Baile da Aurora

Tonitro nunca tinha visto fadas tão belas antes: suas asas brilhavam em arco íris em meio às ruas e prédios prateados de Avalon, seus olhos eram semelhantes às mais belas pedras preciosas, e o sorriso de cada uma era tão resplandecente quanto as estrelas do céu.

Era uma procissão da rainha das fadas, Aurora, a fada que sucedeu Titania. Todas elas estavam passeando pelas ruas em carruagens flutuantes com diversas criaturas aladas que as acompanhavam. Elas estavam ali com apenas um motivo: divulgar para o reino das fadas o Baile da Aurora, um evento onde as mais belas fadas iriam dançar junto com a rainha.

Era o símbolo maior do glamour das fadas: as cores, as vestimentas… tudo gritava a magia. E foi por isso que novamente o coração de Tonitro se encheu de inveja.

Porque essas fadas viviam na esbórnia e na luxúria quando ele próprio era fruto da iniquidade e da malícia? Da miséria e da fome? Tonitro era uma fada como Aurora, mas ele nunca conhecera fartura, e os dias que teve as melhores refeições da vida foram os dias após a morte de sua irmã, Seidh, que morreu de desnutrição. Com menos uma boca para alimentar, ele conseguiu quase um banquete constituído por duas fatias de pão faerico.

Era comum que outros seres, inclusive humanos, achassem que fadas não se alimentavam, e que eram todos iguais. Mas não era verdade, nem todas as fadas podiam viver de mana pura, como as Tuatha de Danann, a maioria retirava a energia primordial de alimentos.

E quanto à igualdade… digamos que todas as fadas eram iguais, mas algumas fadas eram mais fadas que as outras.

Pixies, brownies, leprechauns, gnomos… todos eles eram considerados fadas de nível médio. Os elfos e as dríades de grau alto, mas Tonitro era um boggart, e boggarts não eram fadas de verdade, ao menos não segundo os demais… boggarts eram feios, e na sociedade das fadas, beleza é poder.

Diziam várias coisas de sua raça: que eram agressivos, que traziam azar, que eram teimosos e desobedientes, mas como mais poderia ser a reação de um oprimido contra um opressor? Depois de tantos anos sendo escravos de seus supostos semelhantes, como não serem agressivos? E por que sua presença causava azar? Por culpa reprimida daqueles que os maltratavam?

Talvez seja, mas foi por isso que Tonitro decidiu estragar de vez o baile da Aurora. Iria mostrar a todos sua hipocrisia e sujar os belos salões de Avalon com seu ódio. 

Ele esperou as semanas passarem para que o dia do baile chegasse. E foi assim que seu ódio se acumulou em seu coração sombrio. 

Nesse ínterim, fez uma fantasia espetacular com suas mãos habilidosas: com glitter artificial e papel feito de trigo feérico, fez um par de asas enormes que poderiam ser colocados em suas costas, que não só refletiam a luz do sol, mas criava a própria luz, com baterias feitas de mana pura. Também fez uma máscara de corvo com onix puro, e maravilhosamente lapidada, que havia roubado das minas em que trabalhava. Ele estava planejando aquilo há anos, e todo dia pegava um pouco das pedras e levava para sua casa. 

Também confeccionou sua roupa de gala utilizando pêlo de unicórnio banhado em sangue de uma ninfa, fazendo uma magia tão poderosa de charme, que qualquer um que olhasse para ele se apaixonaria. E é claro, escondeu o que restou dos corpos do unicórnio e da ninfa bem longe de sua casa.

Vestindo sua fantasia e máscara, rumou para o castelo de Avalon, que era nomeado com o nome do reino.

Olhando a fila de fadas belíssimas e encantadoras na porta, admirou mais uma vez e invejou novamente o privilégio das demais. Sua raiva podia ser mesquinha, egoísta, mas era justificada: no reino das fadas, seu nascimento era tudo, ele nunca teria o status de uma fada superior, não importa quanto tentasse ou merecesse.

Ainda na fila da festa, ouviu o discurso de Aurora, a máscara de corvo disfarçando sua repulsa pelas palavras fúteis da rainha das fadas:

— Que o glorioso dia seja inesquecível, minhas belas fadas – Aurora começou com uma saudação típica – que seja lembrado a todos que aqui, em meu castelo, a elite das fadas está reunida, os seres mais belos de todos os planos estão neste mesmo salão para que seja enfim definido quem será escolhido como meu noivo e próximo rei das fadas. 

Um barulho de aplausos cortou o discurso da rainha.

“Espero que aproveitem: bebam de minha bebida e comam da minha comida. Sejam felizes em meus aposentos e dancem à vontade,  logo mais irei dizer os critérios de julgamento para o concurso. Que os olhos de Dunedin estejam sobre todos vocês!”.

Quando finalmente se pôs às vistas de todos, entrando no salão de danças com confiança, sentiu até a música parar um pouco para que todos o admirassem. Um terno de gala branco e dourado com detalhes em vermelho-sangue, asas que não só refletiam as luzes, mas produziam uma luz púrpura própria, que alternava para cores mais quentes dependendo do ângulo, um corpo esbelto e aparentemente musculoso por detrás das roupas, e uma máscara escura cintilante que parecia ser feita da própria noite. Todos estavam olhando para ele, e todos estavam apaixonados.

Quando a multidão se dispersou, os outros entraram no salão de danças. Era implícito que dançar bem era um requisito para ser o rei das fadas, fadas amavam festas e dançar. E os outros competidores, que estavam intimidados por sua presença, sabiam que a melhor coisa que podiam fazer era serem os melhores dançarinos. E torcer para que ele dançasse mal.

Enquanto as fadas de companhia chegavam para serem os pares de cada competidor, reparou que a maioria formava fila para dançar com ele. Se deleitou de prazer ao imaginar o rosto que fariam quando descobrissem quem ele é por trás da máscara. 

Impecavelmente, dançou com todas as fadas que dispunham a dançar com ele, sejam machos ou fêmeas. Seus pés suaves deslizaram pelo salão sem fazer barulho, e sua cintura parecia ter vida própria. Até as fadas que não sabiam dançar dançavam maravilhosamente bem com ele. Era o poder de suas sapatilhas feitas de fibra de vidro de igreja e do chifre e do couro do unicórnio: ela fazia com que os movimentos de seu corpo pudessem ser controlados com mais facilidade, quase que um estímulo às suas sinapses.

E foi assim que novamente chamou a atenção de todas as fadas.

Continuou na festa, dançou, comeu, mas não bebeu. O álcool iria enebriar seus pensamentos e atrapalhar seus planos.

Quando chegou a hora da competição de canto, também surpreendeu a todos com sua bela voz e timbre afinado. Mais uma vez um truque: havia gravado o canto de um pássaro Rocca com um dispositivo, e ativado ele em seu terno, fazendo apenas a atuação de como estivesse cantando por conta própria.

E foi assim que passou a noite, até que chegou à hora da decisão: três da madrugada.

Os pretendentes se alinharam em forma de “U” na frente de Aurora, que detinha um sorriso satisfeito.

— Muito bom, minhas fadas, vocês foram excelentes. A beleza de seus talentos ficará para sempre incrustada na memória de todos que estão aqui. Mas agora só um de vocês será escolhido por mim como digno de ser meu marido.

Havia tensão no ar… todos, exceto Tonitro, estavam apreensivos com o resultado. E então Aurora continuou:

— E então anuncio a vocês meu escolhido: aquele que se destacou em todas competições, chegue mais perto, fada da máscara negra, e conte-nos seu nome.

Tonitro se empertigou, já esperava por isso. Pomposamente, desfilou em meio aos aplausos e burburinhos de inveja que ecoavam no salão.

Agradecendo os aplausos, fez uma reverência à multidão, e se ajoelhou perante a rainha, beijando-lhe uma das mãos levemente.

Ouviu algumas fadas suspirarem perante ao seu gesto, e sorriu.

— Minha digníssima e bela Aurora, minha rainha e pretendente, tenho o prazer de me apresentar oficialmente: meu nome é tonitro.

— Tonitro? Um nome incomum para uma fada, de onde é, Tonitro? – a rainha ergueu uma das sobrancelhas, em surpresa.

— Antes que diga, poderia dizer algumas palavras?

— À vontade, dê seu discurso.

— Antes de mais nada – disse, voltando-se para a multidão – gostaria de relembrar o quanto a sociedade das fadas é uma sociedade que valoriza a beleza e o status, e deixar minha solidariedade à quem nasceu feio.

Todos riram.

— Mas não posso fazer nada, alguns nasceram para a grandeza, outros não. Certo?

Murmúrios de aprovação em todos os cantos.

— Dito isso, acredito ser mais bonito que todos aqui.

Dessa vez teve um silêncio constrangedor, todos olharam nervosamente para a rainha, que estava impassível.

— Não pela aparência, talvez, mas me julgo muito mais belo internamente que vocês, suas criaturas podres e mesquinhas! – as últimas palavras foram ditas em alto tom, vociferando. O que assustou os mais próximos.

Estava todo mundo em silêncio, tenso com o que estava acontecendo.

— Me escolheram como o mais digno. É bem curioso isso, afinal, nunca olharam para mim antes… mas agora vão gravar minha imagem em suas mentes podres! – retirou a máscara e a arremessou ao chão, que espatifou em pedaços. As suas asas também se descolaram de suas vestes.

Olhou para o rosto surpreso de todos presentes, que processavam o acontecido. Orgulhosamente se deleitou de sua surpresa, até que um barulho inesperado o tirou de seu torpor megalomaníaco:

Era o barulho de risadas.

O primeiro a rir foi um nobre fada que estava servindo as bebidas. As outras se contagiaram e começaram a rir também, apontando para a rainha e para Tonitro e caindo na gargalhada.

— A rainha vai casar com a aberração!  – diziam, rindo e segurando o abdômen.

A rainha, em choque, olhava ao redor desesperada.

— Parem, parem.

Eles se aproximavam e riam, para o horror de Tonitro, não era a reação que esperava.

— Olha lá o monstro, vai fazer filhinhos monstros com a Aurora – riam e apontavam o dedo – vamos vê-los procriar.

Uma fada mais ousada chegou perto da rainha e rasgou-lhe parte do vestido, outra jogou um pedaço de fruta mordida em tonitro. Elas foram se aproximando cada vez mais.

— Parem! Socorro! – Aurora gritava – eu sou sua rainha! Guardas! 

Os guardas não socorreram, estavam ocupados rindo.

Um Elfo chegou perto de Tonitro e deu-lhe um empurrão, fazendo-o cair no chão, atônito.

Uma ninfa fez o mesmo com a rainha, e o resto circundava ambos rindo e lançando comidas.

Sentiu dor quando uma fruta acertou seu cocuruto, mas sentiu ainda mais dor quando uma fada lançou fezes em seu rosto.

Eles estavam descontrolados em sua euforia. A rainha ainda gritava:

— Parem, não sou feia, ele que é! A culpa é dele!

Eles não se importavam, continuavam a despi-la e agredi-la com socos e pontapés. Uma fada próxima arrancou uma parte de seu couro cabeludo com as próprias mãos e saiu rindo.

Tonitro estava no chão, encolhido, enquanto elfos chutavam seu corpo inerte.

“É isso que mereço? Eu só queria… só queria ser admirado” ergueu os olhos sangrentos para a multidão e sentiu muito medo, tanto medo quanto sentiu em toda sua vida pregressa. “É verdade… como poderia imaginar uma reação diferente? Durante toda a minha vida, nunca fui da mesma espécie que eles.”

Mais tarde, nos arredores do castelo, os corpos desmembrados de duas fadas estavam sendo carcomidos por ratos. Ambas extremamente iguais em sua grotesca imagem, e nenhuma exalava qualquer sinal de beleza e encanto.

Ao fundo, seres muito belos se divertiam em volta de uma fogueira, dançando e prendendo em estacas duas cabeças: uma feia e uma bela.

Culpa Galopante

Acordei com os olhos remelados e o nariz bem seco: o clima de Porteirinha–MG era definitivamente ruim para minha rinite, e o hotel empoeirado e mal cuidado estava detonando minhas mucosas. Ao meu lado na cama, Lúcia roncava levemente, grunhindo coisas ininteligíveis em seu sono.

Dei dois tapinhas nas costas dela, fazendo com que ela se voltasse para mim ainda em meio-despertar. Suas costas nuas dando lugar à visão de seus seios redondos, bem torneados e com mamilos duros, que mal apareciam por debaixo de seus cabelos lisos, sedosos e negros. Sua pele branca parecia brilhar quando era tocada pela fresta de luz solar que escapulia pelas janelas fechadas. Ela era muito linda e sedutora… quase me distraí em seus lábios vermelhos antes que pudesse dizer:

— Já são nove horas, temos que levantar para não perder o café da manhã do hotel.

— Bom dia, Rafael… — Ela não sorriu, nunca sorria. Mas se espreguiçou e abriu a boca levemente, deixando sair um leve bafo.

Suspirei, até o bafo dela me atraia perdidamente. Levantei-me com um pulo e comecei a me vestir, enquanto ela ainda enrolava preguiçosamente na cama.

Quando terminei de me vestir e aprontar, cutuquei-a novamente para despertar de seu sono:

— Vamos, Lúcia, acorda… o café deixa de ser servido às nove e meia.

Ela resmungou e levantou ainda de maneira desajeitada, indo diretamente para o banheiro. Enquanto andava de costas, parei para admirar sua bunda grande e geometricamente impecável… queria que tivéssemos mais tempo antes do café, queria possuí-la novamente quanto antes fosse possível, mas além do café, havia trabalho a ser feito.

Depois do café que não merece mais que uma nota de rodapé (pão duro, café ralo, e um ovo mexido com gosto de margarina velha), seguimos para a praça principal de Porteirinha, onde a rotina da cidade já fervilhava. Vendedores ambulantes gritavam suas ofertas, velhos observavam da sombra dos bancos e as crianças chutavam uma bola murcha que parecia ter sobrevivido à ditadura.

Lúcia ajeitava a câmera com um profissionalismo frio. Já eu, com meu sorriso cuidadosamente treinado e falsamente carismático de youtuber, abri a gravação:

— E aí, pessoal! Bem-vindos a mais um vídeo do canal Visagens do Brasil! Hoje estamos em Porteirinha, interior de Minas Gerais, uma cidade cheia de histórias macabras. Dizem que, nas madrugadas, quem anda sozinho por essas ruas ouve o som de cascos… e perde a razão! A famosa Mula Sem Cabeça!

Apontei a câmera para Lúcia. Ela, bela como sempre, olhou com uma expressão quase neutra. Contudo, essa neutralidade tinha algo de magnético, de sensual. O público, nos comentários, sempre dizia que ela era “fria”, “distante”… mas ao vivo, essa frieza era pura tentação.

Ela começou:

— Nós vamos conversar com os moradores para entender como essa lenda ainda vive hoje. E quem sabe, à noite, a gente não sai em busca dessa aparição?

Um grupo de senhoras nos observava de longe, cochichando. Uma delas, de vestido florido e terço na mão, aceitou falar. Gravamos sua fala:

— Essa mula aparece é por castigo, uai. Mulher que mexe com padre, que não respeita homem casado, vira monstro. Não tem corpo, não tem cabeça, só fogo e pecado correndo solto pela noite.

As palavras atravessaram Lúcia como se fossem lâminas invisíveis. Sua mão trêmula ajustava a lente da câmera, mas o olhar estava perdido, quase vacilante. Eu percebi, mas, sinceramente, parte de mim adorava. Porque era ali, naquela tensão entre o sagrado e o profano, que ela ficava ainda mais irresistível.

Seguimos gravando outros relatos: um comerciante que jurava ter visto uma sombra flamejante na estrada de terra; um velho bêbado que dizia ter perdido a sanidade após ouvir os cascos por três noites seguidas. A cada testemunho, Lúcia parecia se encolher mais, como se fosse ela mesma o alvo das acusações veladas que ecoavam na boca de cada morador.

E eu, no fundo, sabia por quê. Não era só medo. Era culpa. O pecado dela tinha nome e cheiro. Tinha corpo quente e lençóis suados. E não foi comigo que começara essa história. Mas, embora eu a tenha perdoado, parte de mim gostava de remoer essa história, sabendo que agora ela pertencia a mim.

Lúcia filmava, séria, mas eu podia sentir aquela chama incômoda nela: um fogo que nem sempre era paixão, às vezes era condenação. Naquela noite, quando revi as filmagens, percebi o olhar dela nos enquadramentos. Em cada cena, Lúcia parecia estar se vendo através daquelas histórias, como se a lenda falasse dela.

E eu… eu não sabia se sentia pena ou atração por aquilo. Talvez ambos… O que me deixava um pouco mal por desejar que essa culpa nunca passasse.

— Você podia ter enquadrado melhor a senhora do terço. Parecia amadora. — Disse, de repente, ao ver algumas falhas na filmagem.

Lúcia baixou os olhos.

— Desculpa…

— Sempre desculpa. — Suspirei, puxando-a pela cintura. — Sorte que você compensa de outros jeitos, né?

Ela sorriu, bem levemente, e me afastou. Não era hora, eu mesmo sabia, mas não poderia deixar de provocar…

A noite em Porteirinha parecia engolir o mundo. O ar parado, o silêncio das ruas e o breu que mal era quebrado pelos postes piscando davam à cidade um aspecto de coisa morta. O vento arranhava as janelas do hotel, como se tentasse chamar alguém lá dentro.

— Pronta? — perguntei, ajustando a câmera no tripé.

Lúcia assentiu, vestindo a jaqueta jeans surrada e prendendo o cabelo num coque rápido. Ela segurava o microfone com uma mão e a lanterna com a outra, e o feixe de luz tremia no chão. O brilho amarelado subia pelas paredes mofadas, revelando as rachaduras do corredor, como veias pulsando sob a pele da velha construção.

— Esse vídeo vai dar view, amor — murmurei, tentando animá-la. — “A Maldição da Mula de Porteirinha”. Só o título já chama atenção.

Ela não respondeu. Desde o fim da tarde, estava diferente. O olhar mais fixo, a respiração curta, os olhos semicerrados como se vissem algo que eu não via.

— Você ouviu? — perguntou de repente.

O som veio do lado de fora. Um trote seco, ritmado, metálico, ecoando pelas ruas vazias. Não parecia um cavalo. Era mais… pesado. E o som vinha acompanhado de algo mais: um sussurro abafado, como se alguém chorasse no meio da mata.

— É o trote da mula — disse, surpreso e animado. 

Seguimos o som. A câmera ligada, o microfone captando tudo. As luzes das casas foram sumindo até restar apenas a estrada de terra e as cigarras. À distância, uma silhueta escura: um celeiro antigo, de madeira apodrecida e teto caindo. O vento batia nas portas frouxas, fazendo-as gemer.

— Deve ser lá — falei.

Entramos. O cheiro era de mofo, ferrugem e merda de animal. Pedaços de couro pendiam do teto, como restos de algo que tinha sido arrancado à força. Lúcia apontou a lanterna para o chão e vimos marcas profundas, cascos queimados no barro, como se o solo tivesse derretido.

— Você está pálida, amor. Não vai me dizer que acredita nessas histórias de velha beata, né? — Eu sorri, sabendo exatamente o que aquelas palavras fariam com ela.

Ela não respondeu, apenas continuou iluminando o caminho e filmando. O som ia e vinha, como se algo estivesse rondando o local. Nunca esperei realmente encontrar algo, mas começava a ficar cada vez menos cético. Olhei para Lúcia, que estava com a câmera nas mãos, tremendo.

— Se você perder essa filmagem, Lúcia, juro que…

Ela me olhou assustada.

— Que o quê?

Sorri. 

— Nada. Você não vai perder. Você nunca me decepciona de verdade, não é?

Novamente, sem resposta, seguimos por muito tempo os sons, até que o silêncio voltasse a imperar pelo local. A criatura havia sumido, nos deixando sozinhos, apenas com a gravação para provar o que realmente havia acontecido.

Voltamos para o hotel exaustos, com a adrenalina ainda latejando nas veias. A câmera, suja de poeira e com a bateria quase no fim, descansava sobre a mesa. Lúcia a ligou, ansiosa. Eu me sentei ao lado dela, um sorriso satisfeito no rosto.

— Se a gente pegou o som dos cascos, acabou. Esse vídeo vai explodir. — Disse, já imaginando os comentários, os novos inscritos, o patrocínio que finalmente viria.

Ela assentiu, meio trêmula, e apertou o play.

O vídeo começou: a praça, as entrevistas, a estrada, o celeiro, a sombra. As imagens estavam perfeitas: tremidas o suficiente para parecerem reais, mas nítidas o bastante para convencer o público.

Mas havia algo errado.

Silêncio.

Eu franzi o cenho.

— Cadê o som?

Ela aumentou o volume. Nada. Nem o vento, nem os cascos, nem nossas vozes.

— Deve estar no fone… — murmurou, desconectando-o e tentando novamente.

Silêncio.

Meu estômago gelou.

— Lúcia… o microfone estava ligado, certo?

Ela parou. A mão ainda segurava o cabo. Os olhos, marejados, se fixaram em mim.

— Eu… acho que… esqueci de apertar o botão.

O mundo pareceu se contrair dentro do quarto.

— Você acha? — minha voz subiu, ríspida. — Você tinha UM trabalho, Lúcia! UM!

Ela tentou se justificar, mas as palavras vinham quebradas, abafadas.

— Eu estava nervosa, o som, o…

— Nervosa? — Ri, um riso seco e venenoso. — Nervosa é quando você derruba café na mesa. Isso aqui é INCOMPETÊNCIA. A gente veio até o inferno dessa cidade, correu risco, gravou tudo, e você ESQUECEU o microfone?!

Ela baixou o olhar.

— Eu posso tentar refazer a edição… colocar trilha…

— TRILHA?! — berrei, levantando da cadeira. — Vai pôr música de terror por cima do NADA? Quer enganar o público? Você é uma piada, Lúcia. Uma inútil completa.

Ela se encolheu, respirando fundo, mas as lágrimas já brilhavam sob a luz amarelada do quarto.

— Rafael… por favor, não fala assim…

— Não fala assim? — Repeti, aproximando-me, cuspindo as palavras. — Eu falo até paciente demais para uma puta que nem você!

Aquilo finalmente saiu, guardado por tempo demais para ser saudável, sentia finalmente o alívio de confrontá-la depois do que havia descoberto. Há dois anos, na hora que ela me contou… como ela estava chorando pela primeira vez em minha presença, só podia fazer meu papel de confortá-la, mas agora, eu poderia falar tudo que sempre quis.

Ela arregalou os olhos.

— Para, Rafael… — murmurou, a voz falhando.

Mas eu continuei.

— Todo mundo na cidade sabia. E agora você quer posar de jornalista, de cineasta, de “pesquisadora de lendas”? Você sempre foi boa só pra uma coisa, e nem isso faz direito. Você mal tinha 15 anos quando servia de marmita para o Roberto. Você nem mesmo pensou na esposa ou nas filhas dele, que tinham quase sua idade!

O som do ventilador foi o único que ousou preencher o silêncio que seguiu. Lúcia ficou imóvel, respirando devagar, os olhos presos no chão. A câmera ainda gravava, o LED vermelho piscando como um olho cúmplice.

Eu sentei na beira da cama, o peito arfando. Por um momento, me arrependi do que dissera. Mas apenas por um momento. Porque, olhando para ela, o rosto devastado, a boca trêmula… eu percebi o quanto ainda me excitava vê-la quebrada.

Lúcia levantou sem me encarar. Caminhou até a janela, abriu a cortina. Lá fora, a rua estava vazia, mas o som… ele voltou. Um trote metálico, abafado, incomodando nossos ouvidos.

Mas dessa vez, algo estava errado… 

O som estava vindo de dentro do nosso quarto. 

— Você está ouvindo isso? Liga o microfone agora! — Ordenei, mas ela não respondia, apenas chorava na janela.

Olhei para a câmera e me aproximei dela, pegando-a em minhas mãos e procurando o botão que ligava o microfone.

— Certo, sei que tenho que fazer tudo sozinho mesmo.

Ela continuou sem resposta, chorando copiosamente, mais alto.

— Certo, Lúcia, vamos gravar. A gente discute isso depois…

Ela se virou para mim, o rosto retorcido em tristeza e ódio. Mas continuava sem dizer nada. Lagrimas ainda escorrendo sem parar.

O som começou a ficar mais alto ali dentro.

— Olha… me desculpa. — Comecei. — Eu vacilei, não deveria ter falado isso, mas tipo…

Inquieto, virei a câmera para ela, com o microfone já ligado, e esperando que ela finalmente “despertasse” e passasse a me ajudar.

Olhando pela tela da câmera finalmente vi:

As lágrimas de Lúcia evaporavam antes de tocar o chão. Seus olhos já não eram humanos, eram brasas vivas, queimando toda aquela culpa que eu havia alimentado por tanto tempo. Senti o cheiro de fumaça, de enxofre. 

— Lúcia?

Ela não respondeu. Não com palavras. O som que saiu dela era um relincho gutural, um grito de parto às avessas: algo nascendo não da vida, mas da morte de quem ela foi.

Seu corpo começou a se contorcer de um jeito antinatural, como se os ossos se movessem sozinhos, buscando novas formas sob a pele. O som era horrendo: estalos secos, músculos rasgando, algo se quebrando e se refazendo ao mesmo tempo. A câmera tremia nas minhas mãos, mas eu não conseguia parar de filmar.

A pele do pescoço dela começou a se rachar, abrindo fendas vermelhas que brilhavam como ferro em brasa. A carne fervia, escorrendo vapor. O cheiro de sangue quente e enxofre tomou o quarto.

— Meu Deus… Lúcia, para com isso! — gritei, mas era inútil.

O cabelo negro dela se eriçava, flutuando como se estivesse submerso em água fervente. Suas mãos crispadas arranhavam o ar, tentando agarrar algo invisível, até que os dedos começaram a endurecer, a se fundir. As unhas se tornaram cascos.

Ela caiu de joelhos, arfando. O som que saiu de sua garganta era uma mistura grotesca de choro e relincho. A voz humana se perdeu em meio a um grito sufocado, enquanto o pescoço começava a se alongar, a carne sendo rasgada em fios incandescentes. O rosto desaparecia, a cabeça se deformando em pura luz, fogo líquido cuspindo pelas bordas da pele.

— Lúcia, eu sinto muito! Eu não quis dizer, eu te amo, por favor…

Mas minhas palavras se perderam no relincho que consumia o que restava da mulher que destruí. Assim, o corpo dela, nu e brilhante de suor e fuligem, arqueou-se, e do pescoço surgiu uma chama espessa, laranja e azulada, que dançava como um estandarte do inferno. O cheiro de cabelo queimado e carne derretida enchia o ar, me fazendo tossir.

Ela tentou se erguer, mas o corpo já não obedecia. O peito explodiu num clarão, e eu ouvi algo, uma voz, ou um eco, murmurando entre os relinchos:

“Meu pecado… nossos pecados… não se apagam”

O quarto se incendiava com o fogo que jorrava do corpo dela, mas não queimava as paredes, apenas a minha pele. Eu tentava apagar as chamas com as mãos, mas elas me atravessavam, quentes e frias ao mesmo tempo, deixando um rastro de dor que subia até os ossos.

Gritei, desesperado, sabendo de alguma maneira que, mesmo que o hotel tivesse outros hóspedes, ninguém nunca mais iria me escutar.

A Mula, a minha Lúcia, se erguia agora sobre quatro patas retorcidas, o corpo agora coberto de brasas vivas e rachaduras que deixavam o interior incandescente à mostra. Onde deveria estar o rosto, havia apenas fogo, pulsando como um coração exposto.

Ela relinchou novamente, e o som atravessou os confins de minha alma. E eu, ainda filmando, não conseguia desviar o olhar. O fogo tomou o tripé, a cama, o chão, mas o LED da câmera continuava piscando, registrando tudo, até o último instante. E então toda a dor lentamente sumiu, quando suas chamas consumiram por completo minha carne e meus ossos.

Quem viu a filmagem depois descreveu como a criatura que já fora Lúcia permaneceu imóvel sobre os restos fumegantes. Não havia culpa. Não havia pecado. Havia apenas fogo, e liberdade, e o som de cascos se afastando pela cidade.

Deixe um comentário

O Mago do Deserto

O MAGO DO DESERTO

A areia incomodava seus olhos, arranhava sua íris azulada e grudava em sua pele suada. O poço de água estava a apenas cinco quilômetros do monastério, mas sair em meio ao deserto era cansativo para a criança. Mas seu mestre estava com sede, não havia muito o que fazer se não ir buscar a água ele mesmo.

Voltou para os limites do monastério cansado, mas com um balde de água fresca em mãos. Quando adentrou as paredes de mármore branco sagradas, percebeu que Holt estava esperando por ele, abanando o rabo e com a língua para fora. Não era fácil domesticar um chacal, eram animais astutos, mas tímidos e retraídos, não confiavam em humanos, mas Perl tinha certeza que Holt havia se aproximado deles por causa da aura que exalava de seu mestre: era uma aura gentil e acolhedora, comum a poucos magos, visto que em sua maioria eram pessoas despreziveis.

Acariciou as orelhas de Holt, que retribuiu com um latido, e voltou a caminhar por dentre os corredores de mármore do monastério, até que chegou no escritório de seu mestre, o Grande Mago Ja’fal. Ele era um homem alto, com a cabeça completamente lisa, evidenciando a sua falta de cabelo, sua pele cor de oliva já estava desgastada pelo sol e velhice, e ele exibia em sua fronte um cavanhaque branco de respeito, além de um sorriso fácil no olhar.

— Pegou minha água, jovem Perl? – perguntou, já sabendo a resposta.

— Peguei sim – com um arfar de esforço, colocou o balde em cima de uma mesinha lateral, e passou à outra mesa para pegar um copo e servir seu mestre.

Assim que o velho sorveu as últimas gotas de seu copo, ele se levantou em um ímpeto jovial, pouco característico de sua idade. 

— Estava ansioso para mostrar algo para você – disse o velho mago, se apressando pelo corredor – venha! Não fique parado aí!

Após hesitar, surpreso, por alguns segundos, Perl seguiu o mago pelos corredores, imaginando o que havia acontecido com seu mentor para ele agir assim. Holt os seguia abanando o rabo, sem ter a mínima ideia do que estava acontecendo.

Pararam em frente à biblioteca do monastério, a porta dupla de madeira de mogno era pesada, mas mecanismos internos faziam-na abrir quando alguem se aproximava, e isso que ela fez: quando a dupla (e o animal) surgiram na frente dela, ela se abriu mostrando a infinidade de livros que havia lá dentro. Eram várias torres de madeira circulares, com livros das mais diversas áreas, acompanhadas de estantes e mais estantes, um golem de mais de dois metros de altura era o bibliotecário, foi feito por Ja’fal há anos atrás para servir como guardião e facilitador de seu trabalho na biblioteca.

O golem estava arrumando livros na estante quando o mago passou por ele quase correndo.

— Venha Perl, estamos chegando!

Confusa, a criança acompanhou o mago, fazendo um breve aceno para o golem, que estava sem se incomodar com a situação.

O mago parou em frente à uma das torres de livros, e deslizou o dedo pela madeira da estrutura por um breve momento, achou o que estava procurando quando um barulho de clique pôde ser ouvido e mecanismos começaram a serem ouvidos. Enquanto o barulho de engrenagens e polias ressoava em seus ouvidos, uma parede se abria no fundo da biblioteca, revelando uma escadaria que descia em um corredor pouco iluminado por lamparinas azuis.

— Há quanto tempo isso existe? – perguntou Perl, impressionado.

— Desde antes de você aparecer aqui no monastério – ele fez uma pausa enquanto descia a escadaria – eu estou trabalhando nessa magia há um tempão, mas só ontem consegui realizá-la.

— Que magia?

O mago olhou para trás e sorriu.

— Você vai ver…

Enquanto desciam pela grande escadaria que Perl nem sequer imaginava que existia, o velho mago lhe perguntou:

— Você leu o livro que eu lhe dei? “A Breve História da Magia”?

Perl hesitou.

— Li o começo…

— Então não deve ter chegado na parte importante… – resmungou – depois abra no capítulo 17, “O Paradoxo da Mana” e terá mais conhecimento sobre o assunto.

— Do que está falando?

— Estou falando que a Mana neste mundo pode vir a acabar um dia – esperou as palavras pesarem no ombro do rapaz – magia, Perl, é realizada com a energia que conhecemos como Mana, quando utilizamos magia, um pouco da Mana se acaba, pois quando construímos algo com magia, parte da mana fica cristalizada no constructo mágico.

Perl quase sentiu a cabeça girar com tanta informação.

— Em resumo, significa que a magia um dia deixará de existir.

— Mas isso seria um desastre! – retrucou Perl.

O velho mago sorriu.

— E é por isso… – fez uma pausa dramática e abriu os braços, ao mesmo tempo que chegavam ao final da escadaria – que eu vou revolucionar esse mundo!

Assim como uma criança com um brinquedo novo, talvez até ainda mais animado que isso, ele saltitou no chão firme e um pouco úmido do subterrâneo e passou a ativar umas alavancas que se destacavam no escuro. Quando ele as ativou, o teto abobadado do subterrâneo pareceu se iluminar em uma explosão de cores, e diversos pontos luminosos foram surgindo no firmamento como se fossem…

— São estrelas – Perl murmurou – que lindo!

O velho mago assentiu, satisfeito, e passou a girar um mecanismo parecido com uma manivela que estava em uma das paredes. Quando ele fez isso, as estrelas começaram a girar também e se organizaram em forma de espiral, com seus brilhos inconstantes fazendo um show de luzes na sala subterrânea.

— É com esse equipamento que irei revolucionar o mundo da magia – disse o velho mago – Usei de várias áreas da magia para fazer isso: Abjuração, conjuração, astrologia e até necromancia. 

— Como funciona? E o que faz?

—  Quando eu era bem mais jovem, eu descobri que representações de algo podem conter parte da mana da coisa original. Como exemplo, um quadro de um mago poderoso pode conter parte da mana do mago – continuou tagarelando – mas isso me levou à uma dúvida: se alguém me pintar várias vezes, vou perder parte da minha mana?

— Acho que não, não faz sentido.

— Exato, foi ai que descobri que a arte cria mana, é como se quando algo fosse criado, a mana fosse criada junta! Mas nunca era o suficiente. A mana criada com uma peça de arte era ínfima se comparada à mana do objeto original. E então a solução que arrumei para isso foi retratar em arte uma coisa que possuísse muita mana: um sistema solar inteiro!

— E foi assim que conseguiu mais mana?

— Não… – sorriu.

— Não deu certo?

— O quadro de um sistema solar não foi o suficiente nem para angariar mana o suficiente para fazer uma magia de primeiro círculo! – resmungou – nesse momento eu quase desisti, mas aí vieram meus conhecimentos de necromancia.

Aproximou-se do jovem.

— Necromancia consiste em conectar sua mana com a mana do mundo dos mortos, porque eu não faria isso com o cosmos? Eu só precisaria conectar minha mana com algo no espaço. Mas a pergunta se mantém… como eu faria isso?

Antes que Perl pudesse responder, ele continuou:

— Magia de conjuração, eu poderia conjurar um aspecto das estrelas aqui no meu escritório, só precisaria estar em contato visual com elas. Daí veio minha ideia de conectar tudo com arte, fiz esse observatório de estrelas, memorizei a posição de cada uma e repliquei aqui no interior do monastério. Depois, conjurei a essência do cosmos usando minha própria mana e cortei o acesso à mana exterior com uma magia de Abjuração, para testar o resultado.

— E qual foi o resultado?

— A mana produzida é o suficiente para sustentar a academia aérea de magia no ar por um ano, e consegui isso em um dia – seus olhos brilhavam – é um torrencial de mana!

Perl estava impressionado, não tanto quanto o seu mestre esperava, mas estava bem impressionado. Mas ainda restava uma dúvida:

— E o que vamos fazer com toda essa mana?

— Distribuir pelo mundo, mas não sei como ainda. Se deixarmos o curso natural tomar conta, a mana acaba se espalhando pelo mundo em algumas centenas de anos, mas não temos todo esse tempo para colher os louros de nosso processo.

— Entendo, e isso fica ativado para sempre? Não vai ter um problema de excesso de mana?

— Ainda não está ativado, a alta densidade da mana no ambiente faria a gente sufocar, ou pior: nos transformaria em quimeras.

— Então quando vamos ligar?

— Vou ligar agora somente para demonstrar o efeito para você, mas temo que vai ficar desligado por um bom tempo, até eu descobrir uma maneira de dissipar toda essa mana.

Ja’fal deu um sorriso enigmático enquanto olhava para Perl, que estava agora mais envolvido pela ideia do que uma torrente de mana poderia representar. O velho mago, com sua energia jovem e olhar cintilante, se preparava para o momento que ele julgava ser o auge de sua longa jornada de experimentos e descobertas.

Com um gesto teatral, ele puxou uma alavanca no painel à sua frente. Instantaneamente, a sala subterrânea foi preenchida com uma luz intensa. As estrelas no céu artificial começaram a brilhar com mais força, formando uma espiral complexa que parecia girar sobre eles como um redemoinho cósmico. Perl ficou momentaneamente cego pela intensidade, mas logo seus olhos se ajustaram e ele pôde ver, surpreso, como as estrelas começaram a dançar, cada uma emitindo raios cintilantes que pareciam tocar a própria essência do universo.

A mana no ambiente crescia, e Perl podia sentir uma leve pressão no ar, como se a própria atmosfera estivesse carregada com algo poderoso, algo que ele ainda não conseguia compreender completamente.

— Eu sei que parece maravilhoso, mas observe com cautela — disse Ja’fal, observando a reação do jovem. — Esta não é a mana de qualquer pessoa. Eu extraí a energia diretamente do tecido cósmico. Aqui não há apenas magia… há um pedaço do próprio universo. Se essa energia não for controlada, pode transformar tudo ao seu redor.

Perl, maravilhado e um pouco temeroso, olhou para as estrelas flutuantes, que agora pareciam estar se aproximando perigosamente. Ele sabia que estava diante de algo imenso, algo que poderia mudar o destino do mundo, mas sentia também que o velho mago estava caminhando em uma linha tênue entre a genialidade e o risco absoluto.

— Mas como você vai controlar algo tão grande, mestre?

Ja’fal sorriu, um sorriso cheio de segredos e promessas.

— Eu não posso controlar o cosmos, Perl, mas posso conectá-lo ao meu próprio corpo. Com isso, a mana passará a fluir através de mim de uma maneira que nunca se dispersará. Vou me tornar uma espécie de ânfora mágica, um recipiente para o poder. Essa energia será contida até eu encontrar a maneira de usá-la em sua totalidade.

De repente, o som de uma estranha vibração cortou o ambiente, e Perl sentiu um arrepio na espinha. As estrelas começaram a brilhar mais intensamente, como se quisessem se libertar da sala subterrânea e invadir o mundo exterior. O ar ficou mais denso, e Perl podia sentir a presença da magia ameaçando sair do controle.

Ja’fal franziu a testa e correu para o painel, tentando puxar de volta a energia. Mas as engrenagens pareciam ter se desgarrado, como se a própria força da mana estivesse fora do alcance do mago.

— Está fugindo do controle… — murmurou Ja’fal.

Perl olhou ao redor, tentando entender o que estava acontecendo. Holt estava inquieto, rosnando e pulando em círculos, aparentemente sentindo a intensidade da mana no ar. A criança sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo, e uma vontade de fugir tomou conta dele.

Ja’fal olhou para Perl com uma intensidade quase mística, como se tivesse alcançado um nível de compreensão que o jovem não podia ainda captar.

— Estamos fazendo história, Perl. Estamos desafiando os limites da magia e da própria existência. O que acontece daqui pra frente pode mudar tudo.

Neste momento, algo estranho aconteceu. As estrelas começaram a desmoronar, não como uma queda, mas como se estivessem se distorcendo, retorcendo o espaço ao seu redor. O céu artificial começou a rachar, e com isso, uma onda de mana pura começou a se derramar pela sala, iluminando cada canto com uma luz cegante.

— Mestre! — Perl gritou, olhando para Ja’fal, que ainda estava em transe, totalmente imerso na experiência de controlar o caos mágico.

De repente, uma voz tenebrosa surgiu de onde menos esperava: 

— Canalize a magia, garoto – era uma voz desconhecida, mas estava saindo da boca canina de Holt.

— Holt?

— Me apossei do corpo mais próximo que pude encontrar, meu verdadeiro nome é – seguiu a dizer vários fonemas incompreensíveis – mas preciso que me escute: se não canalizar a magia agora, um desastre sem precedentes vai acontecer.

Perl entrou em pânico, canalizar a magia? Como? Ainda não era um mago experiente, podia fazer pouca coisa. Sem saber para onde ir e o que fazer, tentou concentrar seu “olho interior” para observar a mana, assim como seu mestre havia lhe ensinado. 

Viu uma torrente tão grande quanto o próprio deserto, uma energia intensa que quase lhe cegava o olhar, sentiu as ondas de mana tocarem sua pele e algo dentro dele mudar, mas não o suficiente para se desesperar. Concentrou seus órgãos mágicos para se tornar, assim como seu mestre, uma ânfora da magia, e começou a absorver a quantidade enorme de mana que descia das estrelas.

Não demorou muito para que percebesse que foi uma tentativa fútil, seu corpo estava repleto de mana até o limite, e nem um pouco do torrencial havia sido diminuido. Mas a voz que saia de Holt lhe encorajou:

— Isso garoto, agora solte a seguinte magia – instruiu o garoto para repetir as palavras que dizia.

Ao fim do encantamento, o ar parecia ter mudado, e o torrencial de mana parecia estar diminuindo. Em poucos minutos, a mana parecia estar se dissipando e penetrando as areias do deserto.

Perl se inquietou, tudo parecia ter dado muito certo, mas no pânico, havia soltado uma magia cujo efeito ele desconhecia.

— O que foi que eu fiz? – perguntou para Holt, que fitava-o com um olhar vazio.

Seja quem for a criatura cósmica que havia se apossado de Holt, já tinha ido embora. Preocupado, olhou para o seu mestre, e ficou desconcertado quando não o viu lá, somente suas roupas estavam largadas no chão, como se ele tivesse evaporado.

Com um calafrio na espinha, percebeu que estava sozinho de novo, e a imensidão do cosmos o fitava, como se esperasse por algo dele. Olhou para cima, as estrelas ainda estavam lá, e finalmente percebeu, com seus sentidos mágicos, o que havia acontecido: seu mestre havia se fundido com o deserto, e a mana havia se espalhado em toda sua extensão, diminuindo a pressão mágica da atmosfera.

Saindo para o lado de fora do monastério, viu que o ar estava mais pesado, e a areia estava brilhando em um tom róseo, e as estrelas… elas formavam um rosto demoníaco.

Deixe um comentário