Débito Cármico nas Alturas

Meu pai costumava dizer que “se filho da puta voasse, tu não ia ver nem o céu”. Hoje é um dia em que, ao menos, um filho da puta voaria. Este era eu.

“Mas Camilo, você é realmente um filho da puta?”

Aposto que é isso que você, intrépido e voluptuoso leitor, está se perguntando enquanto lê esse texto. Quem sabe com um sorriso de canto de boca, uma bochecha torcida em julgamento e olhos apertados para ler as palavras em sua tela. Lutando contra a respiração automática desligada.

Bom, eu devolvo a pergunta com um questionamento próprio: “um filho da puta sabe que é filho da puta?”

Provavelmente não. Mas aqui me permito ser um pouco sofista e subverter o conceito de filho da puta. Não, minha mãe não era do job, tampouco eu sou alguém (acredito) execrável ou babaca. Sou filho da puta por um motivo diferente, que irei lhe revelar:

“Eu havia comprado uma passagem de avião para o Piauí sem avisar minha esposa, e isso quase matou uma galera”.

Veja bem, eu tive bons motivos. Mas eu não poderia avisá-la para onde eu realmente estava indo. A Brenda é uma mulher maravilhosa — o amor da minha vida — e, possivelmente, a mulher mais linda que já conheci. Contudo, também é insegura, com baixa autoestima e um ciúme elevado.

Como sou jornalista esportivo, havia dito-lhe que estaria viajando com a empresa para cobrir a final da Champions na Europa, com alguns colegas de trabalho. Como ela não assistia futebol, acreditou. Mas na real, fui visitar minha ex no Piauí.

Antes que me julguem, devo afirmar que isso não é por motivos de traição. A verdade é que não estava indo encontrar a Valéria por motivos sexuais ou emocionais, era algo muito maior.

Cheguei à Teresina às 14h17 de uma quinta-feira (ontem) em que o sol parecia refletir o karma negativo do sofrimento humano.
Valéria morava num bairro chamado Uruguai. O motivo do nome deve significar simplesmente que alguém — em algum momento — havia achado graça em ter um bairro chamado Uruguai no Piauí, e ninguém havia questionado.

Peguei um Uber dirigido por um homem chamado Erivaldo que passou os vinte minutos do trajeto me contando sobre o divórcio dele com uma riqueza de detalhes que eu não havia pedido e não conseguia interromper. Desci do carro sabendo o nome da sogra, o valor da pensão devido e a marca do ventilador que ela havia levado na separação: “Um Arno. Branco. Com três velocidades.” Erivaldo havia dado quatro estrelas para o ventilador. Eu dei 5 para ele, principalmente pela história emocionante.

Valéria abriu a porta. Ficamos nos olhando por, talvez, quatro segundos antes que ela dissesse:

— Você realmente veio pelo maldito pente.

— Vim pelo pente — confirmei.

Ela foi buscar. Não me convidou para entrar. Fiquei na porta inquieto.

O pente voltou nas mãos dela dentro de uma caixinha de madeira que ela havia providenciado. Isso me comoveu um pouco, mas me perturbou muito. Isso significava que ela sabia exatamente onde estava o tempo todo e havia guardado com cuidado. Isso levantava questões sobre a natureza dela que eu não estava preparado para responder.

— Você poderia ter pedido para eu enviar pelos Correios — disse.

— Eu pedi. Três vezes.

— Não salientou a importância.

Ela ter usado a palavra “salientou” provava que ela era realmente professora de português.

— Precisava?

Ela fechou a porta. Não respondeu.

Mas veja bem, caro leitor, verdadeiramente preciso que você entenda o que é esse pente. Não no sentido físico, embora ele seja uma obra prima: quinze dentes perfeitamente espaçados em sândalo vermelho do Tibete, com cerca de dezoito centímetros de comprimento, pesando algo em torno de noventa gramas.

O pente foi feito numa vila chamada Tingri, nos arredores do platô tibetano, por uma família que havia produzido artefatos de madeira ritual por gerações. Teve a superfície polida à mão por um monge chamado Vritra Simardhra que, segundo o homem que me vendeu, havia feito voto de silêncio por onze anos e quebrado-o especificamente apenas para dizer que este objeto estava pronto.

O sândalo vermelho daquele pente específico tem propriedades que a ciência não confirma e que eu não me importo que a ciência não confirme: ele aquece levemente ao contato com o couro cabeludo humano. Não de forma alarmante, não como um objeto com defeito elétrico, mas de maneira reconfortante, como o abraço de uma mãe narcisista e obsessiva.

Eu descobri isso na primeira vez que o usei, num banheiro de hotel em São Paulo, e fiquei parado por quarenta segundos processando se havia enlouquecido ou se havia finalmente, aos trinta e quatro anos, comprado um produto que funcionava.
O vendedor — um mineiro com sotaque forte de Belo Horizontino — havia me dito:

— Uai sô, esse pente aqui não é só um item de higiene não, Zé. O monge fez ele para ser um trem que funciona como “organizador de estados” da roda do Samsara. Tipo assim, é um trem que funciona como um equilibrador cármico que reduz suas dívidas com o universo. É bão demais, sô!

A ideia é que os cabelos humanos funcionam como antenas — receptores e emissores de estado emocional, de intenção, de energia acumulada ao longo do dia. Pentear, nessa tradição, não é só estética, mas também possui valor editorial. Você passa o pente e decide, fio por fio, o que fica e o que vai embora.

Eu havia comprado isso por R$180 porque estava atrasado, com fome, e o vendedor havia dito tudo aquilo com uma convicção que eu não encontrava nem no Edir Macedo, nem no Abel Ferreira. E porque meu couro cabeludo estava num estado que classificaria como avatar do Kali Yuga — que é o ciclo de caos e destruição hindu. Comprei. Usei. Funcionou — no sentido de que meu cabelo ficou melhor, meu humor ficou levemente menos terrível, e eu comecei a acordar cinco minutos mais cedo só para usar o pente antes de qualquer outra coisa, o que é, clinicamente falando, o comportamento de alguém que desenvolveu um vício.

Sem o pente, nesses anos que eu o havia esquecido na casa da minha ex, tentei substitutos: houve um pente de plástico vermelho da farmácia que quebrou na terceira semana e cuja morte foi mais intensa que a do meu primeiro cachorro; um pente de metal que conduzia frio e me lembrava de instrumentos odontológicos; por último, um pincel de cabelo que a Brenda havia deixado no banheiro e que eu havia usado uma vez com compulsão quase maligna e uma culpa desproporcional de usar um objeto alheio. Nada funcionava. Meu couro cabeludo havia voltado ao seu estado natural de discípulo de Kali.

Enfim, o Uber de volta foi com uma motorista chamada Rosângela que não disse uma palavra sequer durante todo o trajeto. Provavelmente foi o ato de misericórdia mais significativo que alguém me ofereceu no ano inteiro. Também dei cinco estrelas.
Uma semana depois, no avião de volta, sentei no 14B, coloquei o pente no bolso da camisa, sobre o peito. Assim, pela primeira vez em meses, senti que as coisas estavam em seus devidos lugares. Ou pelo menos nos lugares que me acostumei. Foi nesse momento que o homem do 14A se virou para mim.
Ele tinha, aproximadamente, sessenta anos, barba branca aparada, óculos de aros dourados, e uma expressão curiosa, de alguém que parecia saber demais e julgar que todos sabiam de menos. Vestia também uma camisa de linho bege com manchas secas de café.

Ele olhou para o meu bolso. Depois olhou para mim. Depois voltou para o bolso novamente.

— Com licença — disse, o português dele parecia ter o sotaque de um brasileiro que mora no exterior. — Isso no seu bolso. Posso perguntar de onde veio?

Tirei a caixinha e abri. O pente estava lá, da mesma maneira de sempre, alheio ao fato de que havia mais de um homem interessado nele (assim como eu em meus tempos de choppada na faculdade).

O homem ficou absolutamente quieto por um intervalo que eu classificaria, tecnicamente, como longo demais para ser confortável.

— Meu nome é Heitor Drummond — disse, finalmente. — Sou professor titular de estudos védicos e hinduísmo comparado na USP. Publiquei quatorze livros sobre reciprocidade cármica. Passei três anos em Varanasi. — Pausa. — Esse pente foi feito em Tingri.

Não era uma pergunta.

— Foi — confirmei.

— Por um monge da família Simardhra.

— O senhor conhece?

— Conheço o trabalho. — Ele fechou os olhos brevemente. — Os Simardhra produzem artefatos de sândalo há sete gerações. A tradição deles é baseada num princípio que, traduzido de forma funcional para o português, seria algo como absorção ativa de karma. O objeto não só organiza, mas coleta. Cada impureza que o pente retira do portador fica retida na madeira. A madeira de sândalo vermelho é particularmente poroso para essa função. É, essencialmente, um repositório.

— Um repositório — repeti.

— De karma negativo acumulado. De tudo que você limpou de si mesmo nos anos em que o usou. E de todo ódio direcionado à você. — Ele olhou para o pente com a expressão de alguém que olha para uma arma carregada numa mesa de jantar de uma reunião de família. — Quanto tempo você tem esse objeto?

— Uns oito anos, acho.

O professor fechou os olhos de novo. Desta vez por mais tempo. Quando abriu, havia algo na expressão dele que eu descreveria, sem exagero, como aceitação profissional.

— Oito anos de karma coletado em sândalo virgem de Tingri. Num couro cabeludo de um… sem ofensa, jornalista esportivo.

— Por que importa a profissão?

— Porque é uma profissão de alta entropia emocional. Raiva, frustração, cinismo esportivo. O pente deve estar… — ele escolheu a palavra com cuidado — saturado de ódio de palmeirenses, flamenguistas e coisas piores.

— Saturado — repeti porque era a única coisa que eu conseguia fazer no momento.

— A tradição Simardhra tem um protocolo para isso. De seis em seis anos, o artefato deve ser purificado num ritual específico conduzido por um sacerdote de Shiva em Varanasi. Caso contrário, o karma acumulado começa a se expressar externamente com alguma intensidade.

Olhei para o pente. O pente ficou quieto, que é o que pentes fazem normalmente.

— Que tipo de intensidade? — perguntei.

O professor Drummond abriu a boca para responder.

Foi quando o avião parou de descer.

Não houve barulho, não houve turbulência, não houve nenhuma das sinalizações que os filmes ensinaram que precedem catástrofe aérea. O avião simplesmente parou de descer. Eram uns dois mil metros de altitude à aproximadamente vinte minutos do aeroporto de Congonhas.

O piloto comunicou pelo interfone com aquela voz específica de piloto que estavam aguardando autorização para a aproximação. Que isso era protocolo padrão e que não havia motivo para preocupação.

Passageiros que viajam com frequência sabem que a frase "não há motivo para preocupação" é, ela própria, um motivo para preocupação.

Vinte minutos depois, o piloto voltou. Ainda com a voz. Pequeno imprevisto operacional no aeroporto. Aguardando instrução do controle de tráfego aéreo. Sem previsão definida.
Quarenta minutos depois, ainda estávamos em órbita sobre São Paulo. Não metaforicamente. Literalmente descrevendo círculos sobre a cidade. E o pior de tudo, era que era São Paulo: não havia qualquer agrado ou senso estético que pudesse nos distrair dessa situação perturbadora.

O professor Drummond havia ficado em silêncio durante todo esse período, com os dedos entrelaçados sobre o colo e a expressão de quem não queria morrer na pior cidade do mundo.

— Professor — disse eu.

— Diga.

— Isso tem alguma relação com o que o senhor estava dizendo?

Ele respirou fundo.

— Não posso afirmar.

— E supor?

Ele olhou pela janela. Lá embaixo, São Paulo girava devagar como um prato que alguém havia esquecido no microondas.

— O karma acumulado em objetos saturados tende a se manifestar primeiro como impedimento. Bloqueio de movimento.

Impossibilidade de chegada. É como se o próprio destino construísse uma parede onde deveria haver um caminho.

— Uma parede — repeti.

— Ou, no caso específico da aviação — ele fez um gesto vago para a janela — um círculo.

A passageira do 17C estava filmando. Eu não a culpo. Às vezes — como bem pude perceber em minha vida pública — a única coisa que você pode fazer quando sabe que pode morrer, é abrir uma live no Instagram.

Ela havia começado filmando a janela: a cidade lá embaixo, o loop melancólico e preciso… Assim, capturou sem querer, a conversa entre mim e o professor Drummond. Não ela toda, mas o suficiente para viralizar.

Alguns minutos depois, a Choquei postou no twitter o vídeo com a legenda: "Professor da USP diz que passageiro com pente amaldiçoado está impedindo avião de pousar — voo preso há 1h sobre SP."

Em vinte minutos tinha trezentos mil visualizações. Mais vinte minutos e a CNN Brasil havia colocado o voo numa janelinha no canto da tela ao vivo.

Por sorte, o avião ainda tinha bastante combustível, poderia rodar por mais algumas horas antes de cair, mas alguns passageiros começaram a ficar agitados:

— É ele. É o cara do pente — disse alguém duas fileiras atrás.
O que é curioso sobre grupos humanos em situações de crise é a velocidade com que elegem um bode expiatório. Às vezes é um estrangeiro ou outra minoria. Às vezes é um político. Às vezes é um jornalista esportivo com um objeto de madeira no bolso.

— Que pente? — perguntou uma senhora com tom sádico no corredor.

— O pente do vídeo! — respondeu o homem. — O professor falou!
O professor Drummond suspirou do meu lado. Parecia que ele já havia passado por isso antes.

— Sugiro que você esconda o objeto — disse ele, em voz baixa.

— Esconder onde? — respondi, igualmente baixo. — Ele já está no bolso.

— Não sei, mas ele vai continuar influenciando seu destino se continuar aqui.

Antes que eu pudesse responder, a mulher do corredor apareceu ao lado do nosso assento. Ela tinha energia de “Karen”, aquelas mulheres brancas e sádicas estadunidenses.

— É você? — perguntou, apontando diretamente para mim.

— Depende…

— O do pente.

— Eu possuo um pente, sim.

— Joga fora.

Direto ao ponto. Admirável.

— Senhora, com todo respeito, não é assim que—

— Joga. Fora. — ela repetiu, agora com uma cadência mais marcada, como se estivesse treinando para um protesto.
Outras vozes começaram a se somar, como um coral improvisado de indignação mal direcionada:

“Se tá causando isso, joga!”; “A gente quer pousar!”; “Pelo amor de Deus, moço!”; “Você vai matar todo mundo por causa de um pente?!”

Essa última frase, em particular, tem um peso que você não espera ouvir na vida adulta.

Olhei para o professor Drummond, numa tentativa silenciosa de obter suporte acadêmico.

— Não há evidência empírica direta de que descartar o objeto resolveria — disse ele, com uma calma que beirava o irresponsável.

— Mas também não há evidência de que não resolveria! — rebateu alguém, o que, filosoficamente, é um argumento bom.

A tensão começou a escalar. Não em nível de violência física ainda, mas de ameaças verbais. Foi nesse momento que meu celular vibrou. Uma mensagem de Brenda.

Abri.

Brenda 💗:
“Camilo.”

Nada de bom começa com o seu nome seco num chat.

Brenda 💗:
“Você quer me explicar por que você está NA CNN?”
Respirei fundo.

Eu:
“Amor, eu posso explicar”

Isso raramente vinha antes de uma explicação satisfatória. Três pontinhos apareceram. Sumiram. Voltaram.

Brenda 💗:
“Você falou que estava na EUROPA.”
“EU-RO-PA, Camilo.”
“Com colegas de trabalho.”

Olhei ao redor. Um senhor me encarava com hostilidade moderada. A mulher do corredor ainda estava ali, como se estivesse querendo que eu abrisse a janela do avião e arremessasse o pente para fora.

Eu:
“Houve uma mudança de última hora”
Mentira fraca. Eu sabia. Ela sabia. O pente sabia.

Brenda 💗:
“Mudança de última hora pra TERESINA?”
“Você acha que eu sou idiota?”
Não respondi. Qualquer resposta possível pioraria a situação.

Brenda 💗:
“Eu vi o vídeo.”
“Eu sei que você foi buscar o maldito pente na casa da sua EX.”

Do meu lado, o professor Drummond cochichou:
— Situação conjugal agravante. Karma relacional costuma potencializar manifestações materiais.
— Talvez morrer apenas uma vez não apague meu Karma, professor — respondi.
O celular vibrou de novo.

Brenda 💗:
“Eu espero que esse avião caia.”

Parei e li de novo.

— Ela não pode estar falando sério.

— Emoções intensas direcionadas ao portador aumentam a carga — disse o professor casualmente enquanto reclinava a poltrona.

— Professor, minha esposa acabou de desejar a minha morte.

— Tecnicamente, ela desejou a queda do avião.

— Comigo dentro.

— Tem como sobreviver — deu de ombros.

Levantei os olhos: os passageiros continuavam me encarando; o avião e a roda do Samsara continuavam girando.

O pente continuava no meu bolso, silencioso, denso, satisfeito com o caos predestinado da situação.

— Professor — disse, com a voz mais baixa que consegui.

— Sim?

— Existe uma maneira de anular karma negativo?

Ele pensou por um segundo.

— Existe.

— E qual é?

Ele olhou para mim com uma sinceridade quase comovente.

— Com um sacrifício.

Do outro lado do corredor, alguém gritou:

— OU VOCÊ JOGA ESSE NEGÓCIO OU EU JOGO VOCÊ!

Era a aeromoça. Soube o que tinha que fazer.

Abri a janela de emergência. Não a porta — a janelinha oval de acrílico que existe, segundo o manual, exclusivamente para que você veja o quanto está alto antes de morrer. Não sei como abri. O manual diz que não abre. Abriu. O vento entrou com a força de uma péssima ideia. E eu pulei um salto de fé— com o pente no bolso do peito, a caixinha de madeira na mão, e a esperança de que algum deus (talvez inexistente) me perdoasse e me salvasse.

Caí mais de dois mil metros sobre São Paulo num estado que o professor Drummond descreveria, mais tarde em entrevista ao Roda Viva, como um meteoro de negatividade. Pousei no asfalto da Marginal Tietê sem um arranhão. Mas não foi nenhum Deus que me salvou, foi simplesmente São Paulo, onde o asfalto já está tão destruído que amortece qualquer impacto. O avião pousou trinta segundos depois.

Meu pai estava certo: filho da puta voa. Só não havia considerado que filho da puta também pousa.



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