

— E então anuncio a vocês meu escolhido: aquele que se destacou em todas competições, chegue mais perto, fada da máscara negra, e conte-nos seu nome.

Tonitro se empertigou, já esperava por isso. Pomposamente, desfilou em meio aos aplausos e burburinhos de inveja que ecoavam no salão.

Agradecendo os aplausos, fez uma reverência à multidão, e se ajoelhou perante a rainha, beijando-lhe uma das mãos levemente.

Ouviu algumas fadas suspirarem perante ao seu gesto, e sorriu.

— Minha digníssima e bela Aurora, minha rainha e pretendente, tenho o prazer de me apresentar oficialmente: meu nome é tonitro.

— Tonitro? Um nome incomum para uma fada, de onde é, Tonitro? – a rainha ergueu uma das sobrancelhas, em surpresa.

— Antes que diga, poderia dizer algumas palavras?

— À vontade, dê seu discurso.

— Antes de mais nada – disse, voltando-se para a multidão – gostaria de relembrar o quanto a sociedade das fadas é uma sociedade que valoriza a beleza e o status, e deixar minha solidariedade à quem nasceu feio.

Todos riram.

— Mas não posso fazer nada, alguns nasceram para a grandeza, outros não. Certo?

Murmúrios de aprovação em todos os cantos.

— Dito isso, acredito ser mais bonito que todos aqui.

Dessa vez teve um silêncio constrangedor, todos olharam nervosamente para a rainha, que estava impassível.

— Não pela aparência, talvez, mas me julgo muito mais belo internamente que vocês, suas criaturas podres e mesquinhas! – as últimas palavras foram ditas em alto tom, vociferando. O que assustou os mais próximos.

Estava todo mundo em silêncio, tenso com o que estava acontecendo.

— Me escolheram como o mais digno. É bem curioso isso, afinal, nunca olharam para mim antes… mas agora vão gravar minha imagem em suas mentes podres! – retirou a máscara e a arremessou ao chão, que espatifou em pedaços. As suas asas também se descolaram de suas vestes.

Olhou para o rosto surpreso de todos presentes, que processavam o acontecido. Orgulhosamente se deleitou de sua surpresa, até que um barulho inesperado o tirou de seu torpor megalomaníaco:

Era o barulho de risadas.

O primeiro a rir foi um nobre fada que estava servindo as bebidas. As outras se contagiaram e começaram a rir também, apontando para a rainha e para Tonitro e caindo na gargalhada.

— A rainha vai casar com a aberração!  – diziam, rindo e segurando o abdômen.

A rainha, em choque, olhava ao redor desesperada.

— Parem, parem.

Eles se aproximavam e riam, para o horror de Tonitro, não era a reação que esperava.

— Olha lá o monstro, vai fazer filhinhos monstros com a Aurora – riam e apontavam o dedo – vamos vê-los procriar.

Uma fada mais ousada chegou perto da rainha e rasgou-lhe parte do vestido, outra jogou um pedaço de fruta mordida em tonitro. Elas foram se aproximando cada vez mais.

— Parem! Socorro! – Aurora gritava – eu sou sua rainha! Guardas! 

Os guardas não socorreram, estavam ocupados rindo.

Um Elfo chegou perto de Tonitro e deu-lhe um empurrão, fazendo-o cair no chão, atônito.

Uma ninfa fez o mesmo com a rainha, e o resto circundava ambos rindo e lançando comidas.

Sentiu dor quando uma fruta acertou seu cocuruto, mas sentiu ainda mais dor quando uma fada lançou fezes em seu rosto.

Eles estavam descontrolados em sua euforia. A rainha ainda gritava:

— Parem, não sou feia, ele que é! A culpa é dele!

Eles não se importavam, continuavam a despi-la e agredi-la com socos e pontapés. Uma fada próxima arrancou uma parte de seu couro cabeludo com as próprias mãos e saiu rindo.

Tonitro estava no chão, encolhido, enquanto elfos chutavam seu corpo inerte.

“É isso que mereço? Eu só queria… só queria ser admirado” ergueu os olhos sangrentos para a multidão e sentiu muito medo, tanto medo quanto sentiu em toda sua vida pregressa. “É verdade… como poderia imaginar uma reação diferente? Durante toda a minha vida, nunca fui da mesma espécie que eles.”

Mais tarde, nos arredores do castelo, os corpos desmembrados de duas fadas estavam sendo carcomidos por ratos. Ambas extremamente iguais em sua grotesca imagem, e nenhuma exalava qualquer sinal de beleza e encanto.

Ao fundo, seres muito belos se divertiam em volta de uma fogueira, dançando e prendendo em estacas duas cabeças: uma feia e uma bela.

A Piada dessa vez não foi o Peido

Já seguraram peido na frente de uma gostosa? Pois é, eu já. Irei explicar: era um dia comum em uma semana qualquer no trabalho. Aqueles dias em que parece que toca aquela musiquinha de filler de Naruto em que você sabe que nada de relevante irá acontecer, mas, ao mesmo tempo, tem a esperança de que será entretido. Até porque, bem, é Naruto, e Naruto é legal. Mas eu não sou o Naruto.

Veja bem, eu sou gerente de projetos de uma empresa que vende produtos enlatados para exercício militar de grandes potências.

O que isso tem a ver com a história? Na real, possivelmente nada. Contudo, pode ser que seja um inoportuno Karma que me forçou nessa situação constrangedora, visto que o destino não deve gostar de quem lucra com guerras.

É injusto, eu sei. Queria apenas olhar na cara do destino e dizer para ele: “Moço, eu só trabalho aqui.” Mas não é assim que a banda toca, a sinfonia dessa música do acaso remete a uma flatulência de um homem assalariado de classe média e acima do peso (vulgo eu).

Pois bem, lá estava eu no elevador principal do prédio chique de nossa corporação. O meu escritório fica no 13º andar, entro pelo térreo, como todo dia. Mas essa lata infernal faz uma parada no 5º: neste andar, entra a mulher mais bonita que já vi em toda a minha vida.

Eu poderia descrevê-la até. Mas não tenho o vocabulário. Por acaso solicitarias aos profetas Moisés, Isaías, Ezequiel ou João para descreverem a ti a face de Deus? Embora eles tenham-na descrito — de maneira alegórica — nos textos sagrados, eles apenas limitaram o infinito divino a uma maneira de que vossas mentes mortais pudessem compreendê-la. Dessa mesma maneira, não conseguiria explicar a um peixe, que vive num aquário sujo em um restaurante de beira de estrada próximo ao posto Ipiranga, o que seria o Grande Oceano. Assim eu me sentia ao ver essa mulher: poderia apreciá-la, mas nunca compartilhar ou compreender a sua beleza.

Ela entra no elevador e sorri para mim e para o estagiário que me acompanhava, sorrio de volta, um sorriso amarelo. Havia um motivo para eu temê-la: ainda sou virgem e nunca conversei por muito tempo com uma mulher, não sobre assuntos que não sejam trabalho ou coisas do tipo. A última vez que falei com uma mulher bonita foi quando comprei Cheetos de requeijão, monster branco e aquelas balas fini de bananinha na padaria, e a atendente sorriu para mim. Sabe o que isso quer dizer, né? O perfume dessa deusa me provocava não só desejo, mas também gases.

Tentei manter um rosto neutro enquanto meu esfíncter urrava por atenção. Utilizando todos os meus pontos de chakra espalhados pelo corpo, eu liberto o instinto superior e seguro o peido galopante que se aproximava de meu ânus.

“Acalme-se, são só alguns andares, você vai aguentar”, repito para mim mesmo enquanto a moça pressiona o botão 9 no elevador. Por sorte, não demoraria. Ao menos era o que eu acreditava enquanto observava o visor do elevador mostrar-me os números dos andares. 

6º andar: começo a recitar a seleção que ganhou o ouro olímpico em 2016. Neymar, Gabriel Jesus, Douglas Santos…

7º andar: o elevador dá um tremelique e eu consigo liberar um pouco de gás no barulho, esperando para que o cheiro não se espalhe antes da porta abrir.

8º andar: um pouco mais calmo, começo a sorrir para o espelho enquanto grito internamente “hail cu, hail cu”.

9º andar: a gente não chegou nele…

Em um golpe sanguinário do destino, a energia do prédio foi embora, assim como as forças do meu cu. Libero um peido estrondoso o suficiente para fazer a moça ter um leve sobressalto na minha frente.

Para evitar mais constrangimentos, digo:

— Parece que emperrou alguma coisa, que barulhão.

— Pois é… deve ser a correia, ou algo assim

Aparentemente, ela havia acreditado, ou pelo menos, queria que eu achasse que ela havia acreditado. Mas em poucos segundos, eu o senti: um cheiro forte e amedrontador, como o bafo de um dragão, a minha flatulência estava demonstrando que a razão de sua existência era simples, porém cruel: era feder pra caralho.

— Acho que o elevador bateu em um bicho morto aqui do poço — disse, olhando para baixo.

— Sim, sim… deve ser isso — ela desviou o olhar e passou a encarar fixamente a porta.

Eu tinha que fazer algo: puxar um assunto talvez, quem sabe distrair ela do assunto em questão, que era o que acabara de expelir pelo meu sistema gastrointestinal. Mas como puxar assunto com uma mulher? 

— O que você acha da Guerra do Irã?

— Perdão? — Deu certo, ela estava entretida.

— Guerra do Irã, ué. Oriente Médio… petróleo… essas coisas.

— Ah… entendo… — ela parecia cautelosa, meu plano era muito arriscado.

— Bom… acredito que os EUA não deveriam ter bombardeado, né? E Israel, também… não sei se gosto de sionistas…

— Olha… parece que a energia está voltando… — ela disse, meio esperançosa, mas ela de fato estava.

— Sim, em breve o elevador volta a andar.

— Que ótimo! — Ela deu uma risadinha nervosa.

Mais alguns segundos de silêncio constrangedor, e eu sabia que precisava falar mais algo, qualquer coisa que tirasse o foco daquele gás primordial que havia saído do meu cu.

— Enfim, não acredito que meu primo se engasgou com uma carambola.

— Com o que?

— Carambola, aquela fruta do cerrado, parece uma estrela.

— Ah, sim…

Finalmente, o elevador voltou a subir, e poucos instantes depois, ela estava no andar dela.

Saiu, dando um “tchau” baixinho e sem graça, e passou a caminhar no corredor. Humberto, o estagiário que estava conosco no elevador, suava frio. Olhei para ele, por algum motivo havia me esquecido de que ele estava ali.

— Senhor, aquela é a filha do seu Osmar, o dono deste prédio — ele disse, arregalando os olhos.

— Que bom! — Fiz uma pausa — espero que ela não tenha percebido que peidei.

Humberto abriu a boca, fechou, e abriu de novo.

— Senhor… ela também peidou. No 7º andar. Quando o elevador tremeu.

Fiz as contas.

Nós dois havíamos usado o mesmo estratagema. Nós dois havíamos culpado o elevador. Nós dois éramos, no fundo, a mesma pessoa, como almas gêmeas.

Humberto mal terminou de falar quando o celular do narrador vibrou. Uma mensagem de número desconhecido, com a foto de perfil dela:

“Haha, eu sei que foi você que peidou primeiro. Meu pai tá procurando um gerente de projetos novo pro escritório de Dubai. Me chama, rs.”

Abaixo, um emoji de estrela — uma carambola.

Ela me desejava. Eu sabia disso agora. Mas nunca respondi. Me demiti no dia seguinte. Mas por que? Você pergunta…

Porque, a rigor, nada disso importa. A empresa vende comida para soldados que vão morrer. O prédio vai ser demolido em 2029 para virar um estacionamento. Eu vou me aposentar sem ter aprendido a falar com mulheres. E o peido, assim como a esperança de um futuro, já se dissipou no ar.

Sim, a piada não foi o peido, foi o absurdismo do destino, como sempre tentei avisar. É desesperançoso.

Ashes to ashes. Gas to gas. We all are going to die.

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Débito Cármico nas Alturas

Meu pai costumava dizer que “se filho da puta voasse, tu não ia ver nem o céu”. Hoje é um dia em que, ao menos, um filho da puta voaria. Este era eu.

“Mas Camilo, você é realmente um filho da puta?”

Aposto que é isso que você, intrépido e voluptuoso leitor, está se perguntando enquanto lê esse texto. Quem sabe com um sorriso de canto de boca, uma bochecha torcida em julgamento e olhos apertados para ler as palavras em sua tela. Lutando contra a respiração automática desligada.

Bom, eu devolvo a pergunta com um questionamento próprio: “um filho da puta sabe que é filho da puta?”

Provavelmente não. Mas aqui me permito ser um pouco sofista e subverter o conceito de filho da puta. Não, minha mãe não era do job, tampouco eu sou alguém (acredito) execrável ou babaca. Sou filho da puta por um motivo diferente, que irei lhe revelar:

“Eu havia comprado uma passagem de avião para o Piauí sem avisar minha esposa, e isso quase matou uma galera”.

Veja bem, eu tive bons motivos. Mas eu não poderia avisá-la para onde eu realmente estava indo. A Brenda é uma mulher maravilhosa — o amor da minha vida — e, possivelmente, a mulher mais linda que já conheci. Contudo, também é insegura, com baixa autoestima e um ciúme elevado.

Como sou jornalista esportivo, havia dito-lhe que estaria viajando com a empresa para cobrir a final da Champions na Europa, com alguns colegas de trabalho. Como ela não assistia futebol, acreditou. Mas na real, fui visitar minha ex no Piauí.

Antes que me julguem, devo afirmar que isso não é por motivos de traição. A verdade é que não estava indo encontrar a Valéria por motivos sexuais ou emocionais, era algo muito maior.

Cheguei à Teresina às 14h17 de uma quinta-feira (ontem) em que o sol parecia refletir o karma negativo do sofrimento humano.
Valéria morava num bairro chamado Uruguai. O motivo do nome deve significar simplesmente que alguém — em algum momento — havia achado graça em ter um bairro chamado Uruguai no Piauí, e ninguém havia questionado.

Peguei um Uber dirigido por um homem chamado Erivaldo que passou os vinte minutos do trajeto me contando sobre o divórcio dele com uma riqueza de detalhes que eu não havia pedido e não conseguia interromper. Desci do carro sabendo o nome da sogra, o valor da pensão devido e a marca do ventilador que ela havia levado na separação: “Um Arno. Branco. Com três velocidades.” Erivaldo havia dado quatro estrelas para o ventilador. Eu dei 5 para ele, principalmente pela história emocionante.

Valéria abriu a porta. Ficamos nos olhando por, talvez, quatro segundos antes que ela dissesse:

— Você realmente veio pelo maldito pente.

— Vim pelo pente — confirmei.

Ela foi buscar. Não me convidou para entrar. Fiquei na porta inquieto.

O pente voltou nas mãos dela dentro de uma caixinha de madeira que ela havia providenciado. Isso me comoveu um pouco, mas me perturbou muito. Isso significava que ela sabia exatamente onde estava o tempo todo e havia guardado com cuidado. Isso levantava questões sobre a natureza dela que eu não estava preparado para responder.

— Você poderia ter pedido para eu enviar pelos Correios — disse.

— Eu pedi. Três vezes.

— Não salientou a importância.

Ela ter usado a palavra “salientou” provava que ela era realmente professora de português.

— Precisava?

Ela fechou a porta. Não respondeu.

Mas veja bem, caro leitor, verdadeiramente preciso que você entenda o que é esse pente. Não no sentido físico, embora ele seja uma obra prima: quinze dentes perfeitamente espaçados em sândalo vermelho do Tibete, com cerca de dezoito centímetros de comprimento, pesando algo em torno de noventa gramas.

O pente foi feito numa vila chamada Tingri, nos arredores do platô tibetano, por uma família que havia produzido artefatos de madeira ritual por gerações. Teve a superfície polida à mão por um monge chamado Vritra Simardhra que, segundo o homem que me vendeu, havia feito voto de silêncio por onze anos e quebrado-o especificamente apenas para dizer que este objeto estava pronto.

O sândalo vermelho daquele pente específico tem propriedades que a ciência não confirma e que eu não me importo que a ciência não confirme: ele aquece levemente ao contato com o couro cabeludo humano. Não de forma alarmante, não como um objeto com defeito elétrico, mas de maneira reconfortante, como o abraço de uma mãe narcisista e obsessiva.

Eu descobri isso na primeira vez que o usei, num banheiro de hotel em São Paulo, e fiquei parado por quarenta segundos processando se havia enlouquecido ou se havia finalmente, aos trinta e quatro anos, comprado um produto que funcionava.
O vendedor — um mineiro com sotaque forte de Belo Horizontino — havia me dito:

— Uai sô, esse pente aqui não é só um item de higiene não, Zé. O monge fez ele para ser um trem que funciona como “organizador de estados” da roda do Samsara. Tipo assim, é um trem que funciona como um equilibrador cármico que reduz suas dívidas com o universo. É bão demais, sô!

A ideia é que os cabelos humanos funcionam como antenas — receptores e emissores de estado emocional, de intenção, de energia acumulada ao longo do dia. Pentear, nessa tradição, não é só estética, mas também possui valor editorial. Você passa o pente e decide, fio por fio, o que fica e o que vai embora.

Eu havia comprado isso por R$180 porque estava atrasado, com fome, e o vendedor havia dito tudo aquilo com uma convicção que eu não encontrava nem no Edir Macedo, nem no Abel Ferreira. E porque meu couro cabeludo estava num estado que classificaria como avatar do Kali Yuga — que é o ciclo de caos e destruição hindu. Comprei. Usei. Funcionou — no sentido de que meu cabelo ficou melhor, meu humor ficou levemente menos terrível, e eu comecei a acordar cinco minutos mais cedo só para usar o pente antes de qualquer outra coisa, o que é, clinicamente falando, o comportamento de alguém que desenvolveu um vício.

Sem o pente, nesses anos que eu o havia esquecido na casa da minha ex, tentei substitutos: houve um pente de plástico vermelho da farmácia que quebrou na terceira semana e cuja morte foi mais intensa que a do meu primeiro cachorro; um pente de metal que conduzia frio e me lembrava de instrumentos odontológicos; por último, um pincel de cabelo que a Brenda havia deixado no banheiro e que eu havia usado uma vez com compulsão quase maligna e uma culpa desproporcional de usar um objeto alheio. Nada funcionava. Meu couro cabeludo havia voltado ao seu estado natural de discípulo de Kali.

Enfim, o Uber de volta foi com uma motorista chamada Rosângela que não disse uma palavra sequer durante todo o trajeto. Provavelmente foi o ato de misericórdia mais significativo que alguém me ofereceu no ano inteiro. Também dei cinco estrelas.
Uma semana depois, no avião de volta, sentei no 14B, coloquei o pente no bolso da camisa, sobre o peito. Assim, pela primeira vez em meses, senti que as coisas estavam em seus devidos lugares. Ou pelo menos nos lugares que me acostumei. Foi nesse momento que o homem do 14A se virou para mim.
Ele tinha, aproximadamente, sessenta anos, barba branca aparada, óculos de aros dourados, e uma expressão curiosa, de alguém que parecia saber demais e julgar que todos sabiam de menos. Vestia também uma camisa de linho bege com manchas secas de café.

Ele olhou para o meu bolso. Depois olhou para mim. Depois voltou para o bolso novamente.

— Com licença — disse, o português dele parecia ter o sotaque de um brasileiro que mora no exterior. — Isso no seu bolso. Posso perguntar de onde veio?

Tirei a caixinha e abri. O pente estava lá, da mesma maneira de sempre, alheio ao fato de que havia mais de um homem interessado nele (assim como eu em meus tempos de choppada na faculdade).

O homem ficou absolutamente quieto por um intervalo que eu classificaria, tecnicamente, como longo demais para ser confortável.

— Meu nome é Heitor Drummond — disse, finalmente. — Sou professor titular de estudos védicos e hinduísmo comparado na USP. Publiquei quatorze livros sobre reciprocidade cármica. Passei três anos em Varanasi. — Pausa. — Esse pente foi feito em Tingri.

Não era uma pergunta.

— Foi — confirmei.

— Por um monge da família Simardhra.

— O senhor conhece?

— Conheço o trabalho. — Ele fechou os olhos brevemente. — Os Simardhra produzem artefatos de sândalo há sete gerações. A tradição deles é baseada num princípio que, traduzido de forma funcional para o português, seria algo como absorção ativa de karma. O objeto não só organiza, mas coleta. Cada impureza que o pente retira do portador fica retida na madeira. A madeira de sândalo vermelho é particularmente poroso para essa função. É, essencialmente, um repositório.

— Um repositório — repeti.

— De karma negativo acumulado. De tudo que você limpou de si mesmo nos anos em que o usou. E de todo ódio direcionado à você. — Ele olhou para o pente com a expressão de alguém que olha para uma arma carregada numa mesa de jantar de uma reunião de família. — Quanto tempo você tem esse objeto?

— Uns oito anos, acho.

O professor fechou os olhos de novo. Desta vez por mais tempo. Quando abriu, havia algo na expressão dele que eu descreveria, sem exagero, como aceitação profissional.

— Oito anos de karma coletado em sândalo virgem de Tingri. Num couro cabeludo de um… sem ofensa, jornalista esportivo.

— Por que importa a profissão?

— Porque é uma profissão de alta entropia emocional. Raiva, frustração, cinismo esportivo. O pente deve estar… — ele escolheu a palavra com cuidado — saturado de ódio de palmeirenses, flamenguistas e coisas piores.

— Saturado — repeti porque era a única coisa que eu conseguia fazer no momento.

— A tradição Simardhra tem um protocolo para isso. De seis em seis anos, o artefato deve ser purificado num ritual específico conduzido por um sacerdote de Shiva em Varanasi. Caso contrário, o karma acumulado começa a se expressar externamente com alguma intensidade.

Olhei para o pente. O pente ficou quieto, que é o que pentes fazem normalmente.

— Que tipo de intensidade? — perguntei.

O professor Drummond abriu a boca para responder.

Foi quando o avião parou de descer.

Não houve barulho, não houve turbulência, não houve nenhuma das sinalizações que os filmes ensinaram que precedem catástrofe aérea. O avião simplesmente parou de descer. Eram uns dois mil metros de altitude à aproximadamente vinte minutos do aeroporto de Congonhas.

O piloto comunicou pelo interfone com aquela voz específica de piloto que estavam aguardando autorização para a aproximação. Que isso era protocolo padrão e que não havia motivo para preocupação.

Passageiros que viajam com frequência sabem que a frase "não há motivo para preocupação" é, ela própria, um motivo para preocupação.

Vinte minutos depois, o piloto voltou. Ainda com a voz. Pequeno imprevisto operacional no aeroporto. Aguardando instrução do controle de tráfego aéreo. Sem previsão definida.
Quarenta minutos depois, ainda estávamos em órbita sobre São Paulo. Não metaforicamente. Literalmente descrevendo círculos sobre a cidade. E o pior de tudo, era que era São Paulo: não havia qualquer agrado ou senso estético que pudesse nos distrair dessa situação perturbadora.

O professor Drummond havia ficado em silêncio durante todo esse período, com os dedos entrelaçados sobre o colo e a expressão de quem não queria morrer na pior cidade do mundo.

— Professor — disse eu.

— Diga.

— Isso tem alguma relação com o que o senhor estava dizendo?

Ele respirou fundo.

— Não posso afirmar.

— E supor?

Ele olhou pela janela. Lá embaixo, São Paulo girava devagar como um prato que alguém havia esquecido no microondas.

— O karma acumulado em objetos saturados tende a se manifestar primeiro como impedimento. Bloqueio de movimento.

Impossibilidade de chegada. É como se o próprio destino construísse uma parede onde deveria haver um caminho.

— Uma parede — repeti.

— Ou, no caso específico da aviação — ele fez um gesto vago para a janela — um círculo.

A passageira do 17C estava filmando. Eu não a culpo. Às vezes — como bem pude perceber em minha vida pública — a única coisa que você pode fazer quando sabe que pode morrer, é abrir uma live no Instagram.

Ela havia começado filmando a janela: a cidade lá embaixo, o loop melancólico e preciso… Assim, capturou sem querer, a conversa entre mim e o professor Drummond. Não ela toda, mas o suficiente para viralizar.

Alguns minutos depois, a Choquei postou no twitter o vídeo com a legenda: "Professor da USP diz que passageiro com pente amaldiçoado está impedindo avião de pousar — voo preso há 1h sobre SP."

Em vinte minutos tinha trezentos mil visualizações. Mais vinte minutos e a CNN Brasil havia colocado o voo numa janelinha no canto da tela ao vivo.

Por sorte, o avião ainda tinha bastante combustível, poderia rodar por mais algumas horas antes de cair, mas alguns passageiros começaram a ficar agitados:

— É ele. É o cara do pente — disse alguém duas fileiras atrás.
O que é curioso sobre grupos humanos em situações de crise é a velocidade com que elegem um bode expiatório. Às vezes é um estrangeiro ou outra minoria. Às vezes é um político. Às vezes é um jornalista esportivo com um objeto de madeira no bolso.

— Que pente? — perguntou uma senhora com tom sádico no corredor.

— O pente do vídeo! — respondeu o homem. — O professor falou!
O professor Drummond suspirou do meu lado. Parecia que ele já havia passado por isso antes.

— Sugiro que você esconda o objeto — disse ele, em voz baixa.

— Esconder onde? — respondi, igualmente baixo. — Ele já está no bolso.

— Não sei, mas ele vai continuar influenciando seu destino se continuar aqui.

Antes que eu pudesse responder, a mulher do corredor apareceu ao lado do nosso assento. Ela tinha energia de “Karen”, aquelas mulheres brancas e sádicas estadunidenses.

— É você? — perguntou, apontando diretamente para mim.

— Depende…

— O do pente.

— Eu possuo um pente, sim.

— Joga fora.

Direto ao ponto. Admirável.

— Senhora, com todo respeito, não é assim que—

— Joga. Fora. — ela repetiu, agora com uma cadência mais marcada, como se estivesse treinando para um protesto.
Outras vozes começaram a se somar, como um coral improvisado de indignação mal direcionada:

“Se tá causando isso, joga!”; “A gente quer pousar!”; “Pelo amor de Deus, moço!”; “Você vai matar todo mundo por causa de um pente?!”

Essa última frase, em particular, tem um peso que você não espera ouvir na vida adulta.

Olhei para o professor Drummond, numa tentativa silenciosa de obter suporte acadêmico.

— Não há evidência empírica direta de que descartar o objeto resolveria — disse ele, com uma calma que beirava o irresponsável.

— Mas também não há evidência de que não resolveria! — rebateu alguém, o que, filosoficamente, é um argumento bom.

A tensão começou a escalar. Não em nível de violência física ainda, mas de ameaças verbais. Foi nesse momento que meu celular vibrou. Uma mensagem de Brenda.

Abri.

Brenda 💗:
“Camilo.”

Nada de bom começa com o seu nome seco num chat.

Brenda 💗:
“Você quer me explicar por que você está NA CNN?”
Respirei fundo.

Eu:
“Amor, eu posso explicar”

Isso raramente vinha antes de uma explicação satisfatória. Três pontinhos apareceram. Sumiram. Voltaram.

Brenda 💗:
“Você falou que estava na EUROPA.”
“EU-RO-PA, Camilo.”
“Com colegas de trabalho.”

Olhei ao redor. Um senhor me encarava com hostilidade moderada. A mulher do corredor ainda estava ali, como se estivesse querendo que eu abrisse a janela do avião e arremessasse o pente para fora.

Eu:
“Houve uma mudança de última hora”
Mentira fraca. Eu sabia. Ela sabia. O pente sabia.

Brenda 💗:
“Mudança de última hora pra TERESINA?”
“Você acha que eu sou idiota?”
Não respondi. Qualquer resposta possível pioraria a situação.

Brenda 💗:
“Eu vi o vídeo.”
“Eu sei que você foi buscar o maldito pente na casa da sua EX.”

Do meu lado, o professor Drummond cochichou:
— Situação conjugal agravante. Karma relacional costuma potencializar manifestações materiais.
— Talvez morrer apenas uma vez não apague meu Karma, professor — respondi.
O celular vibrou de novo.

Brenda 💗:
“Eu espero que esse avião caia.”

Parei e li de novo.

— Ela não pode estar falando sério.

— Emoções intensas direcionadas ao portador aumentam a carga — disse o professor casualmente enquanto reclinava a poltrona.

— Professor, minha esposa acabou de desejar a minha morte.

— Tecnicamente, ela desejou a queda do avião.

— Comigo dentro.

— Tem como sobreviver — deu de ombros.

Levantei os olhos: os passageiros continuavam me encarando; o avião e a roda do Samsara continuavam girando.

O pente continuava no meu bolso, silencioso, denso, satisfeito com o caos predestinado da situação.

— Professor — disse, com a voz mais baixa que consegui.

— Sim?

— Existe uma maneira de anular karma negativo?

Ele pensou por um segundo.

— Existe.

— E qual é?

Ele olhou para mim com uma sinceridade quase comovente.

— Com um sacrifício.

Do outro lado do corredor, alguém gritou:

— OU VOCÊ JOGA ESSE NEGÓCIO OU EU JOGO VOCÊ!

Era a aeromoça. Soube o que tinha que fazer.

Abri a janela de emergência. Não a porta — a janelinha oval de acrílico que existe, segundo o manual, exclusivamente para que você veja o quanto está alto antes de morrer. Não sei como abri. O manual diz que não abre. Abriu. O vento entrou com a força de uma péssima ideia. E eu pulei um salto de fé— com o pente no bolso do peito, a caixinha de madeira na mão, e a esperança de que algum deus (talvez inexistente) me perdoasse e me salvasse.

Caí mais de dois mil metros sobre São Paulo num estado que o professor Drummond descreveria, mais tarde em entrevista ao Roda Viva, como um meteoro de negatividade. Pousei no asfalto da Marginal Tietê sem um arranhão. Mas não foi nenhum Deus que me salvou, foi simplesmente São Paulo, onde o asfalto já está tão destruído que amortece qualquer impacto. O avião pousou trinta segundos depois.

Meu pai estava certo: filho da puta voa. Só não havia considerado que filho da puta também pousa.



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